Para gostar de ler

A Bienal do Livro do Rio de Janeiro se encerrou no dia 23 de setembro. E podemos dizer que foi um evento e tanto, ainda mais por se tratar de livros! Toda essa badalação nos faz perceber como a literatura está cada vez mais presente na vida dos brasileiros. São centenas de títulos, dezenas de editoras e milhares de leitores ávidos por novas obras. Afinal, uma boa leitura nos faz viajar sem sair do lugar, conhecer pessoas fascinantes que nunca existiram e a recriar, com detalhes, tempos que não vivemos. Por toda essa magia, uma boa história marca nossa vida e até muda nosso pensamento. Fomos então conversar com alguns leitores ilustres para saber as páginas e os autores que não podem faltar em sua estante.

Veja o jornalista e escritor Arthur Dapieve falando sobre seu último livro no Bolsa TV

O estilo de cada um

A tradutora, romancista e cronista Heloisa Seixas é organizadora dos dois volumes de Obras primas que poucos leram, pela editora Record, com artigos escritos para a extinta revista “Manchete” e uma lista de clássicos imperdíveis. Na opinião dela, as obras que relacionam maiores clássicos, contos, crônicas ou poemas servem como chamariz para a leitura dos livros citados pelos escritores. “Hoje, há tendência de termos uma vida picadinha e essas antologias fazem parte disso. Mas elas são o primeiro passo para o despertar do interesse”, argumenta. Ela mesma afirma que acabou lendo um livro porque o artigo de José Guilherme Mendes que havia sido selecionado chamou sua atenção: “Eu nunca tinha tido coragem de ler O sonho e a fúria, de William Faulkner, porque achava que seria muito difícil. E foi mesmo, mas eu adorei!”, afirma.

Eles foram importantes porque falavam de coisas pelas quais eu estava passando. Por isso, não creio que possa existir, ao menos deste ponto de vista, um livro que todos deveriam ler

Segundo Heloisa, a escolha dos livros é algo muito pessoal e está ligada a estilos ou épocas que marcam cada um. “Tenho tendência a gostar dos livros do século XIX, que considero o século da narrativa. Também gosto das obras que retratam a transição para o século XX. Entre esses, prefiro os de língua inglesa, que tenho mais facilidade de ler no original. Gosto dos romances dessa fase, das aventuras, das obras de cunho mais social, como Charles Dickens, sem falar nas grandes autoras”, comenta.

Heloisa revela que foi convidada a escrever um artigo para Dez livros que abalaram meu mundo, lançado pela editora Casa da Palavra. A romancista escolheu Os Maias, do português Eça de Queiroz. “Esse é um dos maiores clássicos de todos os tempos, em qualquer língua e só não é mais valorizado porque não foi escrito em inglês”, afirma. “Esse pode ser o clássico da minha vida. Mas são tantos, também não tenho tanta certeza não”, completa.

O jornalista Arthur Dapieve, por exemplo, diz que os livros que mais lhe marcaram foram Pergunte ao pó, do americano John Fante, e Um amor, do italiano Dino Buzzati. A justificativa é que os títulos poderiam ter sido escritos para ele no momento em que foram lidos. “Eles foram importantes porque falavam de coisas pelas quais eu estava passando. Por isso, não creio que possa existir, ao menos deste ponto de vista, um livro que todos deveriam ler. Porque esta relação íntima com o livro é pessoal e intransferível”, acrescenta. No entanto, Dapieve sugere cinco livros “para informação e prazer geral”: Dois irmãos, de Milton Hatoum; Reparação, de Ian McEwan; Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino; O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes; e O estrangeiro, de Albert Camus.

Sim, clássicos

Assim como a filosofia, a literatura é um instrumento fundamental para compreender o mundo que nos cerca, desde as situações mais cotidianas até os questionamentos mais metafísicos. O escritor Fernando Nuno se dedica – entre outras coisas – a reescrever clássicos para jovens leitores. A iniciativa está apoiada no seguinte ponto de vista: “Os clássicos são aqueles livros que não perdem a validade, mas o sentido das palavras e a contextualização se perdem a cada nova geração”. Na opinião de Nuno, essas coleções são facilitadoras, são um degrau para que crianças e jovens – e por que não adultos? – passem a ler os clássicos no original.

