“E aí, tá namorando?”. Essa simples perguntinha é capaz de despertar as mais diversas reações nas mulheres. Ao serem colocadas na parede, algumas sentem-se envergonhadas, outras vitoriosas, e há até quem nem dê bola, mas, na verdade, estar de bem com a solteirice é algo que poucas conseguem. Basicamente, existem três tipos de solteiras: as desesperadas, as mentirosas, e as satisfeitas. Como todas já estivemos solteiras pelo menos uma vez na vida – e certamente estaremos novamente – podemos facilmente perceber em qual desses grupos nos enquadramos. Na prática, é tudo muito parecido e a diferença está, na verdade, na forma de encarar o estereótipo.
O primeiro caso dispensa maiores explicações, afinal, a palavra desesperada é suficiente para transmitir o quanto anseiam por um companheiro. Elas são facilmente aterrorizadas pela fobia do “ninguém me ama, ninguém me quer”, e muitas vezes sentem-se cansadas e desmotivadas, o que não raramente leva à depressão e à insatisfação. Não é difícil concluir que cada vez estarão mais distantes de um relacionamento. Já as mentirosas são aquelas que não dispensam uma noitada, vivem repetindo como é bom não ter ninguém pegando no pé, mas no fundo estão cansadas de tanto procurar pelo homem ideal. Podem até curtir a liberdade, mas quando percebem que as amigas começaram a se comprometer, e estão sem companhia para a caça, sentem-se sozinhas e percebem que na verdade estão tão desesperadas quanto as primeiras.
O terceiro caso é o que todas deveríamos nos esforçar para ser: satisfeitas. Nem sempre estão solteiras por opção, mas sabem lidar com isso e curtem cada minuto da vida. São a melhor prova de que solteirice não é sinônimo de solidão. A carioca Lívia Duarte é o protótipo da satisfeita em carne e osso. Apesar de admitir que às vezes sente vontade de estar com alguém, isso não é um problema para ela: “Adoro sair para dançar com meus amigos. Geralmente, quando estou namorando, tenho que abrir mão de muitas coisas, inclusive da diversão. Estou curtindo, e muito, minha liberdade. Só faço o que quero, no momento em que quero”, diz, sem negar que pretende continuar solteira por um bom tempo.
Realmente, não é difícil encontrar vantagens em estar sozinha. Nada de discussões na hora de escolher o restaurante, o filme, ou o destino do Carnaval. E os prós não ficam só por aí. Para Solange Saião, nada se compara a dormir sozinha. Ela adora ter a cama inteira para se espalhar, e três travesseiros: “Um entre as pernas, outro debaixo da cabeça, e um terceiro para abraçar. Muito melhor do que homem: não ronca, não puxa o lençol, nem te empurra para o chão”, conclui.
Apesar da maioria das mulheres admitir que adora dormir abraçadinha com um homem, a cama parece ser um território disputado. A produtora Carla Barbosa apóia Solange: “Não abro mão de dormir sozinha quando tenho reuniões importantes no dia seguinte. Preciso dormir bem, e com meu namorado dificilmente sobra espaço para mim”, revela. E não é só na cama que podem surgir problemas. O banheiro costuma ser o local mais problemático quando reúne duas pessoas do sexo oposto debaixo do mesmo teto. A advogada Renata Fortes não gosta nem de se lembrar dos meses em que seu ex-namorado morou em sua casa: “Eu não agüentava mais pedir para abaixar a tábua do vaso, guardar a escova de dentes do armário, e não usar minha gilete”, recorda. Dois meses foram suficientes para que o namoro fosse por água abaixo. “Eu sempre gostei de morar sozinha, e lutei pelo meu espaço. Não me acostumei com a invasão, e acabávamos brigando todos os dias por coisas bobas, mas importantes para mim”. Agora, a advogada jura só colocar alguém para dividir o mesmo teto quando tiver dois banheiros.
