Síndrome da vida moderna

Você já ouviu falar em nomofobia? O termo ainda não é totalmente conhecido aqui no Brasil, mas a nomofobia já está sendo considerada a doença da modernidade. A palavra, de origem britânica, vem de ‘ no mo’, abreviação de ‘no mobile’ – em inglês significa ‘sem celular’. Junto ao sufixo ‘fobia’ , passa a significar o pânico, desconforto ou angústia causados pela impossibilidade de comunicação através de aparelhos celulares, seja por tê-lo esquecido em casa, pela bateria ter acabado, por ter perdido o sinal ou até mesmo por estar sem créditos.

É certo afirmar que o celular é uma tecnologia prática, multifuncional e acessível a quase todas as classes sociais. Há pouco mais de vinte anos, quando começou a ser comercializado, era considerado um aparelho de luxo e demonstrava status social. Hoje, é comum ver crianças tendo o seu próprio aparelho. E o que antes servia basicamente para ligações, hoje tem uma infinidade de soluções: passou a integrar câmara fotográfica, filmadora, gravador, MP3, rádio e até mesmo as funções de um computador. Os mais sofisticados chegam até a oferecer serviço GPS e TV digital.

Pesquisadores estimam que cerca de 53% dos usuários de telefone móvel do Reino Unido sofrem desse mal, sendo os homens os mais atingidos pela síndrome, representando 58% dos 2.163 entrevistados, contra 48% das mulheres

Mas com todos esses benefícios, o essencial é não confundir a comodidade e praticidade oferecida por esses pequenos gigantes com a dependência que eles podem causar. “A invenção só traz benefícios, claro, quando usada de modo adequado. O problema começa quando o medo de ficar sem o aparelho dá lugar a um sofrimento desproporcional, com angústia intensa e a vida passa a sair do controle da pessoa, fazendo dela um refém e um escravo do famigerado vilão: o celular”, afirma a psiquiatra e psicoterapeuta cognitivo-comportamental, diretora e coordenadora do Centro Integrado do Estudo do Comportamento (Ciesc), Evelyn Vinocur.

E podem acreditar: essa dependência está aumentando! Com base em recente pesquisa realizada na Inglaterra pelo instituto YouGov, a pedido do Departamento de Telefonia dos Correios britânicos e divulgada no jornal Daily Mail, pesquisadores estimam que cerca de 53% dos usuários de telefone móvel do Reino Unido sofrem desse mal, sendo os homens os mais atingidos pela síndrome, representando 58% dos 2.163 entrevistados, contra 48% das mulheres.

Dentre outros dados, a pesquisa revelou que 20% dos entrevistados não desligam o telefone nunca, 10% afirmaram que o próprio trabalho as obriga a estarem sempre acessíveis, 55% alegaram a necessidade de estar sempre em contato com amigos e familiares e, para 9%, desligar o celular os deixa em um estado de profunda ansiedade. A pesquisa revelou, ainda, que um em cada cinco dos entrevistados considera não estar com seu aparelho mais estressante do que mudar de casa, ir ao dentista ou mesmo romper um relacionamento.

Aqui no Brasil, muitas pessoas passaram a ter conhecimento da síndrome a partir da divulgação dos resultados dessa pesquisa. Tanto que no site de relacionamentos orkut já podem ser encontradas sete comunidades voltadas à nomofobia. Porém, aqui geralmente a doença não é relacionada apenas ao celular, mas também a outras tecnologias, como o computador, por exemplo. Entretanto, ainda não há estimativas sobre o número de usuários que sofram desse mal no país.

Segundo a psicóloga Angela Ferreira Batalha, especialista no tratamento de fobias, pânico, depressão e ansiedade, o uso de tecnologias está tão comum no dia-a-dia que a maioria não percebe o mal que isso pode causar. “As pessoas estão de tal modo à vontade com isso que não percebem quando vira um problema”, diz. Angela alerta para o cuidado em não deixar o ‘vício’ de estar conectado se transformar, de fato, numa doença patológica. “Torna-se patológica quando a pessoa não consegue se ‘desplugar’ em nenhum momento e sofre grande ansiedade se ficar sem os aparelhos eletrônicos ou o celular, ficando desesperada por perder contato e não poder ser contatada a qualquer hora. Isso é um sintoma da vida moderna”, explica.