Notícias 30 de junho, 2016 Por admin

O preço da beleza

Cada vez mais participativa no mercado de trabalho, a mulher vem conquistando uma liberdade nunca antes imaginada. Após séculos escondidas sob a sombra dos homens, nós vencemos e hoje ocupamos cargos de chefia e exibimos contas bancárias de dar inveja em muito machão. Mas se, como diz o ditado, dinheiro na mão é vendaval, basta juntar a liberdade de escolha ao dinheiro no bolso, para o caos se instalar. Vaidosas por natureza, não conseguimos passar na frente de uma vitrine sem ao menos dar uma olhadinha, ou sair de casa sem carregar, a tiracolo, uma bolsa recheada de produtos capazes de dar uma repaginada no visual ao longo do dia. Batom, base, gloss, rímel: um a um, eles vão preenchendo nossas bolsas, e sem percebermos, pesando no bolso. No fim do mês, o cuidado com a beleza pode sair bem mais caro do que imaginamos.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o setor de produção, promoção e comercialização de produtos destinados aos cuidados pessoais apresentou um crescimento em seu faturamento de 98% nos últimos quatro anos. Dentre os fatores que mais contribuíram para este crescimento, destaca-se a crescente participação da mulher no mercado do trabalho. Mas se a renda delas é cada vez mais expressiva, também é o descontrole com que gastam este dinheiro. Tudo em prol da beleza, e de uma auto-estima um pouco mais alta.

Consumidoras ávidas, estão sempre a par dos lançamentos do mercado e não medem esforços na hora de seguir as recomendações dos dermatologistas. Uma receita médica um pouquinho mais exigente pode incluir cosméticos que ultrapassam facilmente o valor de um salário mínimo, mas nem por isso espantam a mulherada. A Target Marketing, empresa especializada em pesquisa de mercado, estima que as brasileiras consumirão este ano mais de R$ 80 milhões em perfumes, cremes para a pele, bronzeadores, maquiagem, sabonetes, produtos para o cabelo e esmaltes. Acredite ou não, é quase o dobro do que movimenta a indústria de vestuário e calçados. Mas se por um lado este mercado em franca expansão tem gerado empregos, por outro leva muitas à falência.

Quando lançou o site Mulherinvest, a consultora Sandra Blanco tinha a intenção de ajudar mulheres na escolha de seus investimentos. “Foi quando percebi, por não conseguirem economizar, muitas delas não tinham sequer dinheiro para investir”, recorda Sandra, que hoje prioriza a educação financeira nas novas clientes. “Antes de pensar em construir um patrimônio, você precisa definir como gastará o seu dinheiro”, ensina a autora do livro “Mulher inteligente valoriza o dinheiro”. Com dez anos de experiência no mercado financeiro, Sandra avalia: “As mulheres gastam muito com beleza e, independentemente da classe social, todas destinam um percentual significativo de sua renda a tratamentos estéticos. Não tem jeito, faz parte da nossa feminilidade”.

Líder em cirurgias plásticas por número de habitantes, o Brasil realizou, apenas em 2003, 350 mil cirurgias, e é o segundo em aplicações de toxina botulínica. Estes números são apenas pequenas demonstrações da vaidade de um povo que assistiu, em 2002, a indústria de seu país sofrer uma queda de 1,5% enquanto o mercado de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos atingia um crescimento de mais de 7%, movimentando R$ 9,6 bilhões. Como prova a agenda lotada de Wanderley Nunes, o profissional responsável pela cabeleira da modelo Gisele Bündchen em suas visitas ao país, não há crise que abale o mercado de beleza. Um corte com o cabeleireiro sai a nada menos que R$ 300.

Mesmo em se tratando de valores astronômicos, há quem não se incomode com a quantidade de zeros na hora de assinar o cheque. A médica Ana Lúcia Aguiar é uma delas, e enumera os cuidados mensais com a aparência: “Tintura, limpeza de pele, dermatologista, depilação duas vezes ao mês, hidratação, sobrancelha, academia e agora endermologia e drenagem linfática, que vou alternando”. Ufa! E esses são apenas os custos fixos. “Os cremes e maquiagens são bem caros, mas duram bastante. Alguns passam de R$ 200, mas não deixo de comprar de jeito nenhum”, afirma, com orgulho. Com uma ideologia nada convencional, Ana Lúcia explica como encara seus gastos. “Nunca calculei meu custo mensal, não sou de fazer contas, e não tenho investimentos. Se em um mês eu quiser gastar mais, trabalho mais. Não abro mão do meu lazer e do meu bem-estar. Guardar para quê? Sou igual a índio: produzo e como”, diverte-se.

Recentemente, Ana Lúcia gastou R$ 1.200 para deixar o cabelo mais comprido e colocar um Mega Hair. “Gastei feliz! Estava com o cabelo curto e horroroso, e louca para deixar crescer. Fiz um sacrifício, mas dividi em três vezes. Sempre quis ter o cabelo comprido, mas desde que me entendo por gente, sempre tive o cabelo batendo no ombro, ralinho e sem volume”, conta Ana Lúcia, que admite estar no vermelho, e não se arrepende da forma como gasta o dinheiro. A consultora Sandra Blanco atenta para o fato de que sem construir um futuro, não há creme que livre nossos rostos das rugas de preocupação. “Se você cuida da beleza, mas descuida do futuro financeiro, está se enforcando. É claro que é necessário ter uma boa apresentação para o mercado de trabalho e para a sociedade, mas há mulheres que, por vaidade, gastam todo o salário e ainda entram no cheque especial”, conta. E avalia: “Beleza não é investimento. Sou contra manter uma aparência acima das suas possibilidades financeiras, e atualmente é possível encontrar linhas de cosméticos ao alcance de todos”, justifica.

Apesar de não poupar esforços na hora de cuidar do visual, a designer Rose Cruz, 29 anos, é uma que tenta manter seus gastos sob controle. “Meu cabelo demanda muitos cuidados. Mas, para economizar, tenho em casa escovas profissionais, secador e chapinha, e faço, por conta própria, quinzenalmente, hidratação”. Mesmo com tanto esforço, a trabalheira não é suficiente. “Meus cabelos são secos e crespos, por isso a cada dois meses faço relaxamento na raiz, e a cada quatro, escova progressiva. Além disso, no dia-a-dia, utilizo produtos que ajudam a manter os fios lisos e hidratados, como cremes de massagem hidratantes, xampus, condicionadores, finalizadores e silicone para pontas, todos específicos para o meu tipo de cabelo”, complementa Rose, que calcula gastar mensalmente, apenas com seu cabelo, R$ 150. Apesar do valor não ser baixo, Rose está satisfeita com o emprego do dinheiro. “Minha auto-estima agradece. De que adiantaria guardar e me sentir insegura em relação à minha aparência?”, questiona. “Já deixei de fazer as unhas por estar dura, e me senti péssima. Não consigo ficar desleixada. A gente se acostuma a querer estar bem, e se tenho que escolher entre comprar uma roupa e ficar com o cabelo e unhas lindas, fico com a segunda opção”, afirma categórica.

Economizar pode parecer uma missão impossível para as menos controladas, mas significa ter dinheiro mais tarde. A melhor medida é sempre o equilíbrio, e a liberdade de escolha que um investimento proporciona é muito mais agradável do que o prazer momentâneo de uma compra, mesmo que seja aquele vestidinho maravilhoso que você acabou de ver no catálogo de verão da sua loja predileta.

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