Cozinha: lugar de criança! > Cultura alimentar

Camila destaca também a importância dos valores comportamentais que a experiência oferece. “Nossos avôs, por exemplo, na sua maioria, mal sabem fritar um ovo. São de uma geração em que a presença do homem na cozinha não se permitia, era a mulher quem provia, era responsável por isso e criava-se essa dependência. Falo por experiência própria: o meu ficou viúvo há pouco tempo e só agora, com 75 anos, passou um café pela primeira vez na vida”, comenta, ressaltando a naturalidade desse processo culinário mais democrático e sem preconceitos como uma conseqüência dos novos valores familiares.

Elas conhecem ingredientes que, de repente, em casa, não se usavam. Se permitem a experimentar coisas diferentes.

A escola também é um espaço possibilitador dessa vivência, como acontece na Edem, no Rio de Janeiro. As crianças do horário extensivo têm, entre diversas outras atividades, brincadeiras pra lá de educativas e divertidas na cozinha, como explica Maria Lúcia Pinto Lopes, assessora pedagógica da escola. “É positivo em infinitos aspectos. Começando por associar a escola como uma certa extensão da casa. E também por complementar ações do horário curricular normal, a cozinha vira um lugar onde a criança adquire cultura em diversos sentidos”, comenta ela.

Isso porque, no dia da culinária, sob a supervisão de uma equipe que conta com nutricionista e professores, são as próprias crianças que decidem o que vão preparar, fazem a lista de compras e saem para a feira e o supermercado. “É muito interessante porque há uma troca muito positiva para a cultura alimentar. Elas conhecem ingredientes que, de repente, em casa, não se usavam. Se permitem a experimentar coisas diferentes”, conta Maria Lúcia. A equipe também auxilia as crianças a medir a quantidade que comem e a dosar sal e açúcar em níveis saudáveis, por exemplo.

Maria Lúcia relembra um fato curioso e muito ilustrativo do aspecto cultural da experiência. Era dia de preparar uma farofa e uma criança vinda do Piauí chiou: “Só gosto da farofa lá de casa”. Resultado: a cozinheira da família foi à escola preparar a tal farofa e acabou apresentando às crianças e aos adultos um prato diferente, preparado à moda de outra cultura. “Isso é o máximo, torna a coisa uma imensa reunião educativa e divertida. E elas levam receitas para casa. Outro dia, ia-se preparar uma macarronada na casa de uma delas e a criança interveio: por que não fazemos de outra forma, que aprendi na escola?”, acrescenta a pedagoga.

O poder da culinária de colocar a criança num papel de protagonização também é outro fator de enorme valor. Fora que, com tudo isso, elas aprendem a comer melhor. “Você sabe que um dos pratos que elas mais gostam de preparar é salada? Acham bonito colorido, gostam daquela mistura”, complementa. Se relacionar bem com a cozinha e a comida desde cedo é garantia de saúde para o corpo e para a mente.