Vai na fé! > A ciência constata, mas não explica

Rezar pela vida do outro pode trazer serenidade a quem o faz, mas será que traz benefícios àqueles a quem as preces se destinam? Para responder objetivamente a essa pergunta, a fundação americana John Templeton Foundation investiu US$ 2,4 milhões num estudo para avaliar a influência das preces no bem-estar alheio. Cerca de 900 pacientes que iriam se submeter a uma ponte de safena receberam, duas semanas antes da cirurgia, orações de mais de 70 voluntários anônimos. Outros 900 que passariam pela mesma operação não tiveram preces “encomendadas”.

Psicólogos, clérigos e médicos de seis instituições analisaram os resultados e não encontraram qualquer diferença nos índices de complicações cirúrgicas entre os dois grupos. O surpreendente, porém, foi o resultado analisado dentro do grupo que recebeu as preces: a metade que fora informada das orações apresentou porcentagem mais alta de arritmias cardíacas no pós-operatório: 59% ante os 52% da outra metade. A responsabilidade pelo aumento na freqüência de arritmias foi atribuída à adrenalina, liberada pela ansiedade. Um dos responsáveis pelo estudo, Charles Bethea, cardiologista do Integris Baptist Heart Hospital, explicou que o paciente pode pensar que seu estado deve ser muito grave para que o hospital tenha convocado uma equipe para rezar por eles.

Apesar dos resultados negativos, o médico Carlos Eduardo Tosta realizou pesquisa semelhante, pelo departamento de Imunologia Celular da Universidade de Brasília. O estudo verificou se as células do sangue que protegem nosso organismo reagem a uma prece.

As rezadeiras convidadas pela UnB ficavam numa das pontas da pesquisa, distante do laboratório, e só precisavam fazer o que estavam acostumadas: rezar. Na outra ponta, 52 estudantes de medicina. Eles foram divididos em 26 pares. Sempre um dos voluntários de cada par tinha uma ficha enviada para quem fazia a prece; o outro não. E sem que os voluntários soubessem, as rezadeiras faziam a oração.Os pesquisadores monitoraram o funcionamento da fagocitose, o processo de defesa das células do sangue. Células especializadas do sangue têm a capacidade de detectar corpos estranhos ao organismo. Durante o processo de fagocitose, estas células reconhecem bactérias, tumores, e lançam prolongamentos, envolvendo os invasores, para depois destruí-los, como se os comessem.

A pesquisa obedeceu aos métodos mais rigorosos de investigação: sigilo, exames periódicos dos elementos do sangue dos dois grupos de alunos, alternância de voluntários, sempre comparando os que recebiam e os que não recebiam a prece. Mesmo que não quisessem, os estudantes foram, aos poucos, apostando na hipótese de que a oração iria aumentar a fagocitose.

De novo, o resultado não poderia ser mais frustrante: a fagocitose não aumentou com a prece. No grupo que não recebeu as orações ela até aumentou um pouco, às vezes. Outras vezes, diminuiu. Mas quando examinaram melhor o comportamento da fagocitose no grupo que recebeu as preces, os pesquisadores descobriram o fundamental: a defesa do organismo permaneceu o tempo todo estável, sem oscilações e plenamente equilibrada. Em medicina, saúde e equilíbrio são conceitos que se misturam.

De acordo com Tosta, se a prece equilibrou a fagocitose, que é um mecanismo muito importante de defesa, ela atuou de maneira positiva. Segundo ele, se tivesse aumentado demais, a fagocitose poderia até mesmo causar infecção. O equilíbrio manteve os voluntários sempre com a saúde perfeita. “Houve a confirmação deste mesmo fenômeno, que é um dado ainda inédito. Como ele se dá é uma coisa muito misteriosa, que nós não temos condições de avaliar”, avaliou Tosta.