A gente já falou em bife e em arroz de forma que, de fome, ninguém morre mais. Pelo menos, não por ignorância. Como eu respeito meus obstinados leitores, não cairei na cretinice de dar receita de ovo frito.Ficou faltando o feijão, nosso prato de resistência mais querido, herdado dos tempos de casa grande e senzala.
Não, não vou dar receita de feijoada. Aquela que leva dois ou três dias para ficar pronta e que leva pé de porco, orelhas de porco, focinho de porco e outras partes inomináveis do pobre porco, até porque, devo confessar que não sou uma grande entusiasta de caudas suínas e afins. Se quiser comer uma feijoada daquelas, de restaurante, vá a um restaurante e saia de lá miando, de quatro, três horas depois.
O tempo de cozimento de uma panela de pressão é contado assim: quando apenas quando o pito começar a chiar (naquele barulho típico que você ouviu a vida inteira na casa da sua mãe), marque o tempo do cozimento.
Hoje, vamos falar do feijão que sua mãe fazia em casa (e nem adianta disfarçar porque eu sei que fazia. E como eu sei? Ora, porque todas as mães do Brasil fazem feijão em casa. E as que não fazem, por falta de tempo ou por desconhecimento, têm sempre uma fiel escudeira, craque no feijão). O Feijão da Sua Mãe é aquele que estava sempre borbulhando na panela quando você chegava da escola. É aquele que ela esquentava quando você ou seus irmãos chegavam atrasados. É precisamente aquele que, depois que saiu de casa, você continua pedindo a ela para fazer, até porque, ninguém nesse mundo (muito menos a sua mulher – ou marido) faz um feijão igual ao da sua mãe.
O plano
O Feijão da Sua Mãe requer um pequeno planejamento prévio, o que significa que você precisará saber de véspera quando terá vontade de comê-lo. A parte boa é que isso será só da primeira vez porque depois do primeiro Feijão da Sua Mãe, você poderá congelar porções sob medida para as suas necessidades de consumo e tirá-lo do freezer no minuto que quiser, precisando apenas de um punhado de minutos de microondas (ou de banho-maria) para ser feliz.
O utensílio
Outra coisa indispensável para fazer um Feijão da Sua Mãe bem sucedido é uma panela de pressão. Siiiim, é para isso que ela serve. Sei que o termo “panela de pressão” soa quase como uma ofensa para alguns leitores de princípios mais arraigados, mas, francamente, você já está grandinha, já mora sozinha e, mesmo sendo uma pessoa independente e super hiper ultra mega cool, pode ter uma panela de pressão em casa sem que isso denigra sua imagem. Se quiser impressionar, compre uma de design, de R$ 1.800,00, para deixar exposta (sim, porque se você tiver uma panela de pressão que custa o preço de um quadro, nada mais justo do que pendurá-la na principal parede da cozinha, não?). Ou compre uma Panex mesmo, que tem tudo o que você precisa para ser feliz, custa dez vezes menos e pode ficar discretamente acondicionada no fundo do seu armário, sob a pia, sem ofuscar seu George Foreman Grill.
O molho
Pois bem. Um dia antes de ter vontade de comer o Feijão da Sua Mãe, meça duas xícaras de feijão cru (qualquer xícara serve), ponha em uma tigela ou pirex e cubra com água até uns dois ou três dedos acima da altura do feijão. Divirta-se recolhendo os feijões que boiarem. Se boiaram é porque estão velhos ou com bichinhos. Pode jogar fora, sem medo. Em algumas horas, o feijão terá absorvido boa parte da água. Se necessário, complete com mais um pouco de água. Deixe-o lá, tranqüilo, e vá dormir.
Making of
No dia seguinte, acorde e mentalize o Feijão da Sua Mãe. Sua vida está prestes a mudar.
Pique uma cebola grande, dois tomates (com casca, com pele, com tudo. Feijão é um prato sem frescuras) e um dente de alho e ponha de lado.
