Acredite: não dá pra ter saudades de um período que passou por cima dos direitos humanos, elevou a dívida externa a patamares impraticáveis e se baseou numa ideologia repressiva para tirar um presidente democraticamente eleito.
Confira 6 fatos que todo brasileiro deveria saber sobre a ditadura militar:
Terrorismo de esquerda
Por conta de sua posição reformista, marcada pela abertura das organizações populares e estudantis, muitos setores conservadores da sociedade pressionaram o presidente João Goulart (Jango), que assumiu após a renúncia de Jânio Quadros. Eles achavam que esse método de conduzir a política e a economia daria precedentes para que o Brasil se tornasse ‘socialista’. Por conta disso, parte da imprensa, da Igreja Católica, empresários, banqueiros e, por fim, os militares, associaram a imagem de Jango ao socialismo. Seu governo tornou-se insustentável quando exigiu controle sobre a remessa de lucros de companhias multinacionais. Com isso, os Estados Unidos ajudaram a ‘financiar’ a queda de Jango e, em consequência disso, instaurar o Regime Militar.

Interferência dos Estados Unidos
Estados Unidos foi o país mais interessado em instaurar ditadores na América do Sul. O jornalista Elio Gaspari revelou um áudio em que o então presidente dos EUA, John F. Kennedy, tinha interesse em ‘intervir militarmente’ para tirar João Goulart do poder. A biógrafa de Kennedy, Barbara A. Perry, confirmou as intenções dele, em entrevista ao jornal O Globo: “Não é novidade que os Estados Unidos se engajaram nesse tipo de comportamento para evitar que o comunismo se espalhasse pelo mundo. Nunca foram contra tirar líderes do poder, como o próprio Kennedy tentou fazer com a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba”.
Inflação
Com a saída de Juscelino Kubitschek da presidência, em 1961, os investimentos da indústria diminuíram consideravelmente. Com o Plano Trienal, apresentado pelo economista Celso Furtado, houve forte retração, enquanto a inflação atingia índices de 83% anuais. No período final da Ditadura, a inflação anual chegou a impraticáveis 2.000%, o que levou muita gente a ficar atento para sacar a poupança com medo que a moeda desvalorizasse.

Concentração de renda e dívida externa
Com a Ditadura Militar manteve-se um modelo dependente do capital estrangeiro. Existiu uma reorganização do sistema financeiro nos ‘anos de chumbo’, entre 1968 e 73. Naquela época houve taxas de crescimento de até 10% ao ano, mas só porque o Brasil se beneficiou da alta liquidez internacional e da abertura comercial. Este ‘milagre econômico’, como ficou conhecido na época, só foi vantajoso para os 10% mais ricos do País: pra se ter uma ideia, eles concentravam 38% da renda em 1960; com esse ‘milagre’, o índice saltou para 51% em 1980, o que mostra um grande aumento na desigualdade social. Com isso, o poder de compra do brasileiro médio foi duramente afetado: depois dos anos em que Emílio Médici e Ernesto Geisel estiveram no poder, o Brasil chegou a uma dívida externa exorbitante, de até 53,8% do PIB (Produto Interno Bruto).
Lei de Anistia e a reconciliação
Promulgada em 1979, a Lei de Anistia ‘perdoou’ presos, exilados e caçados por motivos políticos. Mas ela também teve um efeito irreparável: anistiou todos os militares e políticos que cometeram crimes de tortura e opressão durante os ‘anos de chumbo’. Diferentemente de países como Chile e Argentina, que julgaram a maioria dos políticos que usaram o aparelho do estado para reprimir, o Brasil não só deixou de julgar torturadores, como alguns deles acabaram permanecendo em altos cargos após a redemocratização.
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‘Ditabranda’?
Quando os editorialistas do jornal Folha de S. Paulo cunharam esse termo para argumentar que a Ditadura no país não foi tão violenta, parte da comunidade acadêmica e parentes de pessoas que tiveram familiares ‘desaparecidos’ nesse período protestaram – e com razão. De acordo com levantamento do pesquisador Júlio José Chiavenato, no livro “O Golpe de 64 e a Ditadura Militar”, houve uma prisão de, no mínimo, 50 mil pessoas. “Pelo menos 20 mil sofreram torturas”, registrou. Entre as torturas estavam choque elétrico, pau-de-arara, diversos tipos de afogamento etc. Ah, quanto ao termo ‘ditabranda’ a Folha não foi original: o primeiro a utilizar essa expressão foi o ditador Augusto Pinochet, em 1983. Quando criticaram a repressão no Chile, Pinochet disse: “Esta nunca foi uma ditadura, senhores, é uma ditabranda”. Por conta da repercussão negativa, a Folha recuou e pediu desculpas.
