Empoderamento 11 de maio, 2026 Por Fernanda Labate

Ela estava na “carreira perfeita”, mas largou tudo após encontrar o destino em um anúncio de jornal

Ana Flávia de Sá

“Aquilo que parece um desvio revela ser o verdadeiro caminho”, diz Ana Flávia de Sá, que construiu uma carreira cheia de propósito após um voluntariado em Moçambique

Ana Flávia de Sá tinha uma “vida adulta” vista como ideal: emprego sólido, perspectiva de crescimento e uma carreira caminhando como planejado. Ainda assim, algo a incomodava – e a resolução viria de um quadradinho perdido na página de um jornal impresso. Trinta dias após ver o anúncio de “procura-se voluntários para a África”, ela já havia pedido demissão e embarcado – e, ao voltar (catorze meses depois), soube pela primeira vez na vida o real motivo de estar aqui.

Hoje, Ana Flávia é superintendente da Fundação Otacílio Coser, instituição sem fins lucrativos com 26 anos de história dedicada a ampliar oportunidades para jovens em situação de vulnerabilidade social, desde a educação básica até o trabalho. E a trajetória que a trouxe até o cenário atual não foi linear – mas sim, segundo as palavras dela, feita “de escolhas, com os ônus e bônus que vêm com elas”.

Ana Flávia de Sá: da carreira consolidada ao acaso e o propósito

Ana Flávia de Sá
(Crédito: Arquivo Pessoal)

Caçula de quatro filhos, Ana Flávia cresceu em Bauru, no interior de São Paulo, filha de pai e mãe que atuavam como funcionários públicos no setor de segurança. Em casa, educação não era uma escolha, mas sim um mandamento. “Estudar para trabalhar e construir uma vida com estabilidade era o caminho natural”, lembra ela, que seguiu o roteiro com dedicação.

Para iniciar a carreira, Ana Flávia cursou Comunicação Social na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), estagiou na Kodak, foi contratada e virou key account manager. Com isso, cinco anos depois, sua carreira parecia estar exatamente onde deveria estar… Mas só parecia.

Isso porque, mesmo vivendo no “mundo ideal” para o qual se preparou a vida inteira, ela sentia um incômodo que ainda não conseguia nomear. “No final do dia, o objetivo era sempre o mesmo: gerar lucro para os acionistas. Eu entendia a importância disso: geração de riqueza, empregos, desenvolvimento. Mas sentia falta de um sentido maior. Eu sabia, no fundo, que continuar naquele caminho só ia adiar uma decisão necessária”, disse ela, que cruzou com o próprio destino em uma página de jornal.

Propósito nas páginas do jornal e voluntariado que fez a pergunta certa

(Crédito: Arquivo Pessoal)

A resposta para esse incômodo veio na forma de um pequeno anúncio em um jornal impresso que dizia “volunteers wanted to Africa” (“precisa-se de voluntários na África”). “Algo dentro de mim despertou”, lembra Ana Flávia, que entrou em contato, pediu demissão e embarcou em menos de 30 dias – sem garantias e sem “plano B”.

“Não sei se chamo isso de coragem, talvez seja uma teimosia muito bem disfarçada. Ou a convicção de que ficar parada dói mais do que errar em movimento”, reflete ela, que passou os catorze meses seguintes encarando as respostas para suas dúvidas.

O programa tinha três etapas: seis meses nos Estados Unidos aprendendo a captar recursos para organizações sociais, seis meses em Moçambique em um abrigo que atendia mais de 50 jovens e dois meses em Botsuana. E foi nessa segunda etapa que tudo mudou para Ana Flávia.

A ideia é que, em Moçambique, ela desse aulas de português, inglês e matemática. Lá, porém, ela encontrou algo que a inquietou de um jeito diferente: empresas multinacionais operando na região e gerando lucro, enquanto o abrigo em que ela trabalhava mal conseguia se sustentar. “Aquela realidade me provocou”, disse ela, que passou a fazer o que já sabia fazer – mas agora para uma realidade que tinha mais valor para ela.

