Lidar com o preconceito talvez seja um dos maiores desafios. Quando foi criado, as mulheres não trabalhavam e ficavam apenas divididas entre os afazeres domésticos e os cuidados com os filhos e maridos, os assuntos tratados eram necessariamente ligados à moda, beleza, culinária, decoração. O pensador francês Edgar Morin escreveu, em 69, que “a mulher modelo desenvolvida pela cultura de massa tem a aparência da boneca do amor“, se referindo ao jornalismo que exclusivamente se dedicava a ensinar a mulher a amar o homem que tinha em casa.
A jornalista Dulcília Schroeder Buitoni, no livro “Imprensa Feminina”, da Editora Ática, destaca que “muitas pessoas costumam contrapor imprensa em geral e imprensa feminina, quase sempre valorizando a primeira”. Isso significava que política e economia eram papo de homem e as amenidades, o entretenimento e o chamado “jornalismo de serviço” seriam apenas para as mulheres. Nesse jornalismo “leve”, não raro surgiam matérias do tipo “como agradar o seu marido”, não com assuntos ligados à sexualidade, bem comuns aos dias de hoje. Essa matéria é do gênero “como não deixar que seu marido fique aborrecido”. É, sinal dos tempos…
Algumas das lutas promovidas pelo jornal viraram leis no país, como o estabelecimento do divórcio, a possibilidade de investigação da paternidade e a igualdade na remuneração de homens e mulheres
No Brasil, o primeiro jornal direcionado somente para mulheres só chegou em 1852. Não é preciso dizer que o “Jornal das Senhoras” chegou levantando polêmicas e incomodando os homens. Afinal, o que tanto as mulheres liam ali? Eles tinham medo que as mulheres ficassem muito informadas, assim eles não teriam como controlá-las.
Feminismo
E, de fato, eles perderam o controle. A imprensa virou a porta-voz dos desejos, das vontades e das conquistas femininas. Um dos principais exemplos foi o surgimento da imprensa feminista. A França foi o principal núcleo desse jornalismo logo após a Revolução Francesa. Dessa época fazem parte L’Athénée des Dames, que mesclava no seu conteúdo o correio sentimental, mas também a luta pela emancipação. Mas eram poucas as leitoras, resignadas com a opressora situação feminina, que davam voz ao que estava escrito. O jornal fechou em 1809 por ordem do imperador. Seguiram-se após isso, publicações como La Voix des Femmes, La Politique des Femmes, com o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade para todos e para todas”.
A luta feminina francesa ganhou voz com o semanal Le Droit des Femmes, criado em 1869 por Maria Deraisme, primeira mulher a entrar na maçonaria. Algumas das lutas promovidas pelo jornal viraram leis no país, como o estabelecimento do divórcio, a possibilidade de investigação da paternidade e a igualdade na remuneração de homens e mulheres.
Em 1896 surge o primeiro diário totalmente produzido por mulheres, o La Fronde, iniciando com uma expressiva publicação de 200 mil exemplares que se esgotou rapidamente. Com a parte editorial variada, era às vezes mais completa que a chamada grande imprensa. Os assuntos iam dos serviços sociais, passando à política internacional, espiritualismo e até esportes. Foi um marco no jornalismo francês.
Publicações feministas também tiveram muita expressão na Itália ( Circolo delle Donne Italiane e Un Comitato de Donne) e na Alemanha, com o periódico Neue Bahnen, criado em 1866, que lutava pela criação de uma estrutura estatal e jurídica que protegesse o trabalho feminino.





