Loucos por séries

De virar a madrugada assistindo aos tão aguardados episódios à criação de teorias sobre os próximos capítulos, quem assiste às séries de TV garante que é amor à primeira vista (literalmente)! “Já sonhei com os personagens, faltei no trabalho, fiquei acordada durante dias, fiz maratona de temporadas, briguei com o marido, quis matar os roteiristas porque deram sumiço em algum personagem ou porque o tão esperado beijo do casal não rolou na hora certa… Por elas, já fiz de tudo”, ri Krisnamara Alencar, funcionária de uma operadora de telefonia móvel. Mas, o que existe de tão encantador e atraente nesse universo de perdidos numa ilha, super-heróis, crimes, dramas familiares, sexuais, profissionais e de mulheres desesperadas, apaixonadas e românticas? Você descobre agora!

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Loucura, loucura!

Outra que já fez loucuras por suas séries favoritas foi a publicitária Bibiana Beurmann. “Deixei de sair para assistir a inéditos de Gilmore Girls ou E.R., gastei dinheiro que não podia comprando box de temporadas de Friends e de Gilmore Girls, já me imaginei dentro das séries, como costumamos fazer em livros, bolei continuações para finais de temporada de E.R. e até escrevi o primeiro episódio do que seria uma oitava temporada de Gilmore Girls. Também faço plantão na internet para baixar os episódios assim que ficam prontos”, conta.

Louco por Lost que sou, quis unir o útil ao agradável. A ilha de Oahu é sensacional! Me divertia muito fazendo as fotos e vídeos, pensando na reação dos meus amigos e dos leitores do blog ao verem que estive nos mesmos locais de Jack, Sawyer e companhia

Os fãs fazem de tudo mesmo. Com um abaixo-assinado, conseguiram que uma emissora voltasse atrás na decisão de cancelar a série Jericho, por exemplo. “Já vimos até gente querendo colocar o nome do filho de John Locke, em homenagem ao personagem de Lost“, contam a historiadora Juliana Ramanzini e o administrador de empresas Davi Garcia, coordenadores, entre outros blogs, do Dude! We are Lost!, dedicado à série de maior audiência no Brasil. “Há fãs que sabem, também, os nomes dos episódios das temporadas de cor”, acrescenta Carlos Alexandre Monteiro, jornalista do site Séries Etc. e à frente do blog Lost in Lost. Para ele, ficar acordado de madrugada, esperando o momento exato em que a série é posta para baixar, é algo bem comum, nem conta como ‘loucura’.

Então, passemos à viagem que o jornalista fez ao Havaí para visitar os locais onde Lost é gravado. “Louco por Lost que sou, quis unir o útil ao agradável. A ilha de Oahu é sensacional! Me divertia muito fazendo as fotos e vídeos, pensando na reação dos meus amigos e dos leitores do blog ao verem que estive nos mesmos locais de Jack, Sawyer e companhia”, diz, animado, ainda sob o efeito da viagem.

Cristiane Urbinatti, atriz, não viajou para o Havaí e nunca foi de querer baixar séries pela internet, mas o jogo está começando a virar depois de Heroes. “Adoro temas de histórias em quadrinhos, heróis, mutações. Por isso, amo Heroes“, diz. “É uma tortura ter que esperar uma semana pelo próximo episódio. Fico parecendo criança quando sabe que vai ao parque de diversões e não consegue dormir!”, ri. A atriz está superpreocupada com a greve dos roteiristas, que vai diminuir a quantidade de episódios da próxima temporada de Heroes e afetar tantas outras séries.

Já Luralak Schulz, terapeuta, nunca tinha se interessado muito por esse tipo de entretenimento, até se apaixonar por Friends, que conta, com muito humor, os ‘dramas’ de amigos que moram juntos. “Apesar de ter acabado, é a série de que mais gosto até hoje. Assisto todos os dias e não me canso!”, diz. “É difícil explicar uma ‘paixão’, mas, quando ficamos sem, parece que falta algo”, ri. O estudante de Publicidade Thiago Pasqualotto concorda: “Alguns são apaixonados por futebol, outros por carros, por samba e alguns, por séries”, diz. Em sua lista de preferência, Friends também reina, soberana, mas Cold Case, The OC e Desperate Housewives também estão entre as top 5 séries que marcaram. “Além dessas, novatas como Ugly Betty, Samantha Who?, Gossip Girl e Californication são imperdíveis e serão a febre de 2008 no mundo das séries”, anuncia Thiago, que já perdeu aulas na faculdade e chegou atrasado ao trabalho só para assistir aos episódios.

