Na mesa ao lado, o rapaz vê o futuro dentro dos olhos da menina. Puxa as pontas dos seus cachos. Entrelaça seus dedos nos dela. Aperta. Respira fundo em seu cangote, que é para decorar o perfume. Derruba a tulipa na mesa e pede desculpas. A menina gosta. Entende o nervosismo do rapaz, já que seu coração está também em descompasso só por bater diante dele. A menina acredita que dessa vez é pra valer. O novo casal promete. Projeta. Ri da piada do outro. Vê charme na sobrancelha desalinhada, no quebrado do dente e na palavra fora de hora.
Com os primeiros beijos, a competição é dura. A língua macia da menina escorrega entre os lábios grossos do rapaz pela primeira vez – gosto de hortelã e arrepios. Como os primeiros, ah, é difícil. Dizem que é feliz o casal que tem primeiros beijos depois de muitos, depois de uma briga, depois de uma bebedeira, depois de um bebê, depois de uma noite inteira abraçados, depois de um dia como outro qualquer.
Ela quer mostrar o que tem de melhor, o melhor ângulo do decote, ela quer ser linda – quem não quer? – e ser envolvida por um ar de mistério
Da mesa ao lado, voyeur – quem não é?, analiso a linguagem corporal do novo casal em seus primeiros beijos. Ela apóia os cotovelos sobre a mesa, aponta o queixo na altura do peito dele, que, mesmo tenso, quer fingir naturalidade e faz que lê o cardápio. Até que beijo, mais beijo. Além da boca, beijos pescoço abaixo, e mordidas na orelha – segredos que eu queria ouvir, mas da mesa ao lado, não escuto.
Imagino-o dizer essas falas do primeiro encontro, essas que pegam bem, que já foram ditas em vários outros primeiros encontros e costumam causar boa impressão, como jurar que mulher grávida é a coisa mais linda. Ou trazer à tona um caso de infância, uma historinha de criança, uma travessura. Para arrematar, ele mostra uma cicatriz no queixo, fina, discreta. Ela custa a enxergar. E acha, tem certeza de que nasceu para ele.
Ela não fala muito. Quer contar toda a sua biografia, mas cala. Passa o dedo no copo, passa a mão no cabelo, depois suspira. E quando ele pergunta se está tudo bem, quando reclama que ela fala pouco, ela tem vontade de gargalhar, mas dá um riso de canto.
Na mesa ao lado, o novo casal vê um show junto pela primeira vez. Ainda não firmou protocolo, não sabe quem fica atrás ou na frente, quem pede a bebida, quem brinda, que brinde, quem toma a iniciativa do primeiro beijo, quem fecha o beijo primeiro, quem está mais interessado, quem já entregou os pontos.
O novo casal quer ganhar intimidade mas, que sorte, ainda não tem nenhuma.
Ela quer mostrar o que tem de melhor, o melhor ângulo do decote, ela quer ser linda – quem não quer? – e ser envolvida por um ar de mistério. Ela só usa calcinha de renda, não tem dor de cabeça, não atrasa, não cobra, não é chata nunca, não pede para colocar o lixo pra fora, não pede para ir embora.
Ele, ele é carinhoso, ele é capaz de entender seus medos, ele levanta de madrugada para buscar-lhe um copo d’água. Nos primeiros beijos, ele esconde os defeitos debaixo do tapete – quem não? Ele deixa que ela escolha o canal, ele faz cafuné sem que ela tenha que pedir, ele não tem ex-namorada, ele não tem olhos para ninguém mais – nem me vê, na mesa ao lado.
Mas eu percebo quando, na hora do bis, o novo casal tem seu primeiro desentendimento. De onde estou, não consigo identificar o motivo. Talvez não haja motivo, porque casal, para sê-lo, tem que brigar vez ou outra, tem que brigar a primeira vez que é pra botar as cartas na mesa, que é para ver e mostrar quem é quem. Ele não sabe se ela grita. Ela não sabe se ele xinga. Se mente. Se ela chora. Se ele manipula. Se vale mesmo a pena. Eu também não sei. Mas percebo que ela emburra. E ele balança a perna esquerda, de raiva. E as mãos se soltam, e os ombros da menina viram para o chão. E o rapaz enfim me vê, na mesa ao lado. E parece que aqueles primeiros beijos foram também os últimos.





