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Efeitos da altitude: o que ocorre com o corpo em locais altos e até qual altura suportamos?

Publicado 31 Mai 2017 – 06:00 AM EDT | Atualizado 16 Mar 2018 – 08:32 AM EDT
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Quem mora em cidade acima do nível do mar certamente já passou por isso: ao viajar de carro para o litoral, você sente o ouvido entupir e pode até ouvir pequenos zunidos enquanto desce a serra. Trata-se de um efeito da pressão atmosférica, que aumenta na mesma proporção que nos aproximamos do nível do mar.

Isso significa que Rio de Janeiro, Florianópolis, Salvador, Belém, entre outras cidades costeiras do Brasil, e do mundo, têm geralmente mais pressão atmosférica do que as cidades localizadas acima das serras. Isso acontece porque a quantidade de moléculas dos gases que compõem o ar precisam se agrupar mais, tornando a atmosfera mais densa.

São Paulo, por exemplo, fica 760 metros acima do nível do mar. Está pertinho da cidade com maior altitude do país, Campos do Jordão, a 1.628 metros. Entre as capitais, a mais alta é a própria capital do país, Brasília, cuja altitude é de 1.172 metros.

Mal da altitude

Até aproximadamente 2.300 metros acima do nível do ar, a diferença é pouco nítida. Em um primeiro momento, quando se transita rapidamente entre diferentes altitudes pode se sentir a pressão nos ouvidos ou leve dificuldade para respirar, mas é a partir de 2,5 km que os efeitos são mais claros.

“Em altitudes elevadas, menor será a quantidade de oxigênio, o ar fica menos denso, com mais espaços vazios entre as moléculas. Na medida que a pressão atmosférica diminui, pode provocar injúrias e desconfortos ao nosso organismo como: cefaléias, náuseas e até mesmo prostração [falta de reação]”, explica Bruno Lins, médico especializado em fisiologia e esporte da rede Doctoralia.

No mundo, são relativamente poucas as cidades que se situam a alturas superiores a 3.000 metros. Um país onde tais alturas são comuns é a Bolívia, cuja grande porção de seu território está na Cordilheira dos Andes. Sua capital, La Paz, é a mais alta do mundo, a 3.640 metros, e Potosí, a 4.090 metros, tem o campo de futebol mais alto onde já se jogou uma partida oficial.

Ao norte da Bolívia, no Peru fica a cidade mais alta de que se tem registro hoje. Trata-se La Rinconada, localizada a 5.100 metros acima do nível do mar, onde vivem aproximadamente 30 mil pessoas.

Como evitar efeitos da altitude

Folha de coca

Nos países andinos acima citados, a principal solução é a coca. O hábito de mascar folha de coca não tem absolutamente nada a ver com a droga cocaína (é apenas um dos componentes, embora seja o principal), pelo contrário: é uma tradição que já tem 8 mil anos. Há também a opção de tomar chá de coca, que é facilmente encontrado em qualquer cidade boliviana ou peruana.

“Os efeitos medicinais encontrados na folha, que costumam agir como um estimulante, melhoram o metabolismo contra mal de altura, diarreias e cefaleias”, relata o médico fisiologista. “Por ser estimulante e revigorante, atenua os efeitos da alta altitude”.

Alimentação

Quanto melhor a troca gasosa no organismo, menos severos serão os efeitos da altitude. A troca gasosa tem relação direta com a concentração de glóbulos vermelhos circulando pela corrente sanguínea. “Recomendo uma suplementação adequada de ferro. Oriento meus pacientes a ingestão de alimentos ricos em ferro como feijão e folhas verdes”, recomenda Dr. Bruno.

Outros dois elementos importantes para aumentar a resistência em locais de altitude elevada são a vitamina C e os carboidratos - é uma fonte de energia rápida e que exige menos esforço de processamento do organismo do que as gorduras.

Tempo de adaptação

Quem pretende viajar e passar alguns dias nas cidades mais altas da Cordilheira dos Andes, a melhor forma de chegar lá é “despacito”, como diriam os locais. O ideal é começar pelas cidades mais baixas e subir devagar, para que o corpo vá se acostumando com as diferenças aos poucos.

Em casos de eventos pontuais em cidades de altura elevada, como jogos esportivos, o ideal é exatamente o contrário: chegar em cima da hora. Isso porque, fisiologicamente, o corpo humano começa a reagir após a quarta ou quinta hora somente, de acordo com pesquisa realizada pela Federação Boliviana de Futebol.

Seu corpo a cada mil metros

Veja aqui os efeitos da altitude no corpo humano:

Nível do mar até 2.000 metros 

Os efeitos dentro desta variação são quase nulos. Apenas pode-se sentir a diferença de pressão em mudanças bruscas, caso da Serra do Mar, ou pela queda de temperatura característica das altitudes mais elevadas.

Até 3.000 metros

A partir de 2.300 metros já pode-se sentir algumas alterações. Na cidade de Cochabamba, na Bolívia, a 2.558 metros, já ocorrem os primeiros sinais: dificuldade para respirar e batimento cardíaco levemente mais acelerado. A partir desta altitude, já é bom ficar atento com a alimentação - é natural uma leve perda de apetite.

Até 4.000 metros

Os efeitos já aparecem bastante a esta altitude. Qualquer atividade física mais intensa gera fadiga imediatamente. A respiração exige mais esforços e a musculatura corre mais riscos de lesão - é por isso que clubes de futebol reclamam de jogar em La Paz (3.640 metros), por exemplo, sendo necessário às vezes tubos de oxigênio. A exposição à luz do sol é bem forte: óculos de sol e protetor solar se tornam indispensáveis.

Até 5.000 metros

É o limite que o organismo humano pode suportar sem risco de vida. Os efeitos motores e cognitivos já são evidentes, podendo levar até a alucinações. A necessidade de se proteger contra efeitos do sol é fundamental - há risco de queimaduras graves e reações irreversíveis nos olhos. Vasos sanguíneos bem finos já podem se romper e a formação de edemas na pele é comum. O aproveitamento de oxigênio, aqui, é 50% menor do que no nível do mar.

Quase 9.000 metros (pico do Everest: 8.848 m)

Região é chamada de zona da morte. E não é à toa: nem os mais bem preparados alpinistas podem suportar mais de 90 minutos no local. “Os profissionais que se aventuram nestas práticas correm o risco de sofrer edemas pulmonar ou cerebral”, alerta o médico fisiologista.

A capacidade do corpo de aproveitar oxigênio cai até 30% e, para suprir a ausência do ar, o coração faz muita força para bombear o sangue - no limite, pode levar a uma parada cardíaca. Se não mata, pode causar outros problemas graves: sem oxigênio no corpo e exposto a muito frio (faz até -70 ºC), o tecido das extremidade do corpo, como dedos, pés, mãos e até nariz, podem morrer e ser necessária amputação.

Alterações no corpo humano

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