Quantas crianças você conhece que gostam de ler? Poucas, não é mesmo? E por que será que existe tanta resistência à leitura? Uma das grandes preocupações de muitos pais e professores está voltada para a prática da leitura, ou melhor: para a falta dela. Frases como “não gosto de ler”, “não consigo entender o que leio”, “ler me dá sono”, são cada vez mais comuns. O que podemos fazer para reverter essa situação?
É preciso entender, antes de tudo, o que é a leitura. Não se trata apenas de uma atividade de decodificação dos códigos lingüísticos. A leitura é o processo pelo qual o leitor atribui significado a um determinado texto e, portanto, é necessário ir além das palavras escritas, entendendo-se o que se está lendo. O significado é construído a partir da leitura de mundo de cada um. Ou seja: cada leitor imprime significação ao que está lendo a partir de conhecimentos prévios e experiências próprias.
Em uma família onde ninguém lê, é difícil despertar o gosto pela leitura. Ainda mais hoje, quando o livro compete com os jogos de computador, com a internet, com filmes de ação ou desenhos ultra animados
Portanto, o sentido do texto não está, apenas, no texto propriamente dito, mas também no leitor. Esta interação entre o texto escrito e quem o está lendo é uma das chaves para despertar o prazer na leitura se entendemos que, quanto mais lemos, mais conhecemos do mundo a partir de nosso próprio olhar. É esse conceito que devemos ter em mente quando pensamos em estimular as crianças para o hábito da leitura. É assim que elas devem apropriar-se do hábito de ler para que este seja uma fonte de prazer e descobertas.
Dê o exemplo
Algumas atitudes dos pais são fundamentais para que a tarefa de formar bons leitores dentro de casa seja um sucesso. Em primeiro lugar, o exemplo. Em uma família onde ninguém lê, é difícil despertar o gosto pela leitura. Ainda mais hoje, quando o livro compete com os jogos de computador, com a internet, com filmes de ação ou desenhos ultra animados. Se a criança cresce observando o hábito de leitura nos adultos da família, terá sua curiosidade despertada naturalmente.
O trabalho se completa quando os pais levam a criança às livrarias para que ela, desde cedo, escolha seus livros de história. É importante folhear, olhar as figuras, pegar aquele livro com a capa chamativa, ler um trecho ali mesmo de pé, ao lado da estante. E se a criança preferir uma leitura alternativa, como revista em quadrinhos ou publicações de esportes, não há problema. Penso que é melhor qualquer leitura do que leitura nenhuma. O importante no início é criar o hábito e despertar para a magia da atividade. A leitura desperta a fantasia ao mesmo tempo em que oportuniza a construção de novos saberes a partir de diferentes visões da realidade.
Nós lemos o tempo todo, tudo. Outdoor, rótulos de produtos e até mesmo itinerário de ônibus. Quem nunca se pegou lendo repetidas vezes um único aviso no metrô durante uma mesma viagem? Somos leitores natos. Vivemos na era da comunicação imagética. Desta forma somos constantemente convidados a ler textos não-verbais. Portanto, devemos valorizar também este tipo de texto em seus mais diversos portadores. Em alguns textos, a imagem fala mais do que as próprias palavras, então, a leitura de textos não-verbais é uma necessidade do mundo atual e através dela podemos aguçar a capacidade leitora de nossos filhos.
Conte historinhas
Uma prática muito usada por pais de outras gerações e que não devia ser abandonada por ser uma excelente ferramenta na formação de bons leitores é a hora da história antes de dormir. A falta dela tem desestimulado as crianças a construírem o hábito da leitura. Podemos pensar que a dificuldade das crianças com a leitura é, em grande parte, falta de estímulo dos pais e também a maior responsável pelo fracasso escolar, posto que a análise e a interpretação de todos os tipos de textos está presente em todas as disciplinas da vida acadêmica.
Uma pesquisa feita na Inglaterra, em 1980, comprovou que crianças cujos pais liam para elas todas as noites tiveram maior índice de alfabetização, significativamente diferente da taxa de reprovação dos alunos que não tinham atividades de leitura em casa. Desta forma, antes de querermos que nossos filhos sejam bons leitores, devemos descobrir em nós mesmos tal habilidade. Como bem o disse Drummond, “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas, por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede.” Enfim, só conseguimos verdadeiramente passar para nossos filhos aqueles valores, atitudes e posturas que fazem parte de nosso repertório.
Lucíola Agostini é psicopedagoga clínica e pedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico.





