Abortos de repetição > Luz no fim do túnel

As causas de abortamento de repetição estão divididas em cinco categorias:

Genéticas: Correspondem até 6% dos casos. Neles, o bebê apresenta alterações na estrutura ou no número de cromossomos, inviabilizando seu desenvolvimento. Essas modificações podem ser originárias de alterações genéticas de um dos pais ou não. “Nesses casos, o aconselhamento genético mostrará os riscos de uma perda em gestações futuras”, recomenda Eduardo. Como alterações cromossômicas não costumam ter tratamento, os especialistas recomendam a fertilização assistida.

Imunológicas: É responsável por cerca de 60% das ocorrências de abortos de repetição. Nesses casos, a gestante não produz anticorpos capazes de reconhecer os antígenos paternos presentes no bebê. O diagnóstico é feito com um teste chamado Prova Cruzada (Crossmatch). “O tratamento consiste em imunizar a mulher, antes da gravidez, através de vacinas constituídas de células brancas (linfócitos) do marido”, expõe Milcar. O Crossmatch então é repetido e se estiver tudo ok, a mulher pode tentar uma nova gravidez. Em outros casos, “a gestante cria anticorpos contra o feto ou mesmo contra uma parte ou órgão do seu corpo, o que acaba agredindo o embrião”, revela Milcar. Nesses casos, o tratamento envolve o uso de medicamentos e injeções diárias de anticoagulantes.

Anatômicas: A presença de alterações na cavidade uterina impede o desenvolvimento do bebê. Para saber se a mulher apresenta esse problema é preciso se submeter a histeroscopia (exame que observa a cavidade uterina e o canal cervical). Vale lembrar que miomas, pólipos e inflamações podem ocasionar essas modificações. Outras vezes, a gestante apresenta a chamada incompetência istmo cervical. “Trata-se de uma fragilidade do colo uterino que o impede de manter-se fechado até o término da gestação”, explica Milcar. “O tratamento é cirúrgico e deve ser feito durante o terceiro mês de gravidez. Nele, o médico fecha o útero com um ponto (circlagem)”, complementa Eduardo.

Hematológicas: Com a modificação hormonal que ocorre durante a gravidez, o sistema de coagulação da gestante pode ficar prejudicado, desencadeando uma trombose placentária e levando a um desenvolvimento diminuído do feto ou mesmo seu falecimento. O diagnóstico é feito por uma série de testes de coagulação e o tratamento engloba o uso de anticoagulantes.

Hormonais: Correspondem a 25% dos casos de abortos de repetição. “Alguns estudos demonstram que existe uma relação entre abortos recorrentes e mulheres que apresentam algum tipo de deficiência na produção de progesterona (hormônio responsável pela manutenção da gravidez)”, revela Milcar. Nesses casos, “o tratamento consiste na reposição do hormônio desde a fase de ovulação até o terceiro ou quarto mês de gravidez”, explica Eduardo. O diabetes, problemas na tireóide e a síndrome dos ovários policísticos também causam distúrbios hormonais que aumentam as chances de abortamento.

Em busca do sonho

Kenia (lá do início da matéria), depois de passar por mais de 20 médicos, tomar vacinas com os linfócitos do marido, doses de progesterona e remédios para inibir as contrações acabou por desvendar que seu problema é imunológico. “Descobrimos que meu organismo produz células de defesa que matam o embrião no início da gestação”, conta. Com a notícia, veio o alívio. “Por incrível que pareça ficamos felizes por encontrar nosso maior inimigo. Não aguentávamos mais lutar contra algo invisível”, desabafa a estudante.

Depois de tanta luta e desgaste emocional, o sonho da maternidade permanece. “Apesar do que passamos, acreditamos que ainda vamos ter esse filho, custe o que custar. Meu desejo de ser mãe está cada vez mais próximo”, afirma Kenia. Ela dá conselhos a mulheres que estão vivenciando a mesma situação. “Não desanimem, nem percam a fé. Namorem sem cobrança, se permitam amar e serem amadas. Sei que é difícil, mas quanto mais nos preocuparmos com o problema, mais ansiosas ficaremos e quando nos dermos conta já passou um ano inteiro de angústias e não fizemos nada de nossas vidas”, aconselha. Kenia espera um dia poder contar aqui um final feliz: “Desejo comemorar a vitória com cada uma que busca por um filho tão amado. Boa sorte a todas nós”!