Gravidez e bebês 30 de junho, 2016 • Por Editor 1

Traumas e fobias

O Natal é uma festa que encanta adultos e crianças: árvores iluminadas, presentes muito bem ornamentados com laços coloridos, mesas decoradas e repletas de guloseimas, a figura do Papai Noel… Espere. A figura do Papai Noel? Nem sempre. Não é raro ver crianças aos prantos na hora de tirar uma simples foto com o Bom Velhinho. E os pais frustram-se com a reação dos filhotes. Perguntam-se decepcionados porque isso aconteceu.

Vale considerar que as causas podem ser várias, até mesmo uma indisposição do pequeno naquele dia ou o cansaço resultante da longa espera na fila. Não descarte as possibilidades circunstanciais. Alguma coisa mais séria pode, sim, estar acontecendo, mas pode ser também que, no dia seguinte, a foto tão desejada seja possível. O humor, o cansaço, a sede ou a fome podem determinar uma crise de choro seguida da recusa em se confraternizar com o simpático gorducho de barbas brancas.

Não somos capazes de apagar as informações registradas no cérebro como se fosse um arquivo de computador, que facilmente deletamos

É normal a criança ficar impactada quando se vê frente a frente com o Papai Noel porque ele é uma figura forte no imaginário infantil. A emoção despertada é semelhante a do jovem que consegue se aproximar de seu ídolo em um show ou após uma apresentação teatral. Muitas vezes, os pequenos não sabem lidar com essa emoção, um misto de surpresa e encantamento, e choram.

Também é compreensível que a criança se negue até mesmo a se aproximar da cadeira de Noel porque não realizou ainda como pode ele estar ali, em carne e osso, saído dos livros de histórias, de desenhos animados ou dos filmes. Agarra-se aos pais e parece estar com medo. E pode mesmo estar sentindo medo. Quanto menor a faixa etária, menos o racional age porque o emocional está mais presente. Ou seja, sente mais do que é capaz de explicar ou entender.

É importante que os pais mantenham a calma, segurem a frustração e conversem com a criança. Não adianta fazer longos discursos afirmando as qualidades do bom velhinho. Pergunte o motivo do choro ou do medo. Escute com atenção. Considere a personalidade de seu filho, se é tímido ou se é muito sensível, por exemplo. Não force e não tire conclusões precipitadas. Um erro recorrente dos pais é determinar que o filho tenha medo de Papai Noel e dito isto, o terá para sempre até estar muito crescido para acreditar. Cuidado, o medo e o choro podem ser re-significados de forma positiva. O que vai contar muito é a atitude dos pais frente ao acontecido.

Ajuda saber que, não necessariamente o que se identificou como medo do Papai Noel revela uma fobia ou um trauma. Antes de pensar em buscar ajuda de um especialista, observe como seu filho se comporta em peças de teatro, circos, parques temáticos. Preste atenção no que seus desenhos expressam, nas histórias que ele conta, nos filminhos que gosta de assistir. Considere também o jeito de ser da criança, como já comentei acima. Analise a situação como um todo, em seus diversos aspectos.

É possível que anos mais tarde seu filho se lembre do episódio como uma experiência desagradável. Isso porque não somos capazes de apagar as informações registradas no cérebro como se fosse um arquivo de computador, que facilmente deletamos. A grande vantagem que temos sobre as máquinas é a capacidade de reeditarmos nossos arquivos, conferindo novo significado ao mesmo fato, registrando novas experiências sobre as experiências negativas.

Dê uma nova chance ao Papai Noel no próximo Natal. Você terá o ano todo para criar espaços de livre expressão, onde seu filho poderá elaborar os sentimentos, a emoção do encontro. Talvez você tenha uma grata surpresa e descubra que o choro foi simplesmente porque aquele Papai Noel do shopping era de fato muito feio…

Lucíola Agostini é psicopedagoga clínica e pedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico.

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