Falar sobre morte com as crianças sempre é complicado. Quando ocorre uma perda na família, os pais perguntam-se como devem tratar o assunto e até mesmo, se o devem fazê-lo. Em nossa cultura, focamos a educação em tudo aquilo que confere ganhos, ou seja: no que promove um vencedor. Esquecemos que as perdas, as frustrações e a falta são parte do processo de amadurecimento emocional. E é neste contexto que a temática e a vivência da morte são abafados. Acostumados a associar tristeza e dor com derrota e fraqueza, calamos nossos sentimentos. É realmente difícil confrontá-los. E se nós adultos lidamos com dificuldade com o luto, como falar com as crianças no momento de uma perda?
Em primeiro lugar precisamos ter clareza do que pensamos e sentimos. Olhar para dentro e entrar em contato com o significado que a morte tem para nós. Rever o que foi construído internamente, durante toda a vida. Revelando nossos medos fica mais fácil para a criança perceber que as perdas são oportunidades de crescimento e fortalecimento. Ao mesmo tempo, abrimos mais um canal de comunicação com nossos filhos. Criamos um espaço onde é possível expressar a dor e compartilhar o sofrimento.
É fundamental dialogar, deixar que a criança verbalize seus sentimentos, responder suas perguntas e também falar dos próprios temores e tristezas. Abrir espaço para o choro, o grito, a raiva e o sofrimento
Quando tentamos esconder da criança uma perda próxima, ou mesmo quando procuramos amenizar a situação, estamos subestimando sua capacidade de percepção da realidade. As crianças sabem muito mais do que pensamos. Elas funcionam como um radar e ficam inseguras quando sentem que algo não está bem, mas não entendem o que é. Como o clássico exemplo do monstro escondido dentro do armário. O que fazemos é acender a luz, abrir as portas e mostrar que não há nada lá dentro. Assim também devemos agir com questões como morte, sexo, mentira, e outras igualmente difíceis.
Clarificar ajuda a aceitar da melhor forma. Muitas vezes nem é a ideal, mas sempre será a forma possível no momento. Depois, com o tempo, esse conteúdo vai sendo elaborado a partir de cada nova experiência. Por outro lado, quando há algo no ar que não é dito, a criança vai aprendendo, através deste modelo, a reprimir suas emoções, a se calar diante da dor. É fundamental dialogar, deixar que a criança verbalize seus sentimentos, responder suas perguntas e também falar dos próprios temores e tristezas. Abrir espaço para o choro, o grito, a raiva e o sofrimento. Permitir-se sentir a falta é importante para não se desestruturar por causa dela.
Não é raro observarmos crianças cujo rendimento acadêmico “despenca” frente ao contato com a morte quando não foram preparadas para tal vivência. Isso acontece porque o processo de aprendizagem envolve conteúdo emocional e a emoção não trabalhada causa uma mudança de comportamento. Podem aparecer conflitos sociais, anorexia, depressão, agressividade, insônia, mudanças bruscas de humor. São mecanismos inconscientes usados para diminuir o desconforto e afastar-se da dor.
Os pais podem buscar ajuda no espaço terapêutico, porque ele oferece toda a acolhida, o tempo e a escuta necessários para a elaboração da perda, o que envolve escutar, sintonizar a dor, expressar o sofrimento e abrir espaço para uma reconstrução.
Contar histórias, assistir desenhos ou filmes que aflorem a emoção da perda, revisitar álbuns de família ou rever vídeos caseiros. Criar desenhos, colagens, pinturas, esculturas com argila ou massa de modelar, ler poesias… São estratégias que ajudam a criança a se dar conta, a realizar o que aconteceu. Buscar exemplos concretos na natureza também facilita a compreensão da morte como parte da vida e não apenas como o fim. Tudo sempre acompanhado da intervenção amorosa do adulto, pronto para o diálogo e atento às necessidades da criança, seja no espaço terapêutico ou no âmbito familiar.
Lucíola Agostini é psicopedagoga clínica, pedagoga e dinamizadora de oficinas nas áreas de educação, teatro e vídeo do Apprendere Espaço Psicopedagógico.





