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Filha de Ewbank entendeu e se assustou com racista: "Cruel pensar que eles já têm que ser fortes"

Pais de Titi e Bless, de 9 e 7 anos, Ewbank e Gagliasso explicam o motivo de usar privilégios na luta contra o preconceito
Publicado 1 Ago 2022 – 12:13 PM EDT | Atualizado 1 Ago 2022 – 12:13 PM EDT
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A família de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso sofreu um ataque racial que se tornou público e impactou a web. No último sábado (30), os filhos do casal, Titi e Bless, foram vítimas de racismo em um restaurante durante viagem da família à Costa da Caparica, em Portugal.

A reação de Giovanna, que foi filmada e repercutiu amplamente nas redes sociais, movimentou um debate sobre a importância da luta antirracista e do posicionamento firme frente a casos como esse, bem como dos privilégios que auxiliaram a família na justiça frente ao caso.

Em entrevista ao "Fantástico", o casal falou sobre o que viveu e ainda aproveitou para revelar como foi a percepção de Titi e Bless sobre o caso, além da conversa com os filhos após o ocorrido.

Titi se assustou com ataque racista

Durante o programa dominical, Giovanna Ewbank contou que Titi entendeu o ataque racial que havia presenciado, mas Bless, que estava brincando enquanto tudo aconteceu, não teria percebido. Os filhos da apresentadora estão com 9 e 7 anos, respectivamente.

"Foi a primeira vez que a minha filha me viu combatendo racismo de frente. Ela ficou muito assustada", revelou Ewbank, emocionada. "O Bless não percebeu muita coisa, mas a Titi entendeu tudo. É muito cruel pensar que eles têm 9 e 7 anos e já têm que ser fortes, duas crianças! Que eles já precisam ser preparados pra combater o racismo; eles teriam que estar vivendo sem pensar em absolutamente nada", completou.

Gagliasso já falou anteriormente sobre a importância desse preparo, em entrevista ao podcast "Quem Pode, Pod", apresentado por Ewbank e Fernanda Paes Leme. Na ocasião, o pai defendeu que as conversas em casa precisam priorizar a informação: "Ensinando, mostrando e sendo verdadeiro. Quero meus filhos fortes, ensinando outras crianças brancas a defenderem as pretas".

Na entrevista ao "Fantástico", Giovanna ainda lamentou as mães pretas que são silenciadas frente a esse tipo de situação, que infelizmente, é cotidiana, reconhecendo novamente seu papel de privilégio na situação. "Como milhares de crianças são colocadas nessa situação todos os dias, no mundo, e as mães não têm voz pra gritar como eu pude gritar".


Bruno ainda se emocionou ao lembrar o momento de discussão sobre o caso, quando chegaram em casa. "O que é mais duro como pai e como mãe, foi chegar em casa, tomar banho e ter que conversar com eles sobre isso. Isso é o que mais mexe com a gente. Você já 'esfriou' a cabeça, e vai contar o porquê que isso aconteceu, isso é muito doloroso".

Ewbank e Gagliasso comentam privilégios na luta antirracista

Durante a entrevista, eles também relembraram o que aconteceu no último fim de semana. A família teria sido atacada por uma mulher, que teria dito aos funcionários do bar onde estavam para “tirar aqueles pretos imundos do local”. Gio reagiu prontamente à agressora, enquanto Bruno chamou a polícia para fazer a denúncia formal do caso.

O casal desabafou sobre o ocorrido, comentou suas reações e reconheceu como seu privilégio, de classe e cor, impacta em sua luta antirracista.

"Ela nunca esperava que uma mulher branca fosse combatê-la como eu fui", destacou Gio. "Eu sei que como mulher branca indo confrontá-la, a minha fala vai ser validada. Eu não vou sair como maluca, raivosa, como acontece com tantas outras mães pretas que são leoas todos os dias, assim como eu fui nesse episódio", desabafou.

Segundo Gio refletiu, quando mulheres pretas têm reações parecidas com a sua, a força da opressão racial transforma seus agressores em vítimas. Ewbank questionou como seria a situação se fossem uma família inteiramente preta: "Será que a polícia iria levá-la? Será que teria tido essa atenção toda?", infelizmente, reconhecendo que nesse caso, o desfecho seria muito diferente.

"É importante a gente entender que o papel do branco privilegiado não é debater o racismo, é combater o racismo."


