Fernanda Bento Zen, cofundadora da Deepful, e Nicole Grossmann, que integrou a fundação do primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina, falam sobre suas vivências como mulheres na tecnologia – mercado que, historicamente, foi feito por homens, para homens
“As portas não foram feitas para ela. Foram desenhadas por outras pessoas, para outras pessoas. Mas isso não é motivo de esperar um convite – é motivo de entrar mesmo assim”.
Essa frase é de Nicole Grossmann, cientista da computação e matemática formada em duas das universidades mais competitivas dos Estados Unidos. Ela esteve também no núcleo de criação da Enter, startup que se tornou a primeira empresa de IA a alcançar o valor de mercado de um bilhão de dólares da América Latina.
Essa mesma sentença, porém, também poderia ser dita por Fernanda Bento Zen dada a experiência dela como outra mulher nesse universo de tecnologia. Cofundadora da Deepful, empresa que usa IA para transformar o treinamento comercial da indústria farmacêutica, ela tem no currículo clientes como Johnson & Johnson, Libbs, Eurofarma e Aché.
As duas chegaram à tecnologia por caminhos completamente diferentes – mas, apesar disso, encontraram obstáculos parecidos no percurso: um mercado que não foi feito para elas, bem como a decisão de estar nele mesmo assim. Conheça abaixo a trajetória das duas e as lições que ambas trazem sobre a mulher em contextos dominados por homens:
Mulheres na tecnologia: início inusitado e caminhos que convergem

Nem a trajetória de Fernanda, nem a de Nicole, tem um início óbvio. Nenhuma das duas “herdou” algo garantido – e ambas vieram de áreas bem diferentes, se inserindo pouco a pouco em um mercado hostil com base em interesses e crenças pessoais.
Fernanda, que descreve sua trajetória como “uma combinação inusitada”, por exemplo, é formada em Publicidade e Propaganda, tem mestrado em Marketing Internacional na Suécia (onde desenvolveu sua pesquisa em parceria com a Volvo) e fez intercâmbio acadêmico na China.
Ela se iniciou no setor de tecnologia em 2013 como coordenadora de marketing em uma empresa de hardware e software, acumulando desde então experiências em gestão no Grupo Guga Kuerten e na Henry Schein. Em 2023, tudo isso culminou na cofundação da Deepful.
Já a história de Nicole começa ainda mais longe da imagem que se associa a uma pessoa especialista em IA: como patinadora artística de nível nacional. “O esporte me ensinou cedo uma coisa que carrego até hoje: competir primeiro contra minha versão de ontem. Disciplina, repetição, sangue frio. Isso virou meu método de estudo”, conta ela.
Esse método, então, a levou a se arriscar em Matemática Aplicada e Economia na Universidade de Columbia, em Nova York (Estados Unidos), com uma tese de conclusão que usava análises genéticas para prever doenças neurodegenerativas.
Além disso, ela também cursou um mestrado em Ciências da Computação no Georgia Tech, uma das universidades de engenharia mais renomadas dos EUA. De lá, ela foi direto para o time fundador da Enter, startup brasileira de IA que atua no setor jurídico.
Quando o espaço não está lá, precisa ser conquistado

Já no início, ambas as empresárias se depararam com um fato: certos meios não estão totalmente prontos – ou inclinados – a ter mulheres. Isso, no entanto, não as fez parar.
Segundo Nicole, o meio da matemática é ainda mais masculino do que o da tecnologia em si. “Muitas vezes eu era uma das poucas mulheres na sala. Não apenas a única mulher, mas a única pessoa da América Latina”, diz ela, explicando que, no início, a proporção na Enter era de 30 homens para uma mulher. Já hoje, em Palo Alto (Califórnia), onde ela constrói uma nova empresa, o time fundador conta com nove homens – e ela.
Fernanda, por sua vez, é a única cofundadora mulher da Deepful. Além disso, ela afirma encontrar mulheres à frente de times de treinamento no dia a dia dos clientes – mas que em reuniões estratégias e no alto escalão “a figura masculina ainda predomina em certas empresas”.
Esse cenário predominantemente masculino gerou consequências – e, segundo as duas, essas consequências raramente chegam “fazendo barulho”. São discretas, mas ainda impactantes e, muitas vezes, frustrantes.
“Nunca aconteceu de forma escancarada, raramente alguém diz na sua cara que duvida de você. É a reunião em que assumem que você é de marketing ou de recursos humanos, nunca a pessoa que entende da parte técnica. É sua fala passar batida e, dez minutos depois, o mesmo ponto – dito por um homem – ser tratado como insight. É ter de provar competência antes de poder exercê-la”, descreve Nicole.
Já Fernanda cita como exemplo um momento anterior da carreira, em uma multinacional com colegas majoritariamente masculinos. “Havia uma dinâmica implícita de precisar demonstrar autoridade”, diz ela – que, assim como Nicole, encarou esses obstáculos de frente.
Obstáculos que geram aprendizados
Diante dessas situações, ambas chegaram a conclusões interessantes que, por sua vez, motivaram ações e modelos de conduta que carregam até atualmente. “Essa experiência me ensinou muito. Me fez entender que preparação é a melhor resposta para qualquer ambiente: quando você domina o que faz, a conversa muda. E é esse aprendizado que carrego até hoje”, declara Fernanda, afirmando que se prepara muito para reuniões justamente para se sentir pertencente ao espaço.
Nicole, inclusive, chegou a uma conclusão parecida. “Quem precisou conquistar confiança em vez de recebê-la por padrão tende a se preparar mais, a antecipar o que pode dar errado antes que dê. No meu caso, isso virou um traço”, diz ela que, em ambientes onde o erro “custa caro”, ela já chega “com a conta fechada” – e não por ser mulher, mas por ter aprendido cedo que ninguém lhe daria o benefício da dúvida.
Sob esse aprendizado, os resultados concretos falam por si. Na Enter, Nicole liderou um projeto no escopo jurídico da SulAmérica que processou mais de 500 mil documentos e 30 mil ações judiciais para identificar fraudes coordenadas, trabalho que se tornou referência e virou estudo de caso. “Quando você entrega algo assim, a dúvida se dissolve sozinha. O resultado não tem gênero”, declara ela.
O que acontece quando mulheres lideram

Com palavras diferentes, Fernanda e Nicole descrevem algo semelhante: visibilidade traz, também, responsabilidade – mas também abre portas.
“Percebo que líderes me procuram para trocar ideias, discutir estratégias e até ajudar em processos que gostariam da minha perspectiva. Acredito que mulheres na tecnologia, especialmente em em posições de liderança, ainda chamam atenção, e isso pode ser uma responsabilidade bonita de carregar. Quando você está visível e entrega resultado, abre espaço para que outras mulheres também se vejam nesse lugar”, reflete Fernanda.
Na Deepful, essa escolha é intencional: a empresa conta com muitas mulheres, inclusive em outros cargos de liderança. “Isso não é coincidência, é resultado de uma escolha intencional de construir um ambiente diverso”, declara.
Sobre esse ponto, Nicole também é direta. Sem minimizar o que ainda falta, ela encara as dificuldades que seguem aqui como um motivo ainda maior para ocupar esses espaços de forma visível. “Cada mulher que está claramente no comando torna esse caminho um pouco mais natural para a próxima”, observa ela.
Conselhos para quem ainda está no caminho
Outro ponto que as duas histórias têm em comum é a convicção de que esses espaços em que ambas estão não é dado – é ocupado. Segundo as empresárias, ocupá-los é um ato que, inclusive, gera uma transformação em cadeia.
“Nunca pare de estudar e domine sua área com profundidade. O espaço muitas vezes não é dado, é ocupado – e quanto mais mulheres se prepararem e se posicionarem, mais natural essa presença se torna para as que vêm depois”, afirma Fernanda.
Na mesma direção, Nicole afirma que mulheres seguirão sentindo que o espaço não foi feito para elas, mas que esse é mais um motivo para manter o foco. “Não dá para controlar a sala, o painel de juízes, nem quem duvida de você. Isso vai existir sempre. O que você controla é sua preparação, sua disciplina e sua entrega”, pontua ela.
Por fim, Nicole deixa ainda um manifesto para outras mulheres na tecnologia. “A porta talvez não tenha sido feita para você, mas, depois que você passa por ela, ela fica mais larga para quem vem depois. Esse é o ponto”, conclui.

