Literatura feminina

No começo, eram mulheres frágeis. Viviam paixões coléricas por homens que dariam a vida para tê-las, mas, por algum motivo, não podiam. Assim, enquanto elas sofriam (e como!) pelo impossível, eles lutavam contra tudo e todos até tomarem o seu amor nos braços para sempre. Depois, elas começaram a ganhar mais força. Tornaram-se figuras à frente do seu tempo: fortes, decididas, transgressoras, porém, não menos passionais. Apesar da semelhança, a evolução descrita não se trata da vida real, propriamente dita. Estamos falando de ficção como retrato da realidade. Páginas e páginas de romances, dramas e insights de mulheres que compõem o vasto e complexo universo feminino. Tema que rende inúmeras tramas e exemplares em todo o mundo e conquista cada vez mais leitoras.

Maquiagem, roupas, bolsas, sapatos, filmes e, porque não, livros? Afinal, se somos as maiores consumidoras em tantos setores industriais, nada mais justo que déssemos origem a um nicho na literatura voltado para as nossas questões. Um crescente espaço nas prateleiras das livrarias. Exemplares de romances impossíveis, dignos dos tempos de “A moreninha” (um marco na literatura brasileira escrito por Joaquim Manuel de Macedo), histórias água-com-açúcar para distrair. Também tem lugar para as narrativas da vida cotidiana, os questionamentos, epifanias repentinas à la Clarice Lispector e reviravoltas de mulheres comuns. Obras regadas de erotismo, biografias, dicas de moda ensinamentos filosóficos, típicos da escritora Lya Luft, ou auto-ajuda, pura e simples. Ou seja, estilo para todos os gostos.

Histórias que poderiam, muito bem, acontecer na vida de qualquer uma. Foi por essa identificação que o gênero fez tanto sucesso e virou ramo do mercado literário. A prova disso é que já existem editoras especializadas na publicação de livros voltados para o público feminino, como a canadense Harlequin. Ela apostou no segmento, composto por mulheres de diferentes idades, níveis culturais e econômicos e, por uma parceria com a brasileira Record, publica livros escritos por mais de 1.300 autores. Obras que variam desde os romances, passando pelos thrillers psicológicos, até os folhetins sobre relacionamentos, aqueles para passar o tempo. E não pense você que essa popularidade é só no Brasil. A empresa lança em torno de 110 títulos por mês em 27 idiomas e está presente em 95 mercados internacionais dos seis continentes.

Mas o que há de tão atraente nesse universo? Leitora de romances contemporâneos protagonizados por mulheres, a estudante Giovanna Castro confessa não conseguir pensar em mais nada quando possui um dos exemplares do gênero em seu poderio. Atraída por dilemas femininos com um bom toque de mistério e narrações picantes, Giovanna gosta de ler livros da autora de best-sellers Nora Roberts. Uma escritora americana que, através de trilogias, conquistou mulheres em todo o globo mesclando elementos como família, amigos, carreira, amor e sexo, com sensibilidade feminina.  “Além de conduzir a trama de maneira interessante, usando as técnicas de harmonia, desarmonia e volta à harmonia dos escritores românticos, ela entende do universo feminino, dos problemas que passamos. As personagens são mulheres que, por algum motivo, resolvem dar um rumo para suas vidas e saem em busca da realização pessoal em diversos campos. Eu me identifico com cada uma delas, repenso na minha vida quando estou lendo. Fora o erotismo cheio de detalhes, sem ser vulgar”, resume a estudante.

Além de abordarem assuntos que nos interessam em particular, os livros que atraem as mulheres refletem a forma como interiorizamos o mundo. No entanto, para muitos, publicações com essa temática não necessariamente pertencem a um setor específico da literatura. Duas vezes finalista do Prêmio Jabuti, com “Cine-Odeon” e “Solo Feminino”, a autora Lívia Garcia-Roza vem se destacando com livros que, através de um lirismo peculiar, ilustram os anseios de protagonistas mulheres. Apesar de escrever predominantemente sobre o universo feminino, Lívia integra o grupo dos que não consideram a segmentação. “Nós, mulheres, temos uma temática própria, assuntos que nos interessam em particular. Somos muito inconstantes, intensas. Mas isso não deixa de ser literatura”, opina a escritora, acrescentando que, do mesmo modo como existem temas masculinos, também há os livros que se referem às questões das mulheres. Lívia admite ser o universo feminino bastante complexo e o vê como um mundo que vem mudando na forma como é representado graças às conquistas da vida real. “Se, antes, havia um modelo só de mulher frágil, agora ela vem ganhando outro lugar. A mulher está se inventando como mulher e a literatura se beneficia disso. Está crescendo, diversificando, apontando para outros caminhos”, coloca Lívia.

Pois é, quando se fala em literatura feminina, muita gente do próprio meio torce o nariz. Para a jovem escritora Ana Beatriz Guerra, rotular esses livros em uma categoria dá a impressão de uma literatura menos importante. “Acho que tem um filão no mercado que tenta explorar essa idéia com livros escritos para meninas, falando das agruras da adolescência etc. Isso tende a ser considerado menor, quase literatura para passar o tempo”, diz Ana Beatriz, que coloca um questionamento à tona: “Acredita-se que a literatura possa ser feminina, mas por que não existe uma literatura “masculina”? Então, os policiais seriam masculinos enquanto as histórias de amor, femininas? Isso é bobagem!”, indaga ela. Sem querer ser parcial, olhando por essa perspectiva, nossa amiga tem razão.

De acordo com ela, a experiência do autor dita seu texto, e não o tema de que ele vai tratar. Até porque, homens e mulheres podem escrever sobre os dois universos. “É ridículo haver sexismo na literatura. Podemos dar voz a diversos personagens, exercitar muitas vidas. Esta é uma das funções do escritor, ele capta comportamentos, emoções, tendências, e tal habilidade, felizmente, independe do seu sexo”, aponta Ana Beatriz. Talvez seja uma questão muito mais comercial do que ideológica. A psicanalista Elizabeth Amaral Ramos alega que há uma distinção entre a literatura feminina e a do feminino. “A primeira, se refere a obras escritas por mulheres. Já a segunda fala da mulher, tratando do sensível”, define a psicanalista. Para ela, enquanto o masculino tem mais a ver com a virilidade, o feminino está ligado às emoções. “Esses livros falam sobre família, os conflitos internos que as mulheres passam. Elas querem refletir e se enxergam em cada personagem”, conclui ela.