Nesse contexto, ela começou a visitar as empresas locais, propor parcerias, negociar visitas, captar doações de produtos e, sem perceber, estava colocando em prática tudo o que havia aprendido na Kodak, mas a serviço de um projeto social. “Foi ali que eu senti, pela primeira vez, que meu trabalho fazia sentido de uma forma muito profunda. Nenhum outro momento me fez essa pergunta com tanta seriedade: ‘Para que, afinal, estou aqui?’”, declara.

Após esse ciclo de catorze meses, ela retornou ao Brasil renovada e com a sensação de ter descoberto no acaso um novo propósito.

Volta ao Brasil e nova carreira

Ana Flávia de Sá
(Crédito: Arquivo Pessoal)

De volta ao Brasil, Ana Flávia iniciou o que seria uma trajetória de mais de duas décadas no terceiro setor, passando por organizações com focos diferentes como Plan International, Instituto Sou da Paz, Childhood Brasil, United Way Brasil, Generation Brasil. Cada uma foi, nas palavras dela, “um espelho único”.

“Aprendi que programas internacionais só alcançam resultados concretos quando respeitam as especificidades locais. Compreendi que a violência tem raízes profundas e múltiplas causas. Reconheci a relevância da colaboração entre setores para proteger crianças e percebi que a mobilização de diferentes atores é fundamental para transformações sustentáveis”, diz ela.

O fio que conecta essas passagens tão diferentes, porém, é uma mesma conclusão. “Problemas sociais são complexos e demandam ações conjuntas sistêmicas, e as pessoas que trabalham na linha de frente dessas causas são, frequentemente, as mais invisíveis e as mais essenciais”, declara ela, que eventualmente inicou a atual trajetória na Fundação Otacílio Coser.

Fundação Otacílio Coser: onde juventude e propósito se encontram

Ana Flávia de Sá
(Crédito: Arquivo Pessoal)

Fundada em 1999 no Espírito Santo por Otacílio Coser, empresário capixaba à frente do Grupo Coimex, a Fundação Otacílio Coser atua para que jovens em situação de vulnerabilidade possam sonhar e planejar suas vidas com autonomia. O principal programa deles, o Escolaí, existe há 20 anos em parceria com secretarias estaduais e municipais de educação e já alcançou mais de 243 mil estudantes. E foi essa fundação que Ana Flávia passou a chamar de “casa”.

Ela assumiu a superintendência em 2026, e afirma que a nova missão ressoa fundo. “O que me move todos os dias é a clareza de que o que estamos fazendo tem consequência real na vida de alguém. Que a transformação é possível. E, quando quebramos o ciclo da pobreza de um jovem, mudamos não apenas a vida dele, mas de toda uma família e comunidade”, pontua.

Aqui, inclusive, ela contribui não só com a experiência de campo, mas com habilidades femininas. “Aprendi desde cedo a captar nuances, ler o ambiente, perceber o que está nas entrelinhas. Essa habilidade permite antecipar situações e ajustar o comportamento antes que conflitos surjam”, afirma.

Afinal, quando “virar a chave” na carreira?

Ana Flávia conhece muito bem a sensação de que tem algo faltando, afinal ela mesma já viveu essa situação. E, para mulheres, que chegaram longe no setor privado, mas sentem que algo está escapando das mãos, o conselho dela é, antes de tudo, um convite à reflexão.

“Quando esse sentimento se torna recorrente, é fundamental reservar um tempo para entender sua origem: pode ser a função, a cultura da empresa, as relações, ou um desalinhamento entre o que você busca e o que o ambiente oferece”, pontua a superintendente.

Além disso, ela lembra que a vida profissional é feita de ciclos, e que nem sempre a solução é uma ruptura radical. Aqui, segundo ela, às vezes bastam pequenas adaptações – mas, em certos casos, a “virada de chave” é inevitável. “Em alguns casos, pode ser necessário mudar de área, função, empresa ou até setor. Mas antes de qualquer decisão, procure ouvir outras mulheres que passaram por isso. Você não precisa atravessar esse percurso sozinha”, aconselha.

E, para quem teme que os capítulos da própria história não façam sentido, ela oferece uma perspectiva que só o tempo traz: “Aquilo que parece um desvio, muitas vezes revela ser o verdadeiro caminho”.

Mulheres inspiradores

COMPARTILHE: