Empoderamento 04 de novembro, 2026 • Por Tatiana Leonel

Como a coragem de largar o “certo pelo incerto” pode transformar a sua carreira, segundo CEO da Vizcaya

Ana Paula Magri reflete sobre a decisão de largar a estabilidade corporativa, o pioneirismo feminino e a urgência de alinhar a carreira aos próprios valores

Abrir mão de décadas de estabilidade para recomeçar em um novo mercado é uma decisão que poucos têm coragem de tomar. Em um cenário corporativo que muitas vezes cobra linearidade e certezas absolutas, mudar de rumo exige confrontar medos, romper julgamentos sociais e abraçar o desconhecido.

Ana Paula Magri, atualmente CEO do Grupo Vizcaya, compartilhou os bastidores da sua virada profissional durante um painel que tinha como tema o poder de se reinventar todos os dias, em evento exclusivo que foi acompanhado de perto pelo Mulher.

Em conversa mediada pela jornalista Fabiana Scaranzi, a executiva abordou o momento em que decidiu recalcular a rota após 20 anos construindo uma história sólida em uma grande multinacional, mostrando que nenhuma certeza substitui o alinhamento com os próprios propósitos de vida.

Recomeçar do zero: como lidar com o desafio de mudar de área

A trajetória de Ana Paula já tinha sido marcada por uma primeira virada radical ainda no meio de sua caminhada corporativa. A CEO, que não começou em áreas voltadas ao mercado de consumo, precisou encarar o pioneirismo em um ambiente dominantemente masculino.

“Eu não comecei minha carreira ligada ao marketing ou comercial. Foi o contrário. Eu comecei a minha carreira na área financeira e, mais ou menos no meio da minha carreira, resolvi fazer uma grande mudança. E tive esse primeiro desafio de, também, vir de finanças e ir para a área comercial”.

“Daqui a pouco vai fazer 20 anos, mas eu me lembro de ser uma cadeira feminina, era muito solitário. Eram poucas mulheres. Então, eu trabalhei em uma grande multinacional de beleza e duas grandes multinacionais antes de me juntar aqui ao grupo [Vizcaya] e me lembro de ser a primeira diretora comercial mulher nessa época”.

(Crédito: Reprodução/Vizcaya)

Além dos obstáculos técnicos da mudança de rota, Ana Paula relembrou o esforço de adaptação que muitas profissionais enfrentavam para tentar se encaixar: “Muitas vezes até pensava assim: ‘Ai vou me masculinizar de vez em quando’, porque, né? Botava ali o terninho. E hoje eu batalho tanto para que as mulheres não tenham que fazer isso'”.

A missão de reconstruir uma empresa depois da maternidade

A segunda e mais marcante virada de sua vida profissional aconteceu já na maturidade, anos depois da maternidade, quando teve filhas gêmeas. Já consolidada em gigantes globais do setor, Ana Paula foi provocada pelos fundadores da Vizcaya sobre o que ainda faltava realizar em sua trajetória:

“O Odilon [dono e fundador] me perguntou qual era o meu sonho, o que que eu nunca tinha realizado. E eu falei: ‘Puxa, eu sempre tive um sobrenome, né, de multinacional, de marcas já muito conhecidas, de marcas que são globais’. Mas eu não tinha realizado de estar em uma marca brasileira com tanta potência”.

“Eu já conhecia a marca, sabia que ela estava um pouco adormecida, se preparando até para esse grande momento de hoje que a gente está aqui, mas eu aceitei o desafio com eles. E hoje, na verdade, eu sinto que quem me deu esse prêmio foram eles”, afirmou se referindo ao lançamento das novas linhas de cuidados capilares da Vizcaya em novo movimento da marca.

A decisão significou assumir um projeto de reposicionamento profundo, unindo a reinvenção da empresa à sua própria transformação executiva: “Foi uma mudança, né? De reconstrução. Uma reconstrução da marca, mas também da Ana, que aprendeu em outra empresa, em outro ambiente, a ter essa reinvenção”.

(Crédito: Reprodução/Vizcaya)

Largar o certo pelo incerto: o enfrentamento ao medo e à crítica

Ao longo dos anos no mesmo emprego, a vontade de crescer e liderar negócios convivia com a clássica sensação de inadequação que persegue tantas mulheres no mercado de trabalho. Ana Paula detalha como o medo de não estar pronta se transformava em ansiedade:

“Eu acho que todas as mulheres travam essa batalha, assim, diariamente. Falando um pouco da minha trajetória mais profissional, eu acho que muito tempo eu almejava também: ‘Como é que eu vou chegar nessa posição?’. Porque eu queria, mas estava sempre me puxando um pouco: ‘Eu não tenho isso, eu não tenho aquilo, eu tenho que fazer aquilo outro, o outro fez aquilo, aquele curso que eu não tenho'”.

“É como se gerasse uma grande ansiedade, às vezes até com um bolo aqui, né, dentro de mim. Mas acho que muitas mulheres se reconhecem nisso, né? Eu acho que esse impostor que vivia perseguindo, uma sombra, acho que foi o meu grande desafio”.

O ponto de inflexão, no entanto, veio quando percebeu que as oportunidades de crescimento que desejava para a sua vida pessoal e profissional já não cabiam mais naquela estrutura.

“Quando eu mudei de carreira foi um exemplo. Mas acho que mais… Eu sabia o que eu podia profissionalmente. Eu gosto muito de gente, de ao mesmo tempo estar cuidando do negócio, como por exemplo onde a gente está hoje, lançando uma marca, que é uma coisa que sempre me atraiu. E eu sentia que onde eu trabalhava, trabalhava num grupo muito grande de marcas, de que ali talvez eu não fosse alcançar, por N razões”.

(Crédito: Reprodução/Vizcaya)

“Às vezes por história, às vezes por momento. Às vezes porque eu tinha tido filhas, né? Isso segura um pouco a carreira, infelizmente, ainda tem muito esse olhar. E depois surgiu uma oportunidade e eu falei: ‘Eu vou buscar essa oportunidade’. Oque eu queria para a minha vida profissional, o que cabia dentro da minha vida pessoal, já não cabia naquele lugar ali”.

A transição exigiu encarar os comentários e o espanto de quem não entendia o motivo de trocar uma trajetória de 20 anos pelo risco de um novo capítulo: “Tomei uma decisão que é muito corajosa porque eu trabalhava quase 20 anos no mesmo lugar. Você tem que ter muita coragem de dar um outro passo. E muitas pessoas falam assim: ‘Mas você já está com 40… que loucura! Você vai mudar, vai largar o certo pelo incerto?'”.

“Mas, na verdade, que certezas a gente tem quando a gente acorda? Nenhuma, né? A gente tem um emprego, é uma relação. A gente tem um casamento, é uma relação. Até as relações com os filhos, eles não são nossos, são do mundo, né? Então acho que é isso, é pensar nisso sempre. E ter coragem mesmo. Acho que coragem é uma palavra que circulou bastante na minha vida”.

Empreender a própria rota profissional não é sobre ter garantias prévias de sucesso, mas sobre reconhecer a hora em que o seu potencial precisa de um novo espaço para florescer. Largar o “certo pelo incerto”, no fim das contas, é a única maneira de descobrir o tamanho daquilo que você ainda pode construir.

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