Como é ser um astronauta? Marcos Pontes, primeiro brasileiro a ir ao espaço, explica

por | maio 10, 2017 | Ciência

No dia 30 de março de 2006, pela primeira vez um cidadão brasileiro alçou voo da Terra para o espaço sideral. O astronauta Marcos Pontes foi enviado ao espaço na Missão Centenário, um projeto da Agência Espacial Brasileira (AEB), em parceria com a Agência Espacial da Federação Russa – o nome é uma homenagem aos então 100 anos do primeiro voo do 14-Bis, de Santos Dumont.

Assim como a maior parte dos voos espaciais, o foguete Soyuz TMA-8 que levou Marcos e mais dois astronautas (um norte-americano e um russo) saiu para uma missão relativamente curta: a missão durou 9 dias e 21 horas, completando 155 órbitas terrestres. Deste tempo, foram apenas dois dias de voo e mais oito acoplado à Estação Espacial Internacional, espécie de laboratório científico que gira ao redor da Terra.

Em entrevista ao Vix, Marcos Pontes explica como era a rotina de trabalho no espaço.

Rotina de trabalho 

“O trabalho no espaço é corrido, são de 16 a 18 horas de atividade e 6 a 8 horas de sono. Tínhamos cerca de 80 experimentos a bordo, entre eles os oito experimentos selecionados pela AEB”, explica. As pesquisas eram, em sua maioria, dedicadas a reações em campos de microgravidade.

“No meu caso, como especialista de missão, eu tinha função de montar, consertar e configurar sistemas, além de realizar experimentos de empresas, universidades e centros de pesquisas dos países parceiros do projeto”, conta o astronauta.

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Como é o voo?

A missão levantou voo a partir do Centro de Lançamento de Baikonur, no Cazaquistão. A aeronave carregava, além dos três tripulantes, mais 15 quilos de carga da Agência Espacial Brasileira e 200 quilos de combustível, e voava a 28 mil km/h.

“A subida e a reentrada são as fases mais críticas do voo devido às mudanças de configuração do veículo e as exigências aerodinâmicas e termodinâmicas na estrutura. A sensação é de muita atenção, visto que nessas fases não temos muito tempo de reação no caso de falhas de sistemas”, relembra Marcos.

Em entrevista à publicação alemã Deutsche Welle, o astronauta relatou todo o processo da saída da plataforma até o lançamento. “Você entra num elevador bem apertado. Tira a bota que usamos para caminhar e entra na cápsula. A passagem é estreita. Como aquele macacão é desconfortável, quando você chega dentro da nave, você está suado, e tudo que você quer é se conectar a um cabo. Tem um cabo de comunicação, um de oxigênio e um de ventilação. Quando você conecta, principalmente o de ventilação, dá um alívio. Aí você consegue raciocinar. Toda aquela parte de fora fica para trás. Tem que se concentrar no painel. Depois de todo mundo amarrado, vem o acionamento de todos os sistemas, contagem regressiva, vibração. O foguete vibra muito, o coração acelera bastante. Você está a caminho dos nove minutos mais rápidos da sua vida”, disse.

Ex-piloto de caça da Força Aérea Brasileira, Marcos contou ao Vix que a sensação de viajar no foguete é completamente distinta da de voar em um avião. Compara dizendo que o mais próximo àquele momento é pilotar uma aeronave de caça em testes de limite de voo.

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Qual o treinamento?

Não é preciso ser piloto de caça para ser astronauta. Qualquer indivíduo com as condições físicas propícias e aprovado no programa espacial terá obrigatoriamente que passar por treinamento de voo na cadeira traseira durante os dois anos de treinamento básico de astronauta.

No caso de Marcos, seu treinamento começou assim que foi selecionado para o programa de formação da Nasa, em 1998. Em dezembro de 2000, recebeu o certificado oficial de astronauta pela agência espacial norte-americana.

O astronauta explica que o treinamento é dividido da seguinte maneira:

  • 70% do tempo é dedicado à preparação técnica. “É o mais importante, difícil e demorado”, garante;
  • 15% do tempo é de preparação emocional, com psiquiatras e psicólogos;
  • 10% do tempo é voltado para a parte fisiológica, com médicos e exames médicos;
  • 5% de todo o treinamento, apenas, é dedicado ao condicionamento físico.

“Basicamente, qualquer pessoa bem de saúde, com treinamento e dieta adequados, coordenados pela Nasa, em seis meses estará pronto para voo espacial”, afirma. “O importante é a saúde, o controle emocional e a preparação técnica. Temos todos os tipos de exames fisiológicos e são extremamente rígidos”.

Até hoje, nenhum outro astronauta brasileiro completou uma viagem ao espaço.

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