Ele é o próprio símbolo e o sabor da comemoração: aniversário, réveillon, estréia, aprovação nos estudos, promoção no trabalho… Na verdade, cá entre nós, qualquer coisa pode ser uma boa desculpa para uma taça de champanhe. Tanto que no Orkut a comunidade com o sugestivo nome “Pela Banalização do Champanhe” já conta com mais de 29.700 membros, num bom reflexo do que anda acontecendo por aí. Cada vez mais desvencilhada da exclusividade das festas, a bebida tem virado uma constante como ingrediente de drinks, no cardápio de bares especializados e servindo de boa companhia para divertidas conversas – sobretudo entre as mulheres.
Reza a lenda que o champanhe foi inventado por monges que viviam reclusos na região de mesmo nome, na França, lá pelos idos do século XVI. Na verdade, a história parece ter começado bem antes, no tempo dos romanos, aos quais se atribui a plantação das primeiras vinhas do lugar. Mas coube a um desses monges, um beneditino da Abadia de Hautvillers, chamado Don Perignon, promover uma revolução na produção da bebida. Estudioso do assunto e sempre insatisfeito, foi ele o descobridor dos cinco principais elementos que contribuíram decisivamente para que muita gente possa degustá-lo e flutuar em suas bolhas por séculos e séculos, no mundo inteiro: a mistura de diferentes vinhos da região, tornando o produto mais harmonioso; a separação e a prensagem em separado das uvas; o uso de garrafas de vidro mais espesso com rolhas de cortiça, permitindo a pressão da fermentação; e a escavação de adegas profundas, que, entre os produtores de hoje, são enormes galerias com quilômetros de extensão, para viabilizar o adequado repouso e envelhecimento do champanhe a temperaturas controladas e constantes.
É uma bebida geladinha, parece um refrigerante. É levíssimo e acho que, pelo gás, aquilo sobe rapidinho e você não perde a conta do que bebeu
Todo esse cuidado faz a alegria de gente no mundo inteiro, inclusive da publicitária Carolina Duncan. Ela não dispensa um happy hour numa champanheria – bares e espaços dedicados exclusivamente à degustação da bebida, que se multiplicam em moda pelos principais centros do país e estão sendo responsáveis pela democratização e renovação do champanhe. “Eu acho uma delícia tudo. A idéia, o lugar e, principalmente, a bebida. Virei uma apaixonada depois que comecei a freqüentar”, conta ela, se derretendo. “É uma bebida geladinha, parece um refrigerante. É levíssimo e, acho que pelo gás, aquilo sobe rapidinho e você não perde a conta do que bebeu. Não é pesado como a cerveja, que depois dá aquela lombeira, e nem tão forte como os destilados, que te deixam tonta de um jeito diferente do champanhe. Depois de umas duas, três taças, você está eufórica, falando alto, às gargalhadas. Eu vejo como uma coisa que descontrai, relaxa e muito saborosa”, diz a publicitária, especialmente fã dos demi-secs. “São levemente mais docinhos, não parecem bebida alcoólica”, acredita.
O enólogo Pedro Carilini confirma o carinho especial da mulherada pelo chamado “rei dos vinhos”. E ressalta uma mudança de comportamento que ilustra muito bem essa reaproximação mais recente. “Sempre foi uma bebida muito apreciada por elas, sem dúvida. Só que, antigamente, a compra era feita quase exclusivamente pelos homens, embora quase sempre para oferecer e beber com as mulheres. A percepção feminina estava sempre presente. Mas ultimamente tem crescido o número de mulheres que compram champanhe, sobretudo para beber com as amigas”, conta ele. Mas a atmosfera romântica que envolve a bebida, por outro lado, continua imbatível. “Apesar de estar se popularizando, digamos assim, o champanhe ainda conserva uma característica de ser uma bebida de ocasiões especiais. Então ele continua como ingrediente de fetiche das noites de amor, de fazer uma surpresa, uma coisa diferente”, continua Pedro.
Sedução borbulhante
A produtora editorial Marília Portini, por exemplo, é uma que aposta num bom champanhe para surpreender o marido e criar um clima. “Compro a garrafa cedo, antes de ir pro trabalho, ponho na geladeira e à tardinha ligo para casa para pedir para minha empregada colocar no congelador, pra ficar no ponto. No caminho de volta do trabalho, passo no posto de gasolina, compro um saco de gelo e no supermercado, para comprar os morangos”, conta. Depois de um bom banho, cremes diversos, baby-doll e toda a preparação do cenário, seu marido, o jornalista Júlio Coutinho, chega. “Ele já me vê vestida assim, toda cheirosinha e arrumada, fica maluco. Aí, mando ele pro banho e enquanto isso pego a garrafa, ponho no balde com gelo, preparo os morangos e ponho numa mesinha de canto que temos no quarto. Finalmente abaixo a luz, ponho um CD do Marvin Gaye que é a nossa trilha e, quando ele volta do banho, só faço tirar a toalha dele. Ficamos doidos”, conta. “No final, já estamos bebendo no gargalo mesmo, derramando um pouco um no outro, nossa, loucura!”, confessa.
Mas nem só com morango e amor o champanhe cai bem. Pedro Carlini ressalta, inclusive, que uma das vantagens da bebida é sua independência, ou seja, não pede necessariamente um acompanhamento. Mas, quando for o caso, ele precisa ser muito bem escolhido. “O champanhe é uma bebida que só se harmoniza bem com um grupo restrito de comidas. Simplesmente para o belisco ou uma entrada, ele fica ótimo com uma bruschetta, por exemplo, ou um queijo leve. E, numa refeição, imbatível com a lagosta. Esses foram feitos um pro outro”, garante ele.
O champanhe está em alta também entre os bartenders. Os drinks que levam a bebida estão entre os mais pedidos nas drinkerias e são garantia de sabor, frescura e leveza, como explica a bartender Sura, que já trabalhou em algumas das casas mais badaladas do Rio de Janeiro. “Ele é um ingrediente especial, o drink deve ser criado a partir dele porque tem suas limitações: não vai com qualquer mistura e não pode ser batido, por exemplo, porque tem gás”, diz. Mas ela dá a receita de uma criação sua, que ela apelidou de Grumari, em homenagem a uma praia da cidade.
Grumari
Ingredientes
Uma dose de vodca de frutas cítricas
10 ml de suco de maracujá concentrado
20 ml de xarope de rosas (ou de cassis, que, segundo Sura, costuma ser mais fácil de encontrar)
Gelo
Champanhe
Fatias de carambola para enfeitar
Modo de fazer
Pegue a coqueteleira ou o copo misturador e ponha no congelador previamente por 15 minutos. Coloque todos os ingredientes na seqüência e mexa delicadamente com uma colher fina de cabo longo. Coe com um passador, passe para uma taça flute e complete com o champanhe. Use a fatia de carambola em formato de estrelinha para enfeitar.
Veja aqui mais sobre o champanhe, seus tipos, sua história e curiosidades com a especialista em vinhos do Bolsa de Mulher, Sônia Melier. E tim-tim! Porque o que não falta nessa vida é motivo para comemorar!





