Canção para Rosana

Eu seria mais feliz se tivesse nascido Luiza.

Ou Beatriz. Gabriela. Talvez Maria. Não que eu renegue o meu nome, pelo contrário. Gosto da cor, da flor, da rima, dá liga. Mas de que adianta: um nome bonito desses assim sozinho, não dá pra acreditar, um nome bonito desses que nunca levou uma cantada, um nome que nunca ganhou acordes, sustenidos nem bemóis em uma sexta à noite. Um nome que não é título e não repete no refrão, Rosana, Rosana.

Quero uma música para chamar de minha.

Abençoadas foram as Luizas e Amélias, Anas Júlias, Lígias e Teresas, Lucianas, Madalenas, ô, Carlás. Que saudade, aquilo sim é que era mulher. Vai lá, dá tua boca e a rosa louca, dá um beijo. Quantos pobres amadores apaixonados já não fizeram um samba canção das mentiras de amor que aprenderam com você? E que, sem ter seu carinho, se sentiram sozinhos, e se afogaram em solidão? Homens que praguejaram, principalmente os não-correspondidos, e juraram que te amaram como ninguém vai te amar. Carol, Carol, Carol, Carol, cadê a musa, a nega? Ele gosta tanto de você…

Queria uma música para colocar no meu aniversário, depois do ‘Parabéns pra você’. Para dançar no casamento e inventar coreografia, tocar na festa e ouvir de meia dúzia de convidados: ‘Aê!!!’

Mais abençoadas são as morenas. Morena rosa, morena da cor do pecado, morena tropicana – eu quero o teu sabor. Salvem as Ângelas que nasceram negras e bingaram duas vezes em uma música só lindo negro anjo, anjo negro, lindo anjo, negra Angelá . Benditas as Marinas, morenas, que adoram se pintar. Faça o favor, vocês já são bonitas com o que Deus lhes deu! Desculpe, Marina, mas estou de mal e só faço as pazes se, na próxima encarnação, eu vier morena e puder dançar um set inteiro só pra mim.

Mesmo as Sílvias e as Genis, mesmo as que levam pedras e são boas de cuspir. Até as Florentinas, as Cátias, Kátias Flávias, Raíssas. Me mordo, me descabelo. Invejo-as todas.

Queria uma música para colocar no meu aniversário, depois do “Parabéns pra você”. Para dançar no casamento e inventar coreografia, tocar na festa e ouvir de meia dúzia de convidados: “Aê!!!”. Se eu tivesse nascido Mônica, queria conhecer um Eduardo. Gabriela, sempre Gabriela. O nome dela era Jéssica, Camila, Ana, seu lábios são labirintos. Eu te imploro por favor: Alice, não me escreva aquela carta de amor, oh, oh, oh. Ô, Mila, mil e uma noites de amor com você. Samba, Juliana, samba. Ainda que estilo musical não seja o preferido, a xará gosta, decora, acha a coisa mais linda, bate no peito, se esgoela, torce pra tocar quando ele estiver no carro, no chuveiro, quando ele estiver com outra, quando ele achar que finalmente a esqueceu. Mas não.

Eu seria mais feliz se houvesse uma música com o meu nome, uma música para você ouvir e pensar em mim – só assim. Se possível, tema de novela: entra na sua casa toda noite, sua mãe vira fã, toca nas dez mais. A tevê grita o meu nome e te desperta flashbacks – nós dois, naquela noite, duas da manhã e nada de dormir.

Queria uma música para chamar de minha e tocar seu coração. Por favor, não me esquece. Aumenta o volume do nosso amor, porque o inverno é frio para se dormir sozinho e uma garrafa de vinho é muito para uma pessoa só. Vem, me exorciza.