Beleza 30 de junho, 2016 Por admin

Encarando o espelho

É só olhar para a TV, revistas, vitrines e anúncios para nos depararmos com mulheres praticamente perfeitas: cabelos lisos e sedosos, pele de pêssego, corpo sarado, bumbum e seios empinadinhos, roupas maravilhosas e cheias de estilo. Até aí, tudo bem. O drama é quando nos olhamos no espelho. Não há pessoa mais bem-resolvida com o visual que não sucumba aos apelos da mídia e da publicidade. A comparação com a realidade é inevitável e aí está o problema – nunca vamos conseguir nos encaixar totalmente no padrão de beleza da nossa sociedade. A questão é: você sabe lidar com isso ou você se sente completamente feliz com seu reflexo?

Recente pesquisa feita pela marca de cosméticos Dove, realizada com 3300 mulheres em dez países, mostrou que uma visão adequada de beleza é fundamental para o desenvolvimento da auto-estima. De acordo com o estudo, 90 % das mulheres gostaria de mudar algo no corpo para ficar perto do ideal de beleza presente no imaginário delas e 55% admitem que é difícil se sentir bela quando confrontadas com os atuais padrões. Em terras tupiniquins, esse número chega a 64%. Talvez não seja à toa que o Brasil seja o segundo país que mais faz cirurgias plásticas no mundo, fazendo da indústria da beleza um mercado em potencial crescimento.

Quando se acredita que o consumo vai saciar todos os problemas, a pessoa deve procurar ajuda. Não podemos usar o consumo para tamponar a nossa angústia

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De acordo com a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, autora do livro “O intolerável peso da feiúra – sobre as mulheres e seus corpos”, da Editora PUC, o avanço científico e tecnológico, principalmente ligado à medicina estética, somado à sociedade de consumo que estamos inseridos ajudou a desacostumar o olhar a lidar com as imperfeições. “O olhar do outro é ameaçador. Nossa cultura atualmente moraliza a beleza, ou seja, a imagem representa, define o que a pessoa é. Criamos estereótipos morais e, por conseqüência, cria-se uma massa de excluídos”, explica ela, que coordena ainda o Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social da PUC-RJ.

Para Joana, hoje vivemos na ditadura da beleza, da juventude e da magreza, sendo esta última, talvez, mais representativa que as outras – o que ela define como cultura lipofóbica: o horror à gordura. Mas nem sempre foi assim. No passado, as mulheres rechonchudas faziam mais sucesso do que as magrelas. A explicação é simples – somente quem tinha poder aquisitivo poderia comer bem, e quem não tinha dinheiro era magro. “Hoje, quem tem dinheiro pode pagar cirurgias plásticas, spas, academias, cremes. Pode-se concluir, portanto, que o padrão estético é sempre da elite. Um amigo brinca dizendo que no mundo existem seis bilhões de pessoas e apenas 10 top models. São poucos os que atingem esse padrão ideal”, explica a psicóloga.

Entremeando toda essa questão está a auto-estima e as doenças ligadas à beleza. Muitas pessoas perdem-se tentando se encaixar nesses padrões. Vêm daí problemas como anorexia, bulimia e a vaidade excessiva. “Quando se acredita que o consumo vai saciar todos os problemas, a pessoa deve procurar ajuda. Não podemos usar o consumo para tamponar a nossa angústia”, orienta Joana. Segundo ela, é preciso fazer uma avaliação objetiva – se você conseguir mudar aquilo que te incomoda, ótimo, mas é preciso também lidar e aprender a conviver com a realidade.

Entretanto, como manter a auto-estima elevada numa sociedade marcada pelos padrões? Joana afirma que é muito importante não “satanizar” os padrões de beleza e um pouco de vaidade é saudável. “Afinal, você está inserido numa cultura e toda cultura tem padrões. Bom-senso é a palavra de ordem. Não é preciso virar escravo de padrões, mas nem tudo irá servir”, diz.

Joana não economiza palavras ao afirmar que, atualmente, a felicidade depende cada vez mais da beleza. “Não sei se individualmente, mas o discurso dominante é esse. Beleza é moeda de troca”. Segundo a psicóloga, hoje vale a máxima “só é feio quem quer”, seja por ter facilidade de acesso aos tratamentos estéticos ou por simplesmente ignorar os padrões. E então, qual será sua opção?

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