Ah, a solteirice aguda… Apesar da torcida contra, das tias de plantão querendo nos converter à vida de clausura conjugal, apesar de eu achar lindo uma noiva entrando na igreja, não há sequer uma célula no meu organismo pulsando para casar. Me chamam de solteira assumida. Que contradição! Se assumisse, não seria solteira.
O verdadeiro solteiro não tem amarras nem consigo mesmo. E, olha que ironia, nunca está sozinho. Aquele papo de “antes só do que mal acompanhado”, não cola. Para um solteiro legítimo, não há companhia ruim, há experiência de vida. E sim, somos quem mais ama! Um de cada vez, vários, muitos ao mesmo tempo. Se um coração não tem dono – bate independente da vontade -, por que nós teríamos?
Que tipo de solteira você é? Faça o teste!
Você entra em casa, não tira o salto, apoia na mesa de jantar, desabotoa a saia preta e deixa o tecido escorregar pelas suas pernas. De calcinha e cinta-liga, vai até o bar, enche a taça de champanhe, coloca uma cereja molhadinha – só de charme – e senta na poltrona junto à janela para ler um livro. Você sabe que é hora do tipão do prédio em frente chegar do trabalho e, discretamente, dar uma conferida na sua silhueta. Você sente o olhar dele queimando a sua pele, o peito chega a saltar do corselete convidando “vem, vem”. Ele não tem coragem. Quando desaparece para buscar o binóculo, você já está em outra posição. Um dia, ele vem.
Mas o Beto foi lento, não teve a rapidez desse garoto, menino-homem, másculo, cativante, como é mesmo o nome dele?
No bar do hotel não tem ninguém àquela hora. Só você, a fenda do vestido e o seu dedinho levantado: “Bortolozzi, querido, um coquetel de frutas”. O bartender, íntimo conhecido, capricha e deixa escapar que estava com saudades. Você sabe que ele não está se referindo às gordas gorjetas, que o seu decote é muito mais generoso e que, por menos de um sorriso, aquele antebraço grosso chacoalhando a coqueteleira seria seu. Não há segundas, só primeiras intenções. A tentação é grande. Por outro lado, os integrantes daquela banda em turnê pela cidade sempre terminam a noite ali. Foi assim há dois anos, quando você experimentou o vocalista. Que tal agora o das longas baquetas? Só pra variar.
Você foi passar o feriado no sítio da sua melhor amiga, fugir da rotina às vezes é bom. Interior do interior de Minas Gerais, fumaça de fornos artesanais misturada à poeira da estrada, cheiro de terra, verdes intensos, arte local à venda aqui e ali, parada obrigatória em todas bibocas para experimentar quitutes, tudo perfeito, quando fura o pneu. O mecânico mais perto fica a dois quilômetros. Vocês riem enquanto empurram a roda pelas estradinhas e imitam o sotaque local. Na borracharia, dois paulistanos tamanho G, uma Tucson. E o convite para jantarem juntos em Tiradentes, logo mais à noite. Eu disse fugir da rotina?
As mãos lembram as do Paulo, toque suave e intenso, seriam estilo Renato, quentes e dominadoras? Enquanto a mão dele apalpa, aperta, massageia, introduz, enquanto os dedos pressionam, bolinam, enxarcam-se e são lambidos, você enlouquecida aprecia o beijo dele, morno, líquido, será que foi isso que a conquistou? Ou foi a pegada de jeito na pista de dança, quando a bola da vez era o Beto, ah, mas o Beto foi lento, não teve a rapidez desse garoto, menino-homem, másculo, cativante, como é mesmo o nome dele?
Roncos emanam do quarto até o chuveiro, você decide: “Preciso ir embora”. Dormir de conchinha com um desconhecido é a última coisa que deseja, mesmo tendo ouvido 24 vezes que você é a mulher da vida dele, afe, antes mulher da vida! Não entenda mal, a noite foi divertida, coisa e tal, podia ter sido em dobro se o ‘roncador’ não fosse careta e concordasse em dividir você com o delicioso colega de mestrado. Mas o que um não quer, três não fazem. Felizmente, ele teve um desempenho atlético, esperou pacientemente você derreter antes de se esvair. Foi bom. Você chama o táxi. Ao motorista, estende o endereço anotado num guardanapo, ao lado da frase: “Estou te esperando”. O que um não quer, três não fazem. Mas o que dois querem…
Em 15 de agosto é Dia do Solteiro. Se descompromisso fosse ruim, haveria um Dia dos Casados. Aproveite.
