Filhos 21 de maio, 2026 Por Bruna Somma

“Farmar aura”, “six seven” e o novo idioma da Geração Alpha: como os pais podem se comunicar melhor com os filhos?

adolescente redes sociais

Especialista alerta que códigos próprios de comportamento e linguagem criados nas redes sociais estão ampliando a distância emocional entre gerações

“Farmar aura”, “six seven”, “cringe”, “delulu”, “flopar”, “NPC”: para muitos pais, essas expressões parecem apenas mais uma leva de gírias da internet.

Contudo, para especialistas em comportamento, elas representam algo maior: a criação de um novo código social entre jovens da Geração Alpha (nascidos entre 2010 e 2024), moldado pelas redes sociais, que contrói identidade e valida emoções.

O problema, na verdade, é que boa parte dos adultos já não consegue acompanhar essa dinâmica e isso tem ampliado a sensação de distanciamento dentro de casa.

Geração Alpha já nasceu “dentro” das redes sociais

adolescente redes sociais
(Créditos: Freepik)

“O que estamos vendo não é apenas uma mudança de vocabulário. Existe uma reorganização completa da forma como os jovens se expressam, criam vínculos e constroem pertencimento. As redes sociais aceleraram isso de forma muito intensa”, explica Ticiana Paiva, doutora em psicologia e head de psicologia da Starbem.

Segundo a especialista, muitas dessas expressões funcionam como códigos de grupo. Assim, entender as referências virou uma espécie de passaporte social para participar de determinadas comunidades digitais.

“O jovem passa a se comunicar através de referências rápidas, memes, trends e códigos que fazem sentido dentro daquele ambiente online. Quando os pais não compreendem esse universo, surge uma sensação de desconexão dos dois lados”, afirma.

Afinal, entende-se que é preciso “performar” nas redes sociais. Expressões como “farmar aura”, por exemplo, fazem referência à tentativa de construir uma imagem admirável, misteriosa ou socialmente valorizada na internet.

eca digital
(Créditos: Freepik)

Já termos como “six seven” refletem códigos internos de comportamento e pertencimento digital.

Para Ticiana, essa lógica cria uma pressão emocional silenciosa: “Muitos jovens vivem hoje em estado constante de auto observação. Eles começam a pensar não apenas em quem são, mas em como estão sendo percebidos o tempo inteiro. Isso gera ansiedade, comparação e uma necessidade contínua de validação.”

Dessa forma, o impacto não está apenas na linguagem. Muitos pais relatam dificuldade crescente em conversar com os filhos, entender referências culturais ou perceber sinais emocionais importantes.

“Muitas vezes, o adolescente fala sobre tristeza, insegurança ou exaustão através do humor e da ironia. Se os pais não conhecem minimamente esse universo, acabam perdendo sinais de sofrimento emocional”, alerta a profissional.

O que os pais devem fazer para melhorar a comunicação

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(Créditos: Freepik)

Segundo Ticiana, o caminho não está em demonizar a internet ou proibir redes sociais, mas em reconstruir espaços de diálogo.

“Os pais não precisam falar igual aos filhos nem dominar todas as trends, mas precisam demonstrar curiosidade genuína pelo universo deles”, afirma.

Entre as principais recomendações estão:

  • Evitar ridicularizar gírias, referências ou interesses dos jovens;
  • Criar momentos de conversa sem telas;
  • Perguntar sobre conteúdos, trends e influenciadores que os filhos acompanham;
  • Observar mudanças abruptas de comportamento e aparência;
  • Construir escuta sem julgamento imediato.

“O que mais afasta adolescentes hoje não é a diferença de idade, é a sensação de não serem compreendidos. Quando existe abertura real para conversa, a linguagem deixa de ser uma barreira e passa a ser uma ponte”, conclui Ticiana Paiva.

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