Estupro de guerra: o que acontece com mulheres em zonas de conflito, como Aleppo?

por | dez 23, 2016 | Empoderamento

De acordo com a WHO (World Health Organization), ONG global de acesso à saúde, o conflito na Síria é a maior crise humanitária da atualidade. São mais de 13 milhões de pessoas precisando de ajuda.

Na última semana, com o acirramento do conflito na cidade de Aleppo, segunda maior do país, dois episódios supostamente ocorridos na região comoveram o mundo e ganharam o noticiário brasileiro. Eles surgiram a partir do anúncio da retomada de parte do território da cidade, que até então estava invadida por forças rebeldes, pelo exército da Síria e pelas forças russas, apoiadores do regime.

Os mais divulgados foram a carta de despedida de uma enfermeira não identificada, explicando que iria cometer suicídio porque não queria ser estuprada pelos soldados do exército sírio, e o suposto pedido de autorização feito por homens a líderes religiosos para matar as próprias esposas, filhas e irmãs antes que elas fossem estupradas e mortas pelas forças sírias e russas.

O caso ganhou repercussão mundial e comoveu milhares de pessoas, que se solidarizaram com a delicada situação da população do país. Não foi possível, no entanto, checar a veracidade das narrativas.

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À revista Marie Claire, uma jornalista que cobre o conflito em Aleppo (e que preferiu não ser identificada) negou os boatos que diziam que mulheres estavam cometendo suicídio por medo de serem estupradas pelas forças do exército do regime de Bashar al-Assad, da milícia libanesa do Hezzbolah ou do Irã. “Não acredito nisso nem por um minuto. Nunca vi nenhuma evidência confiável disso. Sei que as pessoas publicaram essa notícia, mas por enquanto são só boatos”, disse em entrevista exclusiva.

Depois do episódio, a fotojornalista britânica Vanessa Beeley, que cobre conflitos, publicou em seu Facebook fotos de crianças em Aleppo saindo da região ocupada e recebendo comida e abrigo após a tomada da cidade pelo exército sírio. Na publicação, a profissional disse que todas estão muito traumatizadas, mas nenhuma foi atacada pelo exército sírio ou forças russas.

Images from Jibreen, East #Aleppo registration centre for Syrian civilians recently liberated from NATO and Gulf…

Publicado por Vanessa Beeley em Quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A jornalista Mariana Terra, em um artigo no Ópera Mundi, site brasileiro de notícias internacionais, abordou o assunto ressaltando a importância de, em temas complexos como esses, questionar as informações que chegam e buscar fontes com diversos posicionamentos. Isto porque, segundo o material, muitas dessas notícias sem confirmação têm a intenção de chocar. Para mostrar isso, a jornalista remontou outras situações semelhantes, como casos na Líbia, em 2011, no Iraque, em 2003, e no Kuwait, em 1990 – todos negados posteriormente.

O que está acontecendo em Aleppo? 

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A crise no Oriente Médio é complexa e envolve diferentes interesses econômicos, especialmente de grandes potências como os Estados Unidos e a Rússia.

O conflito armado em Aleppo começou depois do início das manifestações de civis em 2011. Parte da cidade foi tomada por grupos rebeldes que se posicionavam contra o governo de Bashar al-Assad, muito criticado por infringir os direitos humanos e a liberdade no país.

Catar, Arábia Saudita, Turquia e os Estados Unidos estão entre os financiadores da maioria desses grupos rebeldes que, além de Aleppo, dominam outras áreas do país (e cidades de outros países do Oriente). Já ao lado do governo da Síria, está a Rússia.

A cidade ficou tomada até 2016, quando o exército de Assad anunciou que teria ajuda das forças russas para retomar o território. Foi neste momento que teve início um novo conflito.

Não é possível precisar, no entanto, se o período anterior era melhor ou não. Relatos de civis mostram que faltavam alimentos e itens básicos de cuidado com a saúde, e que o tratamento dos rebeldes era violento e também infringia direitos humanos e a liberdade. Já outros dizem que não fosse a retomada por parte do exército sírio, muitas pessoas estariam vivas. A história é cheia de inconsistências e contradições e, por ser envolta por grandes interesses econômicos, é difícil de ser apurada com precisão.

