Diário do apartamento

Diário do apartamento

?? de fevereiro de 2008

Entrei no apartamento pela primeira vez. Ele é claro e cheira bem. A sala é grande. O elevador tem porta pantográfica. Acho que posso gostar dele.

5 de maio de 2008

Peguei as chaves. Lá tem luz, mas lâmpadas, não.

Preciso comprar um chaveiro novo, um chaveiro que diga tudo o que eu quero dizer, mas não digo.

Deitei no sofá, fechei os olhos e fiquei quietinha que era para o apartamento pensar que eu estava dormindo. Pouco a pouco, vamos pegando intimidade – o apartamento e eu.

6 de maio de 2008

Fiquei sozinha no apartamento pela primeira vez. A luz do dia arregaça os defeitos do apartamento. Fiquei com medo de não gostar dele e chorei muitas lágrimas.

17 de maio de 2008

A pintura ficou boa. O apartamento, maior. O sinteco é fosco. Fiquei sem escrever porque estava coberta de poeira, no meio das caixas, sem saber por onde começar. Ainda não terminei.

PS: Vou dormir no apartamento pela primeira vez.

18 de maio de 2008

Estiquei o tapete preto na sala. Por cima, pufe preto. No escuro da noite, tropecei. Se não caí, foi por pouco. O apartamento esticou a perna na tentativa de me dar uma rasteira.

Não foi por mal. O apartamento, como um filhote, só quer brincar. Mas, às vezes, machuca.

20 de maio de 2008

À noite, do corredor, olhei para a sala escura e vi um homem sentado no sofá. Olhei de novo: o homem estava de chapéu. Olhei de novo: era só o meu abajur.

21 de maio de 2008

Ouço barulhos e levanto a cabeça da cama. O apartamento está cheio de fantasmas.

22 de maio de 2008

O barulho, aquele, não era fantasma. É só o sinteco, que anda estalando.

De todo modo, mudei o abajur de lugar.

23 de maio de 2008

O banho do ex era muito melhor. Aqui, mesmo com a vantagem do blindex, é um pinga-pinga: meia hora pra conseguir tirar o condicionador. Preciso de um bombeiro ou vou ter que cortar joãozinho.

24 de maio de 2008

Deitei no sofá, fechei os olhos e fiquei quietinha que era para o apartamento pensar que eu estava dormindo. Pouco a pouco, vamos pegando intimidade – o apartamento e eu. Fiquei escutando o elevador subir e descer, subir e descer, várias vezes. Minha faxineira tem medo do elevador, porque ele é antigo e tem porta pantográfica.

26 de maio de 2008

Encontrei o bombeiro na esquina. Por aqui, encontra-se de tudo na esquina, até bombeiro. Ele me passou o cartão para combinarmos o melhor horário.

Não liguei.

2 de junho de 2008

Passei o fim de semana fora. O apartamento, como um cachorro que come o pé do sofá, mostrou que não gosta de ficar sozinho: derrubou o varal. Encontrei minhas roupas no chão, minhas roupas brancas no chão, lençóis, calcinhas, camisolas, panos de prato bordados, meias encardidas e um sutiã de renda. Bati a palma da mão na coxa e xinguei. O apartamento ficou em silêncio – nem um estalo. Arrumei a bagunça que o apartamento fez.

9 de junho de 2008

À tarde, dormi no sofá pela primeira vez. Foi uma soneca de meia hora, mas sonhei.

Não quero acordar.

10 de junho de 2008

Tatuei o apartamento. No corredor, de fora a fora, colei rosas vermelhas que brotam do rodapé verde. Tatuei o meu nome no apartamento, como um cachorro que faz xixi para delimitar seu território. Não quis nem saber: fui lá e plum – uma dúzia de rosas vermelhas. Rosa, rosana, rosa, rosana. É possível que eu não seja uma rosa vermelha e sim uma rosa rosa, mas quero ser vermelha.

12 de junho de 2008

Escrevo essas palavras no vagão do metrô, sentido zona norte. Escrevo aqui para que o apartamento não leia. Acho que o apartamento não gostou das rosas vermelhas. Eu gostei.

13 de junho de 2008

O apartamento não gostou das rosas vermelhas. Quer me mostrar que não adianta: não vou me enfiar goela dele abaixo. O apartamento derrubou uma rosa vermelha no chão do corredor. Fiquei triste e colei a rosa de novo. Quando dei meia volta, ele derrubou a rosa outra vez, como quem espanta uma mosca que insiste em pousar nas suas costas. Colei a rosa de novo. Ele derrubou. Colei. Ele derrubou. O apartamento quer se livrar das rosas vermelhas, das rosas-rosanas, mas fiquei firme. E assim vamos vivendo nossa pequena eternidade.

16 de junho de 2008

Escrevo essas palavras sentada no sofá, com os pés no pufe preto, sobre o tapete preto. Perto do fim, leio alto. O apartamento fica quietinho e ouve cada linha sem me interromper – exceto quando falo das rosas vermelhas. Agora são duas estiradas no chão do corredor.

18 de junho de 2008

O apartamento colocou uma vassoura atrás da porta. Finjo que não é comigo.

19 de junho

Liguei para o bombeiro. Ele disse que não pode hoje, mas vai tentar vir amanhã.

20 de junho

14h – bombeiro.

21 de junho de 2008

Comprei um chaveiro que diz tudo o que quero dizer, mas não digo.

23 de junho de 2008

Quando o apartamento vai deixar de ser o apartamento e virar a minha casa?