“Transformar uma ideia em algo que realmente gere impacto exige muita resiliência”, diz Mariana Robrahn, cofundadora e presidente da Cabelegria
Em 2013, quando duas amigas decidiram doar os cabelos para pacientes oncológicos, Mariana Robrahn e Mylene Duarte não tinham nenhuma ideia do impacto que teriam um dia após perguntarem: “O que mais podemos fazer?”. Isso porque, após a doação, a dupla de amigas iniciou uma campanha que, hoje, é a Cabelegria, ONG que já ajudou milhares de pessoas com perucas durante o tratamento oncológico.
Conheça abaixo a trajetória delas e vivências que apenas quem sonha, arrisca e, de fato, pensa em trabalhar por um bem maior, tem:
Cabelegria: doação de amigas virou ONG

Em 2013, Mariana tinha 22 anos e Mylene tinha 20. Uma era designer e, a outra, publicitária. Nenhuma das duas tinha qualquer experiência administrando uma organização social e esse, inclusive, nunca foi o plano – mas se realizou como uma reação em cadeia após as duas amigas decidirem doar os cabelos para pacientes de câncer.
“Nós não começamos pensando em receber centenas de milhares de doações ou entregar milhares de perucas. Começamos pensando: ‘Vamos doar nosso cabelo e tentar convencer mais algumas pessoas a fazerem o mesmo’”, afirma Mariana, cuja campanha em parceria com a amiga viralizou e proporcionou o que é, hoje, a Cabelegria.
Fundada nesse mesmo ano, a Cabelegria visa devolver a autoestima de pacientes que perderam os cabelos em tratamentos de saúde, como o oncológico, ou por condições como a alopecia. Para isso, a ONG recebe doações de fios (que já somam mais de 460 mil até hoje), combina as mechas por cor, comprimento e textura, e as transforma, com a ajuda de costureiras, em perucas entregues gratuitamente pelo Brasil.
A ideia começou quando o volume de cabelos recebidos pela dupla começou a impressioná-las, gerando uma série de perguntas. “Se estamos recebendo tanto cabelo, por que não produzir as perucas? Se estamos produzindo, por que não entregar diretamente? Como fazemos para chegar a mais pacientes?”, lembra.

Cada resposta, então, virou uma nova frente: o atendimento, que a princípio focava em crianças, foi ampliado. A ONG criou o Banco de Perucas Móvel (veículo itinerante), ações em empresas e hospitais, projetos de acolhimento, formação profissional e, mais recentemente, de atendimento psicológico e social. As ações itinerantes, aliás, já somam mais de 55 mil quilômetros percorridos pelo Brasil, segundo a ONG.
Assim, a Cabelegria não nasceu de um plano, mas sim de um projeto que começou a tomar vida própria a partir das necessidades que apareceram pelo caminho. Atualmente, a ONG produz as perucas contratando costureiras que são remuneradas por itens produzidos, e cada peça pode reunir fios de três a seis pessoas que nunca sequer se viram, levando alegria e autoestima de volta a quem precisa.
Conquistas não chegam sem desafios
O crescimento rápido da Cabelegria, porém, cobrou um preço. Segundo Mariana, a falta de estrutura, dinheiro ou conhecimento de gestão prejudicava o ritmo exigido pelo projeto – e há ainda uma realidade do terceiro setor que, de acordo com ela, pouca gente enxerga.

“Manter uma organização funcionando é mais difícil do que começar uma boa ação. Você tem equipe, aluguel, impostos, contabilidade, logística, produção, fornecedores, uma série de custos que continuam existindo independentemente de entrar ou não uma doação naquele mês”, explica ela, frisando as dificuldades.
De acordo com Mariana, houve momentos financeiros difíceis, em que a dúvida era como pagar as contas e manter os atendimentos ao mesmo tempo, além de problemas de produção, de logística e falta de profissionais especializados na confecção de perucas. Para dar conta de tudo isso, a presidente da ONG teve de correr atrás de mais e mais conhecimento.
Nesse contexto, ela aprendeu gestão, captação de recursos, legislação do terceiro setor, prestação de contas e liderança. “Muita coisa eu aprendi fazendo, errando, corrigindo e buscando pessoas que soubessem mais do que eu”, conta ela.
Assim, para ela, desistir nunca foi uma opção. “Desistir significaria interromper algo que a gente já sabia que fazia diferença na vida de milhares de pessoas”, diz Mariana, que, hoje, tem uma estrutura mais estável, com uma equipe que divide responsabilidades com ela.
Impacto que virou sonho realizado
A principal realização das duas aparece nos atendimentos. Nesse contexto, Mariana lembra de uma ação do Banco de Perucas Móvel na Santa Casa de São Paulo, quando uma mulher entrou no caminhão chorando pois havia acabado de receber o diagnóstico de câncer. Em meio às lágrimas, ela então disse uma frase de que a presidente jamais se esqueceria: “Se for para eu morrer, não vou morrer careca”.

A equipe a acolheu e, logo, encontrou uma peruca para a mulher, que começou a se acalmar e se mostrar aliviada. “Não tenho como dizer que foi a peruca que fez aquela mulher decidir se tratar, seria uma responsabilidade que não nos cabe, mas, naquele momento, conseguimos estar presentes e oferecer alguma coisa à qual ela pudesse se agarrar”, declara.
As perucas não são um tratamento e não curam a doença, mas agem sobre algo pouco reconhecido acerca de pacientes oncológicos: a autoestima. Uma pesquisa da própria ONG com 147 pacientes atendidas mostrou que 81% passaram a se reconhecer novamente no espelho, 69% começaram a sair mais de casa, 44% retomaram as atividades sociais e 8% voltaram ao trabalho ou aos estudos.
“É muito mais que uma peruca, é esperança de dias melhores”, escreveu uma das participantes da pesquisa, gerando combustível para que Mariana continue o trabalho duro.
O que vem pela frente
Para Mariana, a história da ONG é “uma prova de que a gente não consegue medir o tamanho de uma ideia pelo tamanho que ela tem quando começa”. Sendo assim, a Cabelegria tem planos, e eles ultrapassam o horizonte, com a fundadora afirmando que busca caminhos para que a organização cresça ainda mais, chegando a mais pessoas que precisam.
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