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Taís Araújo aconselhou Ewbank antes de caso de racismo: "Você escolheu ter filhos negros"

Em entrevista ao podcast de Gioh, a atriz desabafou sobre os desafios na educação de crianças negras em um país preconceituoso.
Publicado 3 Ago 2022 – 11:51 AM EDT | Atualizado 3 Ago 2022 – 11:51 AM EDT
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Em entrevista ao podcast "Quem Pode, Pod", apresentado por Giovanna Ewbank e Fernanda Paes Leme, a atriz Taís Araújo falou sobre o enfrentamento ao racismo como mulher negra, compartilhando suas vivências e explicando porquê as estratégias da luta antirracista são diferentes para pessoas brancas e pretas. O programa foi gravado pouco antes da agressão sofrida pela família de Gioh em Portugal, e lançado no YouTube na última terça-feira (2).

Taís Araújo fala sobre racismo com Gio Ewbank

Durante sua entrevista ao podcast, Gio Ewbank questionou Taís Araújo sobre suas vivências enquanto debatiam o último filme da atriz, "Medida Provisória", dirigido por seu marido, Lázaro Ramos.

O filme retrata uma distopia onde todas as pessoas negras do Brasil são mandadas para a África após aprovação de uma medida provisória do governo que visava "reparar danos da escravidão". Refletindo sobre falas racistas que são dispostas na trama, Giovanna revelou um incômodo sobre as cenas de conflito, questionando como a personagem de Taís não expressava sua raiva "saindo na porrada".

"Eu entendo você, Giovanna, perguntar porquê não se vai pro embate, pra porrada, mas você escolheu ter filhos negros, foi uma escolha sua. Então você não passou nada que seus filhos passaram, vão passar, e tão passando. A gente toma porrada desde sempre, sabe?", desabafou Taís. "Às vezes a porrada é uma estratégia, às vezes é o diálogo, às vezes é o afeto, às vezes é ignorar, não dá pra ter só uma tática, porque senão não dá pra viver! Fica pesado demais".

A colocação de Taís acabou chamando a atenção do público, pois foi gravada antes da agressão sofrida pela família de Giovanna em Portugal, em que seus dois filhos, Titi e Bless, foram vítimas de racismo. "Você dando porrada em outra pessoa branca é encarado de outra maneira, é o famoso 'vocês que são brancos que se entendam'. Eu não, eu tenho que agir de outra maneira", explicou. Assim como Giovanna comentou em entrevista para o "Fantástico" no último domingo (31), o privilégio de cor e classe lhe permitiu uma abordagem que, quando tida por mães pretas, seria vista como "agressiva ou louca".

Taís aconselhou Gioh sobre educação de Titi


Em outro momento, Gioh agradeceu a importância de Taís tê-la procurado quando adotou a filha. "Quando a Titi chegou no Brasil, você me ligou, e eu nunca tinha falado com você. Você disse 'tô muito feliz com a tua maternidade, tô aqui pro que você precisar, que agora você faz parte de nós'. A gente entrou num papo que eu chorava, você me falava coisas que eu não tinha ideia".

"Você me de um parâmetro que eu não tinha, que comecei a ver através de você. Os filhos nos transformam, nos dão propósito, e o meu hoje é que o mundo pra eles seja melhor. Quero muito te agradecer de verdade, você é um exemplo pra mim e pros meus filhos", emocionou Giovanna. Logo na sequência, a pequena Titi chegou no estúdio de surpresa e veio abraçar a mãe ao vê-la chorando. "A gente tava falando do como você é maravilhosa", segurou Gioh.

Taís refletiu sobre as dificuldades de estudar em uma escola particular na Barra Tijuca dos anos 1990, onde "sempre viu mulheres pretas em posição de servir", sendo uma das únicas crianças negras a frequentar o local. "A infância de uma criança negra é muito dura nesse país, (...) claro, ela (Titi) vai ter muitos privilégios, muitos acessos. Mas (na época escolar) o mundo me dizia, 'seu lugar não é nessa escola não'", relembrou a atriz, que aconselhou Giovanna sobre a educação da pequena, na época da adoção.

Confira o trecho da conversa que emocionou Gioh e Taís:

"Tive que levantar o nariz senão seria atropelada"

Gioh ainda relembrou na conversa que, no tempo em que trabalhou para a Rede Globo, ouvia rumores de que Taís Araújo era uma pessoa arrogante. Mesmo na época, ela não entendia as colocações, mas que agora percebe o preconceito embutido nessas suposições.

"Eu nem te conhecia, nem tinha filhos pretos, a minha visão não era a que eu tenho hoje. Com o tempo, comecei a perceber, você não tem nenhuma história de tratar ninguém mal. (...) Comecei a entender que a posição da mulher preta num lugar fod*, de boa profissional, incomoda! De estar no lugar que você tá, as pessoas se incomodam com isso. Eu queria saber se você já sentiu isso, se você vê isso, porque me incomoda muito".

"Eu escuto isso desde que eu saí da maternidade (risos)", desabafou Taís. "Desde sempre. Confesso que na minha infância e adolescência, fatalmente, tive que levantar o meu nariz, porque senão eu seria atropelada. Eu fui criada num lugar muito branco e muito de elite. Eu não tava afim de ser atropelada por ninguém".

A atriz ainda revelou um episódio para explicar como essa impressão de arrogância que foi criada sobre ela tinha muito a ver com racismo. "Será que você não tá acostumado a só ver o negro em lugar de subserviência, que vendo ele no topo, o acha prepotente? (...) É difícil pra sociedade encarar, desde o Brasil colônia, uma população que foi sequestrada e escravizada com algum poder, olhar pra você no mesmo nível. Isso é uma questão que tá na pele do brasileiro, tá tatuado, é muito difícil, sim, pro brasileiro encarar uma mulher negra de frente sem taxá-la de metida, prepotente, arrogante", concluiu.

Racismo e preconceito

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