Sexo sempre foi um tema delicado e provocador de curiosidade. Sobre ele se formam muitas idéias pré-concebidas, mistérios e tabus. Talvez o maior deles seja o homossexualismo, tão antigo quanto a própria humanidade, mas ainda polêmico e controverso. Entre os homens, por exemplo, é bem-aceita a fantasia de duas mulheres transando diante deles, mas é reprovada a idéia de que duas mulheres possam se amar de verdade e ter uma vida sexual plena e feliz. O preconceito, ainda tão enraizado em nossa sociedade, impede que muitas mulheres assumam livremente suas escolhas, mas não bloqueia sua intimidade e a busca pelo prazer. O Bolsa conversou com algumas delas sobre a preferência por mulheres, o comportamento na cama, o relacionamento com as parceiras, as dificuldades que enfrentam por conta da sua escolha e como previnem doenças sexualmente transmissíveis. Afinal, elas são mulheres que amam, sofrem, sentem saudades… como qualquer outra.
Tudo ia bem e corria dentro da mais perfeita ordem e normalidade possível na vida da jornalista Claudia. Ou seja, sua rotina era preenchida, além dos problemas do dia-a-dia, de relações heterossexuais, até conhecer pela Internet uma colega de profissão, homossexual. Papo vem, papo vai, a amizade foi crescendo. E ela, que já tinha um pouquinho de curiosidade em relação ao sexo entre mulheres, rendeu-se aos encantos da nova amiga. “Marcamos um encontro para nos conhecermos pessoalmente e gostamos muito uma da outra. Naquele mesmo dia rolou sexo. Gostei muito, encarei numa boa e acabei engatando um relacionamento com essa colega. A partir daí, tive certeza de que era disso que eu gostava”, conta.
Já a vontade de experimentar um beijo feminino foi o motor que levou a vendedora Priscila a ficar, pela primeira vez, com uma garota que conheceu em um bar. “A linguagem corporal dizia tudo: uma foi chegando mais pertinho da outra, as mãos se entrelaçando e, quando vi, estávamos no maior beijo. Para rolar sexo demorou mais uns meses, porque ainda fiquei na dúvida de se era isso mesmo o que eu queria. Mas aí, quando rolou, foi com outra pessoa. Foi melhor do que eu imaginava”, relembra Priscila.
Uma das características femininas mais marcantes é a mania de enfrentar o mundo em nome do amor. No entanto, quando os sentimentos são endereçados a alguém do mesmo sexo, muitas vezes só coragem não basta. A estudante Melissa viveu esse drama. “Não demorei tanto a descobrir que gostava de meninas. Lá pelos meus doze ou treze anos eu já sentia algo diferente pelas minhas amigas. Só que venho de uma família muito religiosa, supercatólica, que obviamente não aceita esse tipo de coisa. Vivi muito tempo na dúvida, não sabia direito o que sentia, se era certo. Então namorei colegas de escola, durante anos, até conhecer uma garota pela qual acabei me apaixonando”, revela.
De acordo com o sexólogo Arnaldo Risman, a história vivida por Melissa é bem comum. “Muitas mulheres homossexuais crescem sob pressões da família, da religião e da sociedade. Umas casam, têm filhos e depois assumem. Outras arrumam amantes do sexo feminino durante o casamento. Há aquelas que decidem suportar tudo e assumem, enquanto outras se rendem às pressões e passam a vida sofrendo e escondendo sua opção”, enumera ele.
Entre quatro paredes
As dificuldades são muitas, mas, segundo elas, o sexo compensa. Afinal, é a melhor parte da coisa. Na hora agá, vale tudo: muita masturbação, sexo oral, filmes picantes, acessórios e joguinhos. “Gosto de transar toda cheia de frescuras. Velas, lingeries, música. E sempre faço uma brincadeirinha, uma encenação. Eu e minha namorada temos o costume de inventar histórias e interpretá-las, ou então usar aqueles dadinhos do amor, com sugestões do que fazer com a parceira. Mas quando começa o sexo pra valer, esqueço de tudo o que está em volta: rola uma boa masturbação, daquelas que começam bem devagarinho e vão ficando mais violentas, e muito sexo oral, sem pudor nenhum”, revela Melissa. A namorada, Thaís, confirma e acrescenta: “Temos os mesmos gostos e somos fãs de acessórios, então costumamos sempre comprar brinquedinhos novos e testar logo que chegamos em casa”, conta ela.
Priscila, por sua vez, usa os filmes eróticos com mulheres como uma forma de envolver novas parceiras. “Convido para ver um vídeo, beber alguma coisa. Isso cria um clima, excita a ambas e é, sem dúvida, um ótimo pretexto para uma noite de sexo”, diz, maliciosa. Já a jornalista Claudia dispensa artifícios. “Não uso vibradores, consolos, pois eles não me fazem falta. Gosto do sexo puro e simples, sem acessórios. Meu prazer está mesmo em usar a língua e as mãos”, justifica.
