Ativista pelos cuidados paliativos Ana Mi morre após 11 anos com câncer: transbordou vida até o fim

por | jan 24, 2023 | Notícias

Após mais de dez anos convivendo com um câncer metastático, morreu no último sábado (21) a jornalista, escritora e ativista Ana Michelle, mais conhecida como Ana Mi. Durante sua jornada com a doença, ela passou a enxergar a vida de forma diferente – e, desde 2011, quando foi diagnosticada, deu passos importantes não apenas na conscientização sobre cuidados paliativos como também em uma reformulação do que significa ter esperança.

Morre Ana Mi, ativista que, diante da morte, viveu como ninguém

Em 2011, aos 28 anos de idade, Ana Mi recebeu uma notícia que mudaria completamente os rumos de sua vida – e, apesar de a notícia ter sido um diagnóstico de câncer metastático, ela não passou a trilhar um caminho necessariamente ruim.

Isso porque, após a constatação de que nada na medicina poderia curar a doença, ela criou outro olhar sobre a vida, algo que levou consigo até o fim da vida e usou para transformar os últimos anos de muitas pessoas como ela.

Quando descobriu o câncer, Ana Mi conheceu Renata, que começava, também naquele momento, a viver a mesma situação. Juntas, as duas embarcaram em uma jornada para realizar os últimos desejos e, no caminho, ainda construíram algo que fica como legado de ambas: a Casa Paliativa, espaço de acolhimento, apoio e vida para pacientes que se beneficiam desse tipo de cuidado.

Mesmo com a morte da amiga, que faleceu em 2018 em decorrência do câncer, Ana Mi não esmoreceu. Logo em seguida, ela fez questão de continuar realizando não apenas os seus últimos desejos como os da amiga – o que a levou a situações como um show da dupla Chitãozinho e Xororó com música dedicada à Renata e até a Paris.

Em entrevistas dadas ao longo dos últimos onze anos, a ativista sempre falava sobre seu aprendizado quanto ao conceito de esperança, cujo significado, segundo ela, muda após um baque tão grande quanto um diagnóstico de câncer terminal.

“Nunca parece ser a hora certa de viver a totalidade. De abrir o coração e desejar profundamente estar presente. […] Ciente da minha mortalidade, reaprendi a viver. E tenho vivido os melhores últimos dias, meses, anos da minha vida. […] As coisas são como são e é uma escolha interna decidir habitar o espaço do ordinário ou do extraordinário de cada agora, mesmo que seja um sonho”, disse ela em uma coluna escrita para a Veja de São Paulo em 2021.

Em seus últimos anos de vida, o que Ana Mi fez com Renata após a morte da amiga, inclusive, foi feito com ela. Diante de uma piora em seu estado de saúde, a ativista viu acontecer uma mobilização para que seus últimos desejos fossem realizados – e a lista incluía desde “fazer algo perigoso” até rever o cãozinho de estimação e dormir mais uma noite em casa.

Ao final de 2022, já internada devido à piora, Ana Mi completou 40 anos de idade – e, ao falar sobre o aniversário nas redes sociais, lembrou algo que havia dito no passado sobre chegar a esta idade. “Em uma conversa com uma amiga quando fui diagnosticada aos 28 disse: ‘Se eu chegar aos 40, já é um milagre’. Cheguei”, afirmou, trazendo palavras inspiradoras sobre sua vivência e a alegria de ter chegado até ali.

“Não sei o critério para definir longevidade. Mas, diante do que vivo desde os 28, me acho uma senhorinha que tá indo bem, embora viva uma fase de dependência que é muito difícil. Passei internada, mas cercada de amor. Eu poderia ter escolhido ficar triste e reclusa… Mas lembrei que tô vivendo o milagre de estar aqu! Hoje, celebro meus 40 anos e os milagres que vivo diariamente”, disse na postagem.

Com a morte de Ana Mi, seu legado ajuda a transformar a fase final da vida de muitos em uma experiência mais leve tanto com a Casa Paliativa quanto com as lições inspiradoras que seguem reverberando após sua partida.

Ao anunciar informações sobre o velório da ativista, por exemplo, a conta oficial da Casa Paliativa no Instagram deixou claro um pedido que mostra o quão vivos seguem sendo os sonhos de Ana Mi. “O último desejo de Ana Mi foi que, ao invés de enviar coroas de flores, quem desejar poderá fazer doações para o projeto Casa Paliativa, que era uma de suas grandes paixões”, diz o post.