De olho nos maus tratos

Como identificar - e o que fazer - caso seu filho esteja sendo maltratado
Por Redação
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Por Carolina Mouta

Qualquer mãe fica louca só de pensar que alguém pode estar maltratando seu filho. Haja confiança para sair de perto deste serzinho tão amado, deixá-lo com a babá ou na creche, por exemplo. Deixar o pequeno na escolinha ou com alguém que cuide dele em casa não é uma tarefa tão simples assim e, sem fazer alarde, é preciso ser realista: casos de maus tratos podem acontecer com ele fora de casa ou bem embaixo do seu teto. Como evitar? Conheça os tipos de maus tratos, aprenda a detectá-los e saiba o que fazer se forem descobertos.

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No Brasil, existem poucos estudos sobre o assunto, o que dificulta visualizar a dimensão do prejuízo social e emocional que os maus tratos acarretam à criança. Entretanto, uma pesquisa sobre o tema, desenvolvida entre 1996 e 2007 pela Universidade de São Paulo (USP), apontou uma estatística alarmante: os órgãos responsáveis receberam mais de 49 mil denúncias envolvendo todo o tipo de violência. E o pior: estima-se que este número seja somente 10% dos casos reais. "As pessoas têm medo de denunciar", diz a psicóloga Vânia Garcia.

Reconhecendo os sinais

Os especialistas são unânimes ao dizer que crianças não mudam o comportamento à toa. Ao menor sinal, os pais devem tomar providências. A atenção dos adultos que cercam a criança é fundamental para reconhecer que algo não vai bem.

Os bebês se expressam através do choro e de alterações no sono. "É perceptível quando ele está inquieto", garante Vânia. Quando a criança é maior, a mudança na conduta aparece através de outros indícios. Segundo a psicóloga, queda no rendimento escolar, falta de apetite, agressividade, introversão, instabilidade afetiva, medo de algumas pessoas e dificuldade de relacionamento são vestígios de um problema.

"A criança fica arredia ao toque, mesmo se for um carinho. Tem terror noturno, por vezes mutismo seletivo, irritabilidade, medo na ausência dos pais", lista a psicóloga Cinthia Polycarpo. Essas variações no comportamento podem evoluir para problemas psicológicos como transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, transtorno obsessivo compulsivo, depressão e diminuição da atenção.

Como evitar

Um bom caminho para evitar problemas é o diálogo. Os pais devem deixar claro para os pequenos quais são as atitudes esperadas da babá, das professoras e por aí vai, chamando a atenção, principalmente, para aquelas que não são permitidas. Dessa forma, diante de uma situação atípica, o filho sente-se à vontade para relatar aos pais o ocorrido.

O melhor é conversar com a criança e saber como foi o seu dia. "É de extrema importância que os pais mantenham um diálogo aberto com seus filhos e que sempre os certifiquem de que, por mais errados que eles estejam em alguma situação, poderão contar com os pais", observa Cinthia.

No caso das babás, os pais devem observar suas atitudes. Quando a profissional evita deixar a criança por muito tempo sozinha com os pais, desconfie. "A babá que pratica maus tratos geralmente se mantém por perto como forma de ameaça para a criança. É, aparentemente, muito amável e pouco se sabe sobre sua vida", analisa a especialista.

Tipos de abusos

A violência pode acontecer de diversas formas. Uma das mais difíceis de identificar envolve maus tratos psicológicos, como rejeição, discriminação, agressão verbal, cobrança e punição exagerada. "Isso pode trazer graves danos ao desenvolvimento psicológico, físico, sexual e social da criança. Pode acompanhar outros tipos de maus tratos, em forma de ameaças ou chantagens, ou vir isoladamente", explica Vânia.

Nos maus tratos físicos é usada força de forma intencional. Os pais devem desconfiar de manchas roxas, machucados no corpo e "quedas" frequentes relatadas por quem convive com a criança. Duvide sempre. Cinthia Polycarpo aconselha que os pais observem e perguntem se os hematomas apareceram porque a criança caiu ou se alguém a machucou.

Não é sempre que a violência deixa marcas. Os pais devem ficar atentos, também, a abusos sexuais. A negligência é considerada um mau trato. Deixar de prover as necessidades básicas para o desenvolvimento da criança também é uma forma de violência.

Traumas

Como são muitos os tipos de abusos aos quais uma criança pode ser submetida, os traumas são diversos. Segundo a psicóloga Vânia Garcia, os danos à autoestima e depressões são comuns em vítimas que foram abusadas sexualmente.

Crianças que sofreram espancamento podem ficar agressivas mesmo com as pessoas mais próximas. "A criança desenvolve estilos de processamento de informação e crenças sobre si mesma e o mundo erradamente. Isso favorece o surgimento de interações agressivas, em que prestam mais atenção e processam preferencialmente os estímulos hostis dos ambientes. Elas passam a interpretar as interações do outro como hostil", explica Cinthia.

Como proteger

Para proteger a prole, alguns pais optam, além da conversa, por instalar câmeras em casa e observar o comportamento da babá. Uma vez constatadas agressões, é prisão na certa. Renata Dias, de 30 anos, lançou mão da tecnologia. Assim que decidiu deixar Cauê, de um ano, sob responsabilidade de uma babá, a médica contratou uma empresa e instalou a aparelhagem em três cômodos da casa. "A babá chegou dois meses depois, através de uma agência de empregos. Não é pessoal, mas confesso que eu sinto meu filho bem mais protegido sabendo que posso monitorar o que acontece na minha ausência", conta.

Se você não dispõe de recursos financeiros para montar o aparato, os vizinhos podem ser aliados. Pergunte se eles notaram algum comportamento diferente na sua casa como brigas ou choros.

O que fazer com as crianças

As crianças que passaram por algum tipo de mau trato geralmente são encaminhadas a um tratamento psicológico. São poucas as unidades do Sistema Único de Saúde com estrutura para esses casos. O profissional procura entender o ocorrido através de atividades desenvolvidas com brinquedos e desenhos.

"Primeiro é necessário desculpabilizar o paciente que, muitas vezes, acredita ter sido culpado pelas agressões sofridas, como se ele tivesse feito realmente algo de errado", analisa a psicóloga Cinthia Polycarpo.

Como e onde denunciar

Os maus tratos sofridos por crianças e adolescentes estão descritos no Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei n° 8069 de 13/07/1990, nos artigos 13 e 245. Existem no Brasil diversas entidades preocupadas com o bem-estar do menor. Tenha em mãos essa lista:

- Conselhos Tutelares

- Juizado da Infância e da Juventude

- Autoridades Policiais

- Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude

- Centros de Defesa da Criança e do Adolescente

- Programa SOS Criança (FIA)

Os agressores podem responder tanto cível quanto criminalmente. O primeiro passo para as providências cabíveis serem tomadas é a denúncia. Se for uma agressão física, será necessário pedir uma perícia ao Instituto Médico Legal, que encaminhará o resultado a uma delegacia. Com o inquérito, o Ministério Público entra em cena, levando o caso às varas da infância e juventude. Criminalmente, a pena varia entre cinco e 30 anos de prisão, dependendo da gravidade da agressão.

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