Para as leitoras que buscam na literatura clássica uma forma melhor de compreender sua existência, Nuno fez uma breve lista das obras que lhe pareceram, ao longo da vida, os instrumentos significativos. Ele partiu de dois clássicos russos: Irmãos Karamazov, de Fiodor Dostoiévski e Guerra e paz, de Leon Tolstói. Passou pelo francês Honoré Balzac com seu História da grandeza e da decadência de Cezar Birotteau e pelo inglês Willian Shakespeare, com duas obras que, na sua opinião, devem ser lidas juntas, por contarem a mesma história em diferentes perspectivas: Macbeth e Hamlet. Por fim, chegou ao brasileiro Machado de Assis com Esaú e Jacó. Nuno também considera fundamentais alguns livros religiosos: o Eclesiastes e os Evangelhos de São Marcos e São João na Bíblia e o Bhagavadgita, um dos livros sagrados do hinduísmo.

Mulheres clássicas

Italo Moriconi, doutor em Letras, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é autor e o organizador de Os cem melhores contos brasileiros do século e Os cem melhores poemas brasileiros do século, da Objetiva. Apaixonado pela leitura e incentivado pela profissão, Moriconi, como todos os nossos entrevistados, já passou por inúmeros livros e autores. “Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Charles Dickens, Paulo Francis (jornalista quando ainda era de esquerda), Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, algumas peças de Shakespeare, alguma coisa de Jorge Amado, Dublinenses do James Joyce, Laços de Família e Água Viva da Clarice Lispector, a poesia de Carlos Drummond e de Ana Cristina Cesar são alguns dos que me fizeram a cabeça na infância, na juventude e na pós-juventude, formando-me como leitor e como autor”, enumera, pontuando que sua seara sempre foi a poesia e o ensaio.

Entre livros e autores indicados para todos, Moriconi listou mulheres imperdíveis da nossa literatura: Rachel de Queiroz, Dinah Silveira de Queiroz, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e Márcia Denser. “Recomendo a leitura delas todas, sem restrições. Prefiro não indicar nenhuma autora atual, pois ainda tenho dúvidas sobre elas. Algumas me parecem anacronicamente sofisticadas demais, elitistas no discurso, mas eu as aplaudo por manterem viva a tocha da ficção”, pondera e elogia.

Ah ! Poesia…

Diz o folclore que poesia não vende. Flávio Costa, poeta que trabalha na seção de poesia da livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro, acredita que ela vende o que tem que vender. “A poesia sempre esteve um pouco à margem, muita gente compra poesia porque a escreve também. Os poetas não são muito editados e eu acho que eles mesmo não escrevem visando o mercado. Sem contar que, como gênero, é de mais difícil compreensão – talvez porque, muitas vezes, não seja feito para entender, mas para sentir”, argumenta.

Para quem está começando a ler poesia, Flávio indica João Cabral de Mello Neto, Bandeira e Drummond. Entre os estrangeiros, ele enumerou As flores do mal, de Baudelaire e Poesia de T.S. Eliot, ambos traduzidos por Ivan Junqueira, Coisas e Anjos de Rilke, recriadas por Augusto de Campos, Uma temporada no inferno e iluminações de Arthur Rimbaund, traduzido por Lêdo Ivo. Entre os autores estrangeiros é sempre interessante estar atento às traduções. As melhores, no caso da poesia, são feitas também por poetas.

Cercada por livros

Sim, você encontrou aqui muitas dicas e poucas respostas. Mas não se sinta oprimida por prateleiras! Nem por clássicos, auto-ajuda, best sellers, novas coleções… Não é à toa que indicar livros é difícil – são muitos os tipos de pessoas e de literaturas e essas duas partes devem casar. Paulo Rodrigues Gajanigo também trabalha na Travessa de Ipanema. Ele diz que, em geral, quando a pessoa chega sem saber o que levar, ele pergunta qual a última coisa que ela leu. “O que a pessoa leu antes dá uma idéia dos seus interesses. É complicado indicar qualquer coisa, sempre conversamos. De repente a pessoa está um pouco depressiva, tem que ver uma coisa que não seja tão pesada… A livraria é muito freqüentada por pessoas que já têm o hábito da leitura. O nosso foco não são os best sellers, por exemplo, mas muitas vezes eles são indicados porque a pessoa em questão não tem experiência e não sabe por onde começar”, comenta. Ele diz que é grande a procura de clássicos por leitores jovens, e que as indicações e conversas ajudam a abrir os horizontes.

De acordo com Paulo, a indicação de críticos literários de jornais realmente movimenta a venda deste ou daquele autor. Isso pode demonstrar o quanto as pessoas realmente se perdem diante da vasta gama de opções. Os compêndios, de que tanto falamos, também são muito procurados. Na opinião de Paulo, eles podem realmente ser uma boa forma de começar a encontrar seus interesses. “As pessoas precisam começar de algum ponto. Não há como escolher o livro assim, aleatoriamente. Mas o bom é que seja um pontapé para ir além”, finaliza.