No sexo homossexual, explica Arnaldo Risman, as mulheres não são promíscuas como os homens. “Enquanto eles arriscam transar com qualquer pessoa em locais públicos, como banheiros de shopping ou boates, elas são mais adeptas a relacionamentos duradouros. Mulheres constroem relacionamentos mais sólidos, são mais fiéis e afetivas, características básicas do sexo feminino”, diz o sexólogo. Melissa concorda com ele: “Sexo, para mim, tem de ser feito com envolvimento. Sair por aí caçando gente para transar não é a minha praia. Gosto de ter relações com garotas que já conheço bem. É muito mais gostoso transar com uma namorada do que com alguém que nunca vi na vida”, afirma. Já Priscila, não vê por esse lado. “Sexo é sexo, é bom com todo mundo. Não sou promíscua, mas gosto de arriscar novas parceiras”, assume.
Prevenção
Apesar da segurança que sentem ao transar com alguém do mesmo sexo, as mulheres ignoram algo indispensável: a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Pequenos cortes na região genital ou na boca, arranhões provocados pelas unhas durante as masturbações vaginal e anal, sangramentos e o uso compartilhado de consolos ou vibradores abrem a porta para infecções e o contágio de diversas doenças. “Não tomo nenhum tipo de precaução, apenas corto bem as unhas e capricho na minha higiene íntima”, diz Claudia, admitindo seu erro. Priscila já tentou ser cuidadosa. “Eu e uma menina tentamos transar protegendo os lábios da vagina com uma camisinha masculina, mas foi chato, ela escapava a todo momento e acabamos perdendo o tesão. Depois dessa, nunca mais usei nada”, relembra. Arnaldo Risman aponta uma saída: a camisinha feminina. “Mais segura, impossível. Acho errado improvisar proteção, se existe algo específico para isso”, diz.
Relacionamentos
As famosas celulites, estrias e varizes, que as mulheres adoram esconder dos homens, não atrapalham em nada a relação. Na verdade, há quem troque dicas de como prevenir e tratar probleminhas estéticos. “Tive algumas namoradas que tinham dicas ótimas de beleza, mas acho que isso não é fundamental. O que é feio não é ter celulite ou estria, mas ser relaxada com a aparência, não se cuidar. Nem olho para mulher malcuidada”, assume Priscila. Mulheres gostosas fazem sucesso entre elas, mas o visual não é o fator determinante para o início de um relacionamento. “Afinidade, para mim, tem muito mais impacto na minha escolha do que dotes físicos”, entrega Thaís.
Outro ponto a favor das relações entre mulheres é que a dor de cabeça da TPM é bem-aceita e, dependendo do caso, a parceira até se prontifica a trazer um remedinho na cama. “A outra pessoa vai entender se você está inchada, com dor de cabeça ou meio borocoxô”, justifica Melissa. As cobranças por um desempenho nota dez, segundo elas, também são exclusividades do relacionamento com homens. “Com mulher não tem frescura. Não deu, não tá dando clima, tudo bem”, diz Priscila. Para Claudia, a qualidade vale muito mais do que a quantidade. “Pelo menos para mim não tem essa de quanto mais sexo melhor. Uma transa caprichada vale pelo mês inteiro”.
Fora de casa, o comportamento liberal e criativo tem de dar lugar às convenções. Beijos, abraços e amassos em público? Difícil, pelo menos para Thaís. “O beijo é uma coisa ainda impossível de se fazer em público. Já arriscamos nos beijar em uma boate normal e provocamos os mais variados tipos de reação, desde cara de nojo até aplausos dos homens, que, de certa forma, gostam da imagem de duas garotas se beijando. Mas é claro que existem aqueles caras chatos, que vêm fazer piadinhas sem graça, dizer que querem ver a gente fazer isso na casa deles”, afirma. Thais diz que é complicado segurar as emoções. “Sou muito afetiva, adoro beijar e abraçar. Acho muito chato ter de me controlar para não demonstrar o que sinto por alguém”, confessa.
Ciumeira, por sua vez, é um denominador comum entre homens e mulheres. Pegar a namorada olhando para outra mulher pode, sim, ser sinônimo de barraco à vista. “Sou bem ciumenta, daquelas nem um pouco sutis. Tenho meus ataques, falo alto, gesticulo, adoro um drama. Mas isso em casa, num lugar discreto. Homens ciumentos adoram um barraco, não importa onde estão: na fila do banco, no meio da rua, numa festa. Mulheres sabem lidar melhor com o ego ferido. Num quebra-pau com outra menina, a gente sabe identificar os sentimentos dela”, analisa. Já Melissa dá bronca em público mesmo. “Depois vou correndo pedir desculpas”, diverte-se.
Apesar das dificuldades em assumir a relação para amigos e parentes – coisa que, entre as entrevistadas, somente Claudia conseguiu – não há dúvidas de que todas estão felizes com sua preferência sexual. E Claudia é categórica ao afirmar: “Homem, para mim, não faz nenhuma falta. Na verdade, acho que sexo é feito de várias formas, do jeito que se quer e com quem se quer. Se vai ser com mulher ou homem, a pessoa é quem opta, ela é quem sabe com quem sente mais prazer. Estou muito feliz com minha escolha”, finaliza.