Se você é do tipo chato, que implica com tudo e fica catando pedacinhos de cebola até dentro de estrogonofe, junte seus temperos, misture com meia xícara de água e bata no liquidificador antes de usar. Mas que fique claro: se você fosse meu filho, eu te dava umas palmadas.
Corte em rodelas um paio e uma lingüiça defumada. Se gostar, corte também uma ou duas fatias de bacon, em fatias finas. Se não gostar de paio ou de lingüiça defumada, fique à vontade. A mãe é sua e não minha. Faça como ela fazia. Estou apenas ensinando o caminho das pedras.
Pegue a sua nova panela de pressão (você não está orgulhoso?), ponha duas colheres de sopa de óleo dentro dela, coloque-a sob a chama do fogão e deixe o óleo aquecer.
Frite o paio, a lingüiça e o bacon, mexa e deixe renderem bastante gordura. Então, ponha os tomates, o alho e a cebola e refogue (siiiiim! Você está refogando! Não é emocionante?), mexendo até os tomates quase sumirem. E eles sumirão. Creia-me.
Agora é o momento mais solene. Escorra o feijão que ficou de molho, coloque-o na panela e misture com as carnes e os temperos. Cubra tudo com água até uma vez e meia a altura do feijão. Tampe a panela e ponha o pito.
O pito. Muita calma nessa hora
A panela de pressão é sua amiga e existe para facilitar sua vida. Só que é mais perigosa que uma cimitarra, tem o poder destrutivo de um coquetel molotov (que outro dia eu ensino a fazer) e pode arrancar sua cabeça, destruir seu fogão e pôr abaixo o teto da sua cozinha se for mal utilizada. Portanto, respeito com ela.
Toda panela de pressão tem uma capacidade máxima, indicada por uma linhazinha no interior da mesma. NUNCA, em hipótese alguma, ultrapasse o limite indicado. Se ultrapassar, você pode morrer e eu não quero nem ficar sabendo, porque EU AVISEI.
Outra coisa essencial é a borracha, que garante a vedação da panela e, consequentemente, a sua vida. Coloque a borracha com atenção e lave-a toda vez que acabar de usar sua panela. Vi uma panela uma vez, cuja borracha NUNCA tinha sido tirada. Devia ter uns 10 anos de feijão naquela borracha. Irk!
Quando fechar sua panela, já sob o calor do fogo, ponha o pito. Pito é aquele negocinho engraçado que deve ser rosqueado em um pininho em cima da panela. O tempo de cozimento de uma panela de pressão é contado assim: quando apenas quando o pito começar a chiar (naquele barulho típico que você ouviu a vida inteira na casa da sua mãe), marque o tempo do cozimento. Nem um minuto antes.
Voltando ao feijão
Tudo dentro na panela, você instruído, fogão aceso, é hora de relaxar. Espere o pito começar a chiar e marque 20 minutos.
A hora de tirar a panela do fogo também é muito importante. E, sim, você ainda pode morrer, portanto, atenção: pegue a panela com cuidado, coloque-a FECHADA dentro da pia e ligue a torneira. Sua panela vai chiar e fumaçar loucamente. É normal. Mantenha-a embaixo da torneira aberta até ela parar de estrebuchar e SÓ ENTÃO feche a torneira e abra a panela. Ela ainda vai voltar ao fogo por mais 20 minutos, destampada, para o caldo do seu feijão engrossar e ficar igualzinho ao da sua mãe.
Agora é um bom momento para testar o sal. Como paio, lingüiça e bacon são salgados, é provável até que você nem precise dele. Depende de você.
Lá se foram vinte minutos? Eba! O Feijão da Sua Mãe está pronto e você, explodindo de orgulho. Eu sabia que ia dar certo!
Se quiser minha companhia, sirva com arroz escorrido, couve refogada e um ovo frito por cima. Ah, e molho de pimenta à mesa, por favor.
