Meninas superdiplomadas

Em uma gaveta de seu apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro, a empresária Raquel Osolins guarda um tesouro: uma pasta com mais de quarenta certificados, todos de cursos que fez ao longo da vida. “Já fiz de tudo, de mitologia grega a origami”, revela. No meio de tanta papelada, existe até diploma de aulas de teatro-dança japonês. “Esse aí eu não entendi nada, mas a professora era tão maravilhosa quando falava que eu tinha medo de interromper”, diverte-se. Raquel é apenas um exemplo de mulheres que adoram estudar e freqüentam os mais diversos cursos, pensando não só em turbinar a carreira, mas ampliar as habilidades. A partir daí, surgem algumas questões: quais serão os prós e os contras de se ter tantos diplomas em mãos? Será que algum deles realmente serve para alguma coisa? O que acontece na hora de procurar um emprego?

Carla Fabiana Santos, consultora do Grupo Catho, diz que alguns cursos podem ajudar. “Os cursos feitos como hobby são interessantes, porque proporcionam uma boa qualidade de vida. As empresas valorizam a busca do desenvolvimento pessoal”, afirma. No entanto, adverte que essas atividades extras só precisam aparecer no currículo se tiverem relação com o cargo pretendido. Na hora de investir na carreira, segundo a consultora, é preciso manter o foco. “Se o objetivo é crescer na profissão, é necessário um aperfeiçoamento dentro da própria área, como uma pós-graduação, um MBA ou um mestrado”. A psicóloga Sonia Baranhuk Basem tem uma visão um pouco diferente. “Acho interessante citar os cursos, mesmo os mais variados, porque eles mostram que a pessoa sabe aproveitar as horas de folga e se relaciona bem fora do ambiente de trabalho”, observa.

Tem gente que consegue seguir um único caminho, como Silvana Guerrese, secretária e assistente de administração. Apostando em sua habilidade em aprender idiomas, não só fez faculdade de Letras, com especialização em português, como também concluiu os cursos de inglês, italiano, espanhol e francês. Neste último, ainda obteve certificado de proficiência. “Atuei no atendimento a turistas em duas empresas e ainda fui freelancer no Cais do Porto, no Rio, recepcionando estrangeiros”, diz. Além disso, deu aula em escolas e fez traduções. No cargo atual, não usa tanto o que aprendeu. Ainda assim, já planeja uma volta aos estudos: está pensando em aprender alemão.

Já a estudante Stella Souto atirou para vários lados. Concluiu a faculdade de Direito, começou outra, de Engenharia, e ainda foi estudar idiomas. Formou-se em inglês e espanhol, cansou do italiano na metade do curso, mas, assim como Silvana, decidiu trabalhar na área. “Fui dar aula de inglês e português para estrangeiros”, conta. Nesse período, interessou-se por aulas da área tecnológica, como montagem e manutenção de computadores e linguagens de programação. “Fiz vários cursos que não tinham nada a ver com minha formação, por puro prazer de aprender”, afirma. Silvana concorda com ela. “Aprendizado, para mim, é enriquecimento”.

Apesar da exigência cada vez maior por profissionais que se destaquem em alguma área, as meninas esbarram em um obstáculo cada vez mais comum ao mostrar o currículo: a superqualificação. “Já aconteceu comigo três vezes”, diz Stella. “Me disseram na cara que eu não servia para o cargo porque sabia coisas demais”. E saber demais causa desconforto, na visão de Silvana. “Se a chefia e os colegas não estão preparados, você acaba assustando as pessoas”. Resultado: além de ter de aceitar um salário menor do que o merecido, acaba enfrentando um desânimo total. “Os casos de eliminação por superqualificação acontecem, sim, mas atingem principalmente pessoas que possuem muitos cursos e pouca vivência, ou seja, estudaram muito e trabalharam pouco”, explica Carla Fabiana.

Se não forem usados imediatamente, os conhecimentos adquiridos nas aulas podem ser um salva-vidas no futuro. Principalmente quando se leva em conta o networking. “Você conhece muita gente, faz amigos, e essas pessoas podem vir a precisar de alguém como você para determinado trabalho. É sempre bom ser visto”, comenta Raquel, que também se aventurou por artes cênicas e plásticas antes de se tornar empresária no ramo de notícias online. Outra maneira de utilizar esses conhecimentos, segundo a psicóloga Sonia, pode surgir nos momentos de estresse no trabalho. Ela cita o exemplo de um curso de origami. “Praticando, o profissional se desliga emocionalmente dos problemas e relaxa. Quando isso acontece, podem surgir novas idéias”, afirma.

Paixão por cursos e novidades, mesmo em múltiplas áreas, para Sonia, é saudável. “Se a pessoa deseja aprender cada vez mais e expandir seus conhecimentos, isso é ótimo, pois a produtividade aumenta. O importante é ela se sentir feliz e motivada, não importa quantos cursos tenha feito”, conclui. Então, que tal tirar o mofo dos diplomas escondidos na gaveta?