Gagliasso destacou esse ponto: é importante não confundir a reação da vítima com uma agressão. "O que a gente fez foi uma reação à uma agressão da criminosa, não nossa". Por fim, o ator ressaltou o papel de pessoas brancas nessa luta, que é de toda a sociedade. "Eu preciso botar a cara a tapa, denunciar. A gente não pode silenciar, a gente tem que falar, que lutar, tem que reagir", afirmou.

Confira o comunicado da assessoria de Gio e Bruno sobre o ataque racista, que explica a ocorrência. Além de Titi e Bless, uma família de turistas angolanos também foi vítima de racismo no local.

Luta antirracista

O caso se tornou tema principal também do programa "Encontro" desta segunda (1º), trazendo um debate sobre a importância da luta antirracista no cotidiano. Casos como o de Giovanna e Bruno, que repercutiu até na mídia internacional, acontecem todos os dias, mas são invisibilizados por ocorrerem fora dos holofotes.

A empresária e ativista Ana Paula Xongani, uma das convidadas do programa, fez reflexões importantes sobre o ocorrido, também comentando a questão dos diferentes pesos atribuídos à reação de mulheres brancas e pretas quando presenciam casos de racismo. "Tem vezes que a gente quer reagir ao racismo em silêncio, tem vezes que a gente quer gritar, reagir. A reação precisa ser adequada e uma forma de acolhimento pra quem é vítima (...). As mães pretas, que são leoas todos os dias e que reagem como a Giovanna, são vistas como agressivas", pontuou.


"O racismo não escolhe hora pra te atingir, e muitas vezes, emocionalmente, a gente não tá preparado", reflete a empresária. Xongani ainda ressalta a dor das crianças, que como Titi e Bless, tem que enfrentar esse tipo de violência tão cedo na vida. "As crianças pretas têm que enfrentar o racismo desde muito cedo. O racismo é cotidiano, e o que a gente faz nesse pós? A gente transforma em fortalecimento pras nossas crianças. Pra além de falar como eles devem reagir, a gente precisa fortalecer", disse a empresária.

O repórter e apresentador Manoel Soares também endereçou a questão, compartilhando sua experiência familiar. "É muito complicado quando você tem que ensinar o seu filho, de 7 a 8 anos, a fazer o cálculo do racismo: como reagir se for parado pela polícia, se for seguido no shopping". Ele explicou que o próprio filho não pode dirigir o seu carro, um artigo de luxo, pois seria parado e questionado sobre a posse do veículo justamente por sua cor. "Um corpo negro é um objeto de presunção de culpa. (...) A luta racial não é uma luta dos negros, é uma luta de toda a sociedade", destacou.

O que fazer ao presenciar racismo?

Uma questão levantada com frequência quando casos de racismo repercutem na mídia é como ajudar ou o que fazer ao presenciar um caso de racismo. Em meio à discussão no "Encontro", os convidados dissertaram sobre a questão levantando pontos essenciais:


  • Faça provas do crime. Com a facilidade dos smartphones e dispositivos móveis, grave um vídeo da situação expondo o ocorrido. Ele certamente será vital na denúncia formal de racismo ou injúria racial;
  • Pegue contatos de testemunhas, seja por e-mail ou telefone, para poder entrar em contato com elas ao formalizar uma denúncia. Os depoimentos serão importantes para validar o crime e garantir que criminosos sejam punidos;
  • A denúncia é a principal parte. Se o crime estiver acontecendo no exato momento, a vítima pode chamar a Polícia Militar por meio do Disque 190, para prisão em flagrante. Se o crime já ocorreu, procure a autoridade policial mais próxima e registre a ocorrência, oferecendo o máximo de detalhes sobre o caso, contatos de testemunhas e incluindo na queixa se deseja que o agressor seja processado;
  • Por último, mas não menos importante: é preciso garantir o acolhimento às vítimas. Se você presenciar um caso de racismo, busque um espaço seguro para a pessoa, ofereça todo o apoio necessário e fique presente em meio à denúncia. Se você for a vítima, entre em contato com pessoas de confiança e explique o ocorrido, bem como busque o apoio das autoridades locais.

É possível registrar a queixa em delegacias comuns ou especializadas de sua região, como a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), localizada no Centro de São Paulo. Quando o crime atingir uma coletividade de pessoas e grupos, é possível procurar o Ministério Público e fazer uma denúncia.

Segundo informações do jornal português Público, a agressora no caso da família Ewbank Gagliasso é reincidente em crimes de racismo. Porém, a mulher teria sido liberada logo após sua detenção. Giovanna e Bruno prestarão depoimento na delegacia portuguesa sobre a ocorrência.

Combate ao racismo

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