E é o gosto pela privacidade que faz com que muitas mulheres acabem optando pela solteirice. A estudante Mariana Travassos diz que nunca moraria com alguém com quem estivesse se relacionando. Ela está prestes a pegar a chave de seu primeiro apartamento: “Moro com minha avó de 72 anos, e sou em quem cuido da casa. Por isso, já sei lidar com as responsabilidades de morar sozinha”, diz Mariana, que acredita que seja mais difícil estar com alguém do que só: “Além de meus próprios problemas, teria que lidar com os problemas do outro, e com os que surgissem do relacionamento”, comenta.
Dar conta de um apartamento não é nada fácil, especialmente quando se é uma marinheira de primeira viagem como Mariana. Letícia Araújo também passou por muitas saias-justas nos dois primeiros anos em que saiu da cada dos avós para morar num quarto e sala. “Já fiquei trancada fora de casa, e como era muito tarde, e não sabia de nenhum chaveiro aberto, fui dormir na casa da minha mãe”, lembra Letícia, que depois dessa tratou de deixar cópias com alguns amigos. Mesmo que não haja nenhum imprevisto, há certas situações comuns a quem mora sozinho. As até então simples compras do mês se tornam complicadas. A maioria dos produtos disponíveis em supermercados vem em porções muito grandes. “O leite azeda, o pão e o queijo mofam, e muitos biscoitos, que duram semanas, acabam ficando moles”, lamenta Letícia. Mas se por um lado o solteiro sofre, por outro tem uma série de produtos desenvolvidos especialmente para seu bel prazer. “A melhor coisa que fizeram até hoje foram as garrafinhas de refrigerante de 600ml!”, comemora Isabela Pontes. “Antes, ou eram as garrafas horrorosas de 2 litros, que além de perder o gás em questão de horas, não cabiam na porta da minha geladeira, ou as latinhas, caras, e sem tampa” recorda.
E não é só a indústria alimentícia que vem desenvolvendo uma preocupação com este mercado crescente. Já existem sites oferecendo os mais diversos serviços para os solitários. O Guia de Compras Bol desenvolveu uma seção onde se encontra serviços e lojas para facilitar a vida de quem mora sozinho e não tem tempo de limpar a casa, cozinhar, ou lavar as roupas. Também há os especializadíssimos, como o www.sozinho.com.br, onde é possível encontrar dicas de roteiros de viagens a sós, fazer amigos ou achar a cara-metade.
Há até literatura para os interessados em aprender mais rápido a arte de cuidar da casa. Mais indicado para homens, mas igualmente indispensável para mulheres não muito caseiras e sem intimidade com a cozinha, é o “Guia do Solteiro – Como Fazer de Sua Casa um Confortável Chiqueiro”. O autor do livro, o jornalista P.J. O’Rourke, lançou o livro na década de 80, impulsionado pela ascensão do feminismo, que fez com que a população de solteirões e descasados crescesse relativamente.
Não é à toa que empresas vêm investindo neste mercado. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, a média nacional de homens que moram sozinhos no país é de 5,48%, sendo Brasília a cidade recordista no setor, com um índice de 7,68%. As mulheres sós representam uma taxa de 6,85%, sendo que no Rio de Janeiro elas ultrapassam a média: são 11,32% da população. Prova de que quase todo mundo já passou um sábado à noite em casa, pensando em quando encontraria um futuro companheiro, ou se debulhando em lágrimas dominada pelo pensamento “nunca vou encontrar ninguém”. Mas quando entendermos que solteirice é um estado de espírito (sim, porque há muitos casados que sentem-se solteiros), poderemos ser felizes mesmo sozinhas num sábado à noite. E, de preferência, assistindo ao maravilhoso “Vida de Solteiro” (Singles), devorando um pacote de pipoca, e o melhor de tudo, com o domínio total do controle remoto, pausando o filme na hora em que você bem entender.
