Véu, grinalda e flor de laranjeira. E, claro, um noivo apaixonado ao pé do altar. Atire o buquê a mulher que nunca se imaginou nessa situação? Tudo bem que a vida passa, as prioridades mudam e o vestido de noiva acaba ficando meio antiquado na nova conjuntura. No entanto, mesmo nos dias de hoje, muitas moças não arredam pé do sonho de adentrar a nave de uma igreja com cada vez mais pompa e circunstância.
Atualmente, casar está na moda. Mas não basta dizer um sim qualquer. Tem que ser um sim com toques de superprodução hollywodiana. Véu e grinalda sempre esteve no imaginário das moças, só que fazia parte de um ritual mais simples, sem festas para centenas de pessoas, lua-de-mel em lugares paradisíacos e excesso de sofisticação. Quem criou o supercasamento, de qualquer forma, era um ótimo estrategista comercial. O preço médio de uma cerimônia e uma festa, sem luxo demais ou de menos, é de cerca de 10 mil reais, segundo dados da empresa Mercado do Casamento, especializada em marketing no setor. Nos Estados Unidos, esta indústria movimenta cerca de 100 bilhões de dólares por ano (!). Ou seja, casar é um grande negócio – pelo menos para quem trabalha com isso.
Crises e preços à parte, o casamento é uma tradição que parece não perder força e espaço com os novos tempos. Entre festinhas e festonas, civil e religioso, no ano passado foram realizados, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 806.968 casamentos no país, 7,7% a mais do que em 2004 e o maior número de casamentos já realizados no Brasil em dez anos. A média de idade é 27 anos para mulheres e 30 para homens. Um dos motivos do aumento seria a realização de casamentos coletivos gratuitos, feitos em parcerias com prefeituras, cartórios e igrejas.
Faz sentido. Casamento como manda o figurino é para quem pode. E exige tempo, disposição e dinheiro. A artista-plástica Fátima Calado de Andrade, 54 anos, casada há 32, casou no último dia 6 de janeiro sua única filha mulher, Fernanda Calado, agora a senhora Fernanda Calado de Andrade e Feitosa. As duas organizaram toda a comemoração, que aconteceu em São Luís do Maranhão. Diante de uma festa para 200 pessoas para acontecer, Fátima se surpreendeu com o mercado do casório. “Minha experiência é de um casamento muito simples, o vestido sem muito rebuscamento, feito pela costureira da família, o convite em papel branco. A igreja não era ornamentada. Colocava-se um arranjo no altar e, às vezes, uma passadeira vermelha”, diz. “Quando comecei a ver as coisas para o casamento de Fernanda, conheci a infinidade de tipos de papéis para convite, tecidos para vestido, decoração, bufê… uma loucura!”, conta.
Fátima considera importante o casamento civil, a festa e a cerimônia foram opções da filha. “Nós oferecemos à Fernanda uma viagem. Mas a festa, na geração dela, tem um outro significado. Tem mais expectativa, os noivos curtem, por isso elas estão mais grandiosas. Os tempos mudaram. Na minha época, a gente casava virgem, então queria ir embora logo da festa porque só aí iriam conhecer mesmo os maridos. Éramos muito mais novas. Hoje, as noivas têm outra vivência, estão casando mais velhas. Já têm relacionamentos chegados com os namorados, ficantes ou noivos”, completa Fátima.
O sonho de casar-se de véu e grinalda, entretanto, permanece. “A figura da noiva é muito importante para a mulher. Não existe hora em que fique mais linda do que quando vestida de noiva”, continua Fátima. Fernanda falou com a gente pelo celular, quando embarcava para a lua-de-mel em Fernando Noronha. O casório tinha acontecido no dia anterior. “É um sonho que sempre tive de formar uma família e me casar. Dá um certo nervoso organizar. No meu caso, principalmente, porque a reforma da casa não ficava pronta”, diz. Fernanda afirma que todas as amigas sonham com o casamento, mesmo que não confessem o desejo.
O noivo, Robert Machado Feitosa, agora marido de Fernanda, acha que a cerimônia e a festa são preocupações mais femininas. “Minha maior preocupação era como me comportar na cerimônia, a situação de entrar na igreja com todos observando”, analisa. “Mas sempre soube que quando fosse me casar, seria assim, eu queria formar uma família e fazer tudo como manda o figurino”, afirma ele.
A assessora de imprensa Daniela Luci também sempre sonhou em casar-se vestida de noiva. Sonho que ela realizou no ano passado, mas de maneira mais simples. “Na época que casei, estava sem grana. Então optamos por um almoço, eu me vesti de creme, e um pastor nos deu a benção”, conta. Para ela, a fantasia da noiva está ligada ao conto de fadas. “Essa idéia de casar-se com um príncipe e achar que você vai ficar com ele para sempre. Essa coisa é bem piegas e brega, mas a cerimônia de casamento bem tradicional está ligada a isso, a esse sonho: amor eterno, uma grande festa com a presença de amigos e parentes celebrando. A mãe da noiva, em geral, sonhou em ver a filha casando de véu e grinalda também. A minha, no fundo, sonhava, mas também ficou satisfeita da forma que foi”, completa. “Isso é tipicamente feminino. Nunca vi um homem comentando que fazia questão dessa festa”, acrescenta Daniela.
A editora de moda Adriana Yoshida, que casou de branco, véu e grinalda há alguns anos, acredita que o casamento está no inconsciente coletivo. “Só em uma fita do Sítio do Pica-pau Amarelo tem dois casamentos: um da Emília com o Rabicó e da Narizinho com o Príncipe das Águas Claras”, brinca. “Todas as novelas acabam em casamento. Parece que para ter final feliz tem que casar, e de grinalda. Tenho uma amiga que já é casada, tem dois filhos e quer casar de noiva, bajulada, ultraproduzida. É um momento de ser celebridade, centro das atenções”, comenta. “É um rito de passagem que acompanha as mulheres, separar da família é a morte”, diz Adriana, que conta que tem ido a muitos casamentos nessa linha. “Dá um dinheiro louco! A Globo tinha que ter participação por bombar tanto os casamentos na mídia!”
O psiquiatra Eduardo Ferreira Santos, do Instituto de Psquiatria da USP (Universidade de São Paulo), concorda com a opinião de Adriana e Daniela. Pergunte a alguém de cerca de 30 anos sobre um casamento marcante, o citado será o da princesa Diana, transmitido ao vivo, o símbolo do sonho, a moça casando com o príncipe”, explica. Ela desaparece no vestido e se transforma “na noiva”, fala. “Na igreja, casar está ligado à fantasia da Cinderela, à noite da Cinderela. Existe uma mítica em torno da figura da noiva. É o sonho principesco. Não importa o depois”, diz o médico. Não importa mesmo. Talvez, por isso, ninguém lembra que Cinderela volta a ser gata borralheira para depois se casar com o príncipe e virar gata borralheira de novo.