Em todas as partes

Elas não levam a marca Hollywood, não estrelam o Brad Pitt, Tom Cruise, Nicole Kidman, nem Glória Pires ou Tony Ramos, a dupla imbatível da telenovela brasileira. Mas a paixão pelas séries é tanta que a telinha é pequena para os fãs. Eles estão espalhados por blogs, fóruns e por aí vai. “Quem gosta não acompanha só os episódios, mas consome, também, todo tipo de mídia relacionada às séries. As pessoas curtem interagir com outros fãs”, garantem os coordenadores do Dude! We are Lost!. Isso porque as séries são produções que, muitas vezes, extrapolam o universo da TV. As pessoas buscam, então, espaços em comum onde possam colocar suas dúvidas, pontos de vista, teorias e por aí vai.

“É mesmo um público extremamente fiel, apaixonado”, diz Juliana Ramanzini. E variado! “Grande parte das séries é produzida para a faixa etária de 15 a 30 anos, mas conheço senhoras idosas loucas por Lost e Heroes e pré-adolescentes que não perdiam um episódio de Sex and the City“, conta o comentarista de televisão Bruno Carvalho, que comanda o blog Ligado em Série. “Para se interessar, basta gostar de uma boa história”, garante.

As de maior audiência no Brasil não são, porém, as de investigação policial, como acontece nos Estados Unidos. Segundo os coordenadores do Dude! We are Lost!, lá, entre as mais vistas estão séries como CSI ( Crime Scene Investigation). Por aqui, a que mais mobiliza o público é Lost, que conta a história de sobreviventes de um acidente aéreo numa ilha que é um misto de sobrenatural com laboratório de experimentos científicos.

No entanto, o grande destaque este ano foi a estréia de Heroes no Universal Channel , que também aposta nos blogs de séries da programação. De acordo com o Ibope/Telereport, foi a série mais assistida da TV por assinatura durante a primeira temporada, considerando todas as exibições. Segundo dados do Universal Channel, aliás, as séries, que ocuparam 44% da programação do canal no último semestre (na frente dos filmes, que ganharam 42% do espaço), garantem a liderança de audiência do Universal entre todos os outros canais de séries no horário nobre, desde 2004.

Dominadoras

Enquanto isso, as novelas e até os filmes vão perdendo espaço na programação da TV. Sem contar que as séries movimentam milhões de downloads na internet. Sim, porque fã que é fã não acompanha os episódios (só) na telinha. “O que me deixa mais admirada é ver o pessoal esperar ansiosamente para baixar o episódio à noite, aguardar a legenda e assistir a série quase de manhã. Depois, passar o dia dormindo em pé, mas com a sensação de que valeu a pena sacrificar o sono”, conta Juliana Ramanzini.

“O trabalho do pessoal que faz as legendas é, aliás, de tirar o chapéu. Eles passam horas a fio traduzindo episódios e não recebem nem um centavo por isso. Fazem pela paixão e para ajudar quem não entende inglês perfeitamente”, frisa o comentarista de televisão Bruno Carvalho. Mas até com os legenders, como são chamados, Krisnamara Alencar já comprou briga. “Sei que eles são maravilhosos, mas às vezes a ansiedade é tanta que não dá para esperar a legenda sair sem reclamar um pouquinho”, ri. Para não ter que esperar a tradução em português, ela já tentou até traduzir legenda em francês e italiano usando tradutor online.

De acordo com Carlos Alexandre Monteiro, do Lost in Lost as séries são esse fenômeno todo porque são programas muito bem escritos, dirigidos e produzidos, geralmente com elencos de qualidade. E, o mais importante: a variedade de temas é enorme, satisfazendo pessoas e nichos diversos. “Costumo dizer que não há quem não goste de séries”, diz Carlos Alexandre. “Quem diz não gostar é porque, na verdade, ainda não achou uma que agrade ao seu gosto”, defende. A jornalista Carolina Gomes, outra amante das atrações, acredita, também, no formato delas: episódios de uma hora (dramas) ou meia hora (comédias), divididos em temporadas com, no máximo, vinte e poucos episódios. “É mais fácil de acompanhar do que uma novela”, diz.