De 1912 a 2017: 3 fatores estão tornando o homem cada vez mais veloz

A primeira medição oficial em uma corrida de 100 metros rasos concedeu ao norte-americano Donald Lippincott a honra de ser o homem mais rápido do mundo. Em 6 de julho de 1912, ele completou a prova em 10 segundos e 6 décimos e sustentou o recorde por 8 anos.

Mais de um século depois, o ser humano conseguiu abaixar essa marca em um segundo. O três vezes medalhista olímpico da prova, o jamaicano Usain Bolt correu a distância em espantosos 9 segundos e 58 décimos, no Mundial de Atletismo de Berlim, em 2009. Pode parecer pouco, mas um segundo representa pouco mais de 10% do tempo total – seria o equivalente a correr os 42 km da maratona em 12 minutos a menos (o atual recorde é de 2h02min57s).

De 1912 a 2017: como evoluiu a velocidade em provas de 100 metros?

Nas pistas, há três fatores determinantes para que a melhora nos resultados do homem no que diz respeito à velocidade tenha sido tão grande. De acordo com Evandro Lázari, ex-corredor, atual técnico da equipe B3 Atletismo e doutor em Educação Física, os motivos são: evolução das teorias do treinamento físico; comprometimento de atletas cada vez mais profissionais; e tecnologia de ponta para equipamentos e materiais (como pistas e calçados).

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“E há um elemento a mais, que é a popularização do atletismo. Veja o caso do Bolt, por exemplo. Se ele tivesse nascido 40 anos antes, não teria acesso ao esporte”, analisa Evandro. Seria uma perda e tanto: até agora, ele é o único ser humano capaz de realizar a prova abaixo de 9 segundos e 60 décimos.

A pergunta que muitos se fazem é: chegamos no limite? “Quando se bateu o recorde de 10 segundos faziam a mesma pergunta. A cada barreira que rompemos ficamos em dúvida de novo. Acho impensável alguém correr abaixo de 9 segundos e 20 décimos, mas não me espantaria ver alguém na casa de 9 segundos e 40 décimos em um futuro próximo. Talvez em 10 anos”, projeta o treinador.

Caso Usain Bolt

Não é à toa que Usain Bolt é considerado o maior fenômeno da história do atletismo. Os seus números são impressionantes. Quando registrou seu primeiro recorde mundial, em 2006, o cronômetro conferiu 9 segundos e 77 décimos. E apenas três anos depois, assombrou o mundo com a marca de 9 segundos e 58 décimos, mais de um décimo a menos que havia registrado na Olimpíada de Pequim, em 2008 (na prova, fez 9 segundos e 69 décimos).

Ele é principal “culpado” pela queda abrupta no recorde ocorrida nas duas últimas décadas. Em 1997, a marca era de 9 segundos e 84 décimos, de Donovan Bailey (Canadá). “Nos últimos 20 anos houve maior evolução, mas também temos que considerar um ponto fora da curva, que é o Bolt. Inclusive, desde seu recorde já se passaram oito anos”, relata Evandro.

E isso porque o jamaicano ainda tinha um grave problema técnico (ele tinha uma largada ruim para os padrões de alto desempenho) e teve uma carreira repleta de lesões. Ainda assim, se tornou o maior de todos. “Ele era diferente de todos os padrões, era uma somatória de fatores. Somava talento físico acima da média com muita dedicação e entrega nos treinos”, conclui o treinador.

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Biotipo ideal: existe?

Não existe um tipo físico ideal para o atletismo de velocidade. Mas algumas características ajudam, e muito. A mais importante delas é a composição muscular.

Atletas de velocidade ou de força precisam ter predominância de fibras musculares de contração rápida, que são conhecidas como “fibras brancas”. “Esse tipo de musculatura está predisposta a produzir força e velocidade”, explica o doutor em Educação Física. Por isso atletas de velocidade geralmente são robustos, ao contrário de maratonistas, por exemplo, que têm mais fibras lentas ou “vermelhas” e podem pesar menos de 50 kg.

Fatores altura e raça

Antes de Bolt, a maioria dos destaques do esporte mediam entre 1,70 e 1,80 metro e acreditava-se que ser mais alto seria um problema, pois, em tese, seria mais difícil reproduzir uma frequência alta de movimentos. O jamaicano de 1,95 metro mostrou que não é bem assim: em 100 metros, ele é capaz de dar 42 passos enquanto Tyson Gay (o mais rápido do mundo hoje em dia, de 1,78 metro) dá de 44 a 46 passos.

Uma característica comum aos melhores corredores, explica Evandro Lázari, é o fato de serem negros. Não é por acaso. “Há fatores biológicos que explicam. Certo grupo de pessoas negras possui alavanca muscular morfologicamente diferente, têm a panturrilha mais compacta e a estrutura óssea mais forte”, afirma o treinador.

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Acesso ao esporte é fundamental

Além de Usain Bolt, a Jamaica produziu nos últimos anos uma safra de grandes velocistas, como Asafa Powell e Yohan Blake – o país tem sete dos dez melhores tempos na modalidade 4 x 100 metros. Isso tudo com uma população com aproximadamente 2,9 milhões de habitantes. E por que o Brasil, com mais 200 milhões de pessoas, não consegue desempenho similar?

“Acesso e democratização do esporte é o problema. Temos três esportes aqui: futebol, voleibol e o resto. No Brasil, no melhor dos mundos, 1 para cada 10 pessoas já praticou atletismo em algum momento da vida. Na Jamaica, um adulto de 30 anos certamente já praticou”, compara Evandro.

É consenso entre especialistas em esporte que não há um programa bem definido no país. Grandes talentos surgem ao acaso e a maioria dos jovens tem olhos apenas para o futebol. “Se aparece um bom atleta, ele precisa de todo um mecanismo de proteção para ser um grande atleta. Na Jamaica, 90% das crianças passam por um processo de detecção de talento esportivo no sistema escolar”, informa o professor.

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A tendência, contudo, é de melhora. Os investimentos feitos em treinamento, detecção de talentos e aquisição de material realizados nos anos pré Olimpíada Rio-2016 estão gerando frutos que podem vir a disputar de igual para igual com potências internacionais em um ou dois ciclos olímpicos, analisa o treinador.

Principais recordistas

Além de Lippincott, os primeiros recordistas mundiais eram predominantemente norte-americanos. O mais importante deles foi Jesse Owens, atleta negro que conquistou quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, na frente do líder nazista Adolf Hitler. Owens correu a 10 segundos e 2 centésimos, recorde à época.

O homem rompeu a barreira dos 10 segundos apenas em 1968, em um evento absolutamente incomum. Em uma prova realizada em Sacramento, nos Estados Unidos, no dia 20 de junho, três atletas registraram 9 segundos e 9 décimos. O recorde ficou dividido entre Jim Hines, Ronnie Ray Smith e Charles Greene e aquele evento conhecido como “Noite da Velocidade”.

Jim Hines entraria para a história por mais uma razão. Em outubro de 1968, foi realizada a primeira prova após a decisão da Associação Internacional de Federações de Atletismo de registro automático do tempo até a casa dos centésimos. O norte-americano chegou a 9 segundos 9 décimos e 5 centésimos. Em 1991, Carl Lewis foi o primeiro a descer à marca de 9 segundos e 9 décimos : registrou 9 segundos e 86 décimos.

Recorde brasileiro

O carioca Robson Caetano é o brasileiro com melhor tempo de todos na modalidade. Em maio de 1988, ele correu a exatos 10 segundos, recorde nacional até os dias de hoje.

Evolução humana