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Após caso Henry, web alerta sobre sinais de violência infantil: especialistas dizem quais são

Publicado 13 Abr 2021 – 05:33 PM EDT | Atualizado 14 Abr 2021 – 10:40 AM EDT
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Devido ao triste caso do menino Henry Borel, de quatro anos, que foi levado pela mãe e o padrasto já sem vida ao hospital no início de março, a violência doméstica contra crianças tem sido algo muito discutido. Em meio à suspeita de que o padrasto do garoto teria batido nele até a morte após já agredi-lo há semanas, internautas estão exaltando a necessidade de prestar atenção nos sinais que a criança dá em situações assim – e, segundo especialistas, eles são diversos.

Caso Henry: web alerta para sinais de agressão em crianças

No dia 8 de março, Monique Medeiros e o marido, o vereador carioca conhecido como Dr. Jairinho (sem partido), levaram o pequeno Henry Borel a um hospital na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro) já sem vida, alegando que o menino havia caído da cama em casa. De acordo com informações do “G1”, porém, a polícia garante que esta justificativa não procede – e, atualmente, as autoridades trabalham com a hipótese de homicídio, possivelmente por parte do padrasto.

Ao veículo, investigadores confirmaram ter indícios de que as agressões de Dr. Jairinho contra Henry eram frequentes, e relatos da mãe e do pai do garoto mostram que, nos meses que antecedem a morte de Henry, ele já vinha apresentando comportamentos de repulsa com relação ao padrasto, bem como sinais físicos de maus-tratos (como falta de vontade de ficar em casa com o homem e dores no joelho). Em conversas online, a babá do garoto chegou a narrar à Monique uma agressão do padrasto contra ele.

Conforme mais pistas de que a violência contra Henry era constante seguem surgindo, teve início uma discussão nas redes sociais sobre os indícios que crianças dão ao passar por situações assim. Principalmente no Twitter, internautas fizeram um apelo para que adultos não ignorem relatos ou atitudes incomuns por parte das crianças próximas, lembrando que, por vezes, a atitude delas é vista imediatamente como algo normal ou como “frescura”:

Fazendo coro ao alerta, especialistas reforçam a existência destes sinais, enfatizando a importância de sempre observar o comportamento do filho para captar qualquer mudança. Segundo a psicóloga Alessandra Augusto, especializada em terapia cognitiva comportamental e neuropsicopedagogia, crianças que sofrem agressões podem subitamente apresentar mudanças de humor e práticas negativas de forma geral.

“Essa criança vai ficar muito mais calada, introspectiva, não vai querer brincar e pode se recusar a ir à escola. No caso de pais separados, ela pode se recusar a estar na presença de um dos responsáveis – geralmente aquele que pratica as agressões. Já se acontece na escola, ela se sente incapaz e impotente lá, então isso vai refletir em casa. Ela vai ficar mais agressiva com pais, irmãos. Quando a agressão é em casa e ela se sente impotente nela, vai refletir na escola, ficando mais agressiva lá”, comenta.

Além destes sinais comportamentais, a psicopedagoga Luciana Brites, CEO do Instituto Neurosaber, afirma que também podem aparecer questões fisiológicas. “A criança reclama sempre que está com dor de cabeça, de barriga. Apresenta mudança de apetite, alteração de sono. Às vezes, comportamentos que ela não tinha mais podem voltar, como o de fazer xixi na cama. Acontece muito: sempre que vai para a escola, dá dor de barriga, ânsia, ela vomita, tem febre... É como se criasse isso para se proteger”, pontua.

Ambas as profissionais, porém, apontam a necessidade de diferenciar uma mudança de comportamento – ou seja, o surgimento repentino ou gradual de hábitos incomuns – da própria personalidade da criança. “Tem crianças que têm um temperamento mais pacato, são mais calminhas, tímidas. Elas vão apresentar no comportamento isso de não querer cumprimentar, por exemplo. Temperamento é intrínseco – a criança nasce assim”, afirma Alessandra, pontuando a diferença.

“É diferente quando há uma mudança de comportamento na presença de alguma pessoa ou de estranhos. Isso é um sinal. Se eu tenho uma criança que sempre foi mais quietinha, gosta de brincar sozinha no cantinho dela, é um comportamento esperado. Agora, se eu tenho uma criança que não tem esse comportamento, e ela se apresenta sem querer falar, sem querer cumprimentar, se recusando a algumas coisas e eu não reconheço esse comportamento, isso precisa ser observado”, explica a especialista.

Além disso, ambas enfatizam a importância de se ter uma escuta ativa com a criança. Em certas idades, sentir medo do abandono ao ir para a escola ou fazer birra com determinadas pessoas é comum – mas, em todo caso, é importante observar o contexto e, acima de tudo, não invalidar a fala da criança. “Ela precisa ser ouvida. É birra? É pirraça? Houve algum mal entendido? É importante entender, e não só entregar a criança chorando, pegar a criança chorando, devolver chorando... Vamos tentar entender”, aconselha Alessandra.