Estupro de guerra

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Independente da veracidade destas específicas narrativas, é fato, no entanto, que as mulheres em zona de conflito ou refugiadas estão em uma situação de extrema vulnerabilidade e, por isso, sofrem muito.

Em cenários como estes descritos em Aleppo, que se tornaram mundialmente conhecidos, mulheres são usadas como objeto para aterrorizar e humilhar os inimigos.

E os episódios da Síria não são os primeiros casos. Pelo contrário, registros de estupros de guerra existem até nas passagens históricas da Bíblia.

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No Brasil, por exemplo, com a invasão portuguesa, muitas mulheres indígenas foram estupradas. Os casos de estupros das mulheres alemãs pelos soldados soviéticos registrados pelo oficial soviético judeu Vladimir Gelfand, na Segunda Guerra Mundial, é outro exemplo.

E eles não param. Ainda na Segunda Guerra Mundial, mulheres de países inimigos, especialmente coreanas e chinesas, eram sequestradas e forçadas e se prostituírem nos quartéis japoneses como “mulheres de conforto”. Na cidade de Nanquim, na China, centenas de mulheres foram estupradas e mortas de uma vez pelo exército japonês no episódio conhecido como “Massacre de Nanquim”.

Já na Alemanha nazista, como a lei proibia a relação sexual entre arianos e judeus, quando um soldado estuprava uma mulher judia, ela a matava para não enfrentar problemas com seus superiores. A situação degradante se repetia nos campos de concentração, onde o estupro era ainda mais comum em troca de “benefícios”, como um pedaço de pão.

Nas guerras do Oriente Médio, muitas mulheres e crianças ainda são mortas ou sequestradas por grupos rebeldes para atingir seus inimigos. E os casos se repetiram em Bangladesh, República Democrática do Congo, Ruanda e Darfur, dentre muitos outros.

Alerta internacional

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A situação não é novidade para nenhuma instituição que analisa os contextos internacionais. De acordo com relatório publicado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), recentemente, mulheres e meninas que migraram do Oriente Médio para a Europa foram obrigadas a fazer sexo como “pagamento” pela entrada no continente.

A Agência, junto com Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) e Comissão para Mulheres Refugiadas (WRC), alertou que mulheres e crianças enfrentam graves riscos de violência sexual e de gênero e são necessárias medidas adicionais, eficientes e permanentes de proteção para este grupo.

Isto porque, além de sofrerem em seus países de origem com os conflitos, elas ainda passam por situações dramáticas quando consegue sair deles, nos centros de acolhimento. Além disso, quando começam a se estabilizar, devido à precária condição financeira, se alojam em locais insalubres e pouco seguros, morando muitas vezes com muitas pessoas, a maioria desconhecidas e, mais uma vez, ficam vulneráveis à violência de gênero e sexual.

Por que as mulheres?

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A violência sexual durante a guerra tem diversos motivos, explica Françoise Duroch, especialista em conflitos da ONG Médicos Sem Fronteiras. “O estupro pode ser usado como uma arma, o que significa que pode ele pode ser realizado segundo uma lógica militar e para fins políticos. Ele pode ser usado como uma recompensa a um soldado ou para remunerá-los; pode ser usado para motivar as tropas e pode ser utilizado como meio de tortura – às vezes para humilhar os homens em determinada comunidade. O estupro sistemático pode ser usado para forçar uma população a mudar de lugar e até como uma arma biológica, com o intuito de transmitir deliberadamente o vírus HIV/Aids. Isso sem contar o fenômeno de exploração sexual, prostituição forçada e escravização sexual”, comentou durante a Conferência Global sobre a Violência Sexual em Zonas de Conflito Armado, de 2014.

“A violência sexual não tem a ver com sexo, mas com poder”, afirma Rochelle Saidel, pesquisadora americana do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da Universidade de São Paulo e autora do livro “Sexual violence against Jewish women during the Holocaust” (Violência sexual contra mulheres judias durante o Holocausto), em uma entrevista à revista Época.

Para ela, os efeitos da violência sexual na guerra são duradouros. Além dos indescritíveis danos psicológicos, a mulher ainda corre o risco de engravidar e pegar uma doença. E seus descendentes também sofrem.

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