O que fazer ao notar os sinais?

Segundo Alessandra e Luciana, a conduta dos guardiões da criança ou responsáveis por elas (como professores e inspetores na escola) depende do contexto. Se a criança estiver subitamente se recusando a ir à escola e se comportando de forma agressiva em casa, por exemplo, Alessandra aconselha conversar com ela, bem como com a direção do colégio para saber se algo diferente está acontecendo por lá. “Se houver uma incapacidade de clareza nesse discurso, busque um profissional”, aconselha ela.

Caso o comportamento seja notado por funcionários da escola, Alessandra também sugere uma conversa com a criança. “Cabe a estas pessoas chamar a criança, se aproximando, tentando perguntar”, afirma, lembrando que há grandes possibilidades de a criança não querer falar, muitas vezes por medo ou por vergonha. Caso haja dificuldades na comunicação, ela volta a aconselhar a busca de um profissional, como o corpo pedagógico da escola caso haja um.

Segundo Luciana, uma forma interessante de fazer a criança se expressar melhor e se sentir mais impelida a falar é inventar uma história com base na suposição do que estaria acontecendo. “É importante os pais sempre estarem perguntando ou contando histórias, como: ‘Olha, conheci uma menina que estava passando por problemas na escola’... Contar algo que remete à questão do bullying ou do abuso para ver o que ela fala”, diz a psicopedagoga, ressaltando a importância de consultar também pais de colegas do filho sobre as próprias crianças.

Aqui, as especialistas voltam a frisar a importância de levar os relatos da criança a sério e tentar investigar se aquilo é um mal-entendido ou uma situação real. “Não posso negligenciar a fala da criança. Ela pode estar passando por um momento de fantasia, aumentando um fato aqui e outro ali, mas eu preciso considerar essa fala”, afirma Alessandra. Uma vez confirmada a hipótese ou o relato, é importante que os guardiões acionem as autoridades e busquem atendimento psicológico para a criança.

Segundo o Ministério da Educação (MEC), suspeitas de abuso infantil levantadas pela escola devem ser seguidas por uma avaliação do quão prudente é comunicar os guardiões da criança. Caso pessoas que vivem com ela sejam apontadas como agressores, a escola pode fazer uma abordagem estratégica, buscando familiares confiáveis (que podem, inclusive, ser apontados pela própria criança). Aqui, porém, é importante acolher a criança, frisar a intenção de ajudá-la e explicar o que vai acontecer.

Se a família não puder ou não quiser assumir a responsabilidade por fazer a denúncia, a escola tem obrigação legal de fazê-lo, comunicando então as suspeitas ao Conselho Tutelar.

Atenção e prevenção

Segundo Alessandra, apesar de ser impossível vetar toda possibilidade da criança sofrer um abuso, é essencial prestar o máximo de atenção nelas. Em casos de pais separados, por exemplo, ela aconselha que se estabeleça convívio e comunicação com um possível novo integrante da família – seja ele um padrasto ou uma madrasta. “O responsável precisa redobrar a atenção, precisa conhecer o companheiro desse ex, saber se a criança fica sozinha, que intimidade ela tem com a pessoa, qual é o clima da casa”, afirma.

Ela enfatiza ainda que, a não ser que seja uma situação de extrema necessidade, é prudente evitar de deixar a criança com uma pessoa não tão próxima. “Principalmente se for uma criança que ainda não fala. Deve-se evitar ao máximo deixa-la em companhia de tios, primos, vizinhos”, aconselha a psicóloga, lembrando também que, caso a criança fique sob a responsabilidade de terceiros enquanto os pais trabalham, é importantíssimo observar a relação ao máximo.

“Ao retornar do trabalho, é preciso observar o comportamento do filho. Tudo passa pela observação e orientação da pessoa que está sob responsabilidade da criança. Precisa ter esse feedback entre o cuidador e o responsável”, afirma. Além disso, ela enfatiza também a necessidade de orientar a própria criança sobre os contatos que ela pode ou não aceitar – e quem pode ter certos tipos de intimidade com ela.

Para Alessandra, muitas vezes beijos e abraços são parte da cultura familiar, mas a criança não deve ser forçada a fazer isso caso não queira. “Se eu oriento meu filho a abraçar a todos, ele vai abraçar. Se eu oriento a apertar a mão, é isso que ele vai reproduzir. Dependendo da idade, a criança não faz distinção de: ‘Que tio eu posso abraçar?’, ‘que tia pode me apertar?’. O interessante é os pais acompanharem a criança nessas horas. Se eu tenho um amigo, amigo da família, que frequenta a casa, eu vou incentivar meu filho a ser educado, porém não tão íntimo”, conclui.

Violência doméstica

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