A vida é feita de surpresas. Uma delas pode ser uma gravidez não planejada. Imagine, então, se ela ocorre ainda no período da adolescência, trazendo um grande impacto na vida da jovem mamãe e do jovem papai? E não adianta tapar o sol com a peneira. Apesar de métodos e mais métodos anticoncepcionais e aulas de educação sexual, a gravidez continua acontecendo com uma certa freqüência nas “melhores famílias”, seja por falta de diálogo entre pais e filhos ou pela terrível mania que o adolescente tem de acreditar que nada vai acontecer com ele.
Muito já se debateu sobre esse assunto pelo ponto da vista da mãe da criança. Mas e o lado paterno? Estariam esses futuros papais dispostos a assumir o neném e preparados para não serem meros coadjuvantes na complexa tarefa de educar? Para o psicólogo social Benedito Medrado, existe um grande mito em relação ao tema. “Como as pessoas não conhecem muito essa realidade, acabam achando que gravidez na adolescência é exclusivamente sinônimo de maternidade na adolescência, esquecendo do lado paterno”, explica o terapeuta, que é um dos colaboradores da ONG Papai, o primeiro programa brasileiro de apoio ao pai adolescente.
A vivência da paternidade na adolescência, na opinião do psicólogo, é muito semelhante à vivência da paternidade de um pai de primeiro filho, independente da idade. A diferença é que, no caso dos pais adultos, eles têm uma espécie de autorização cultural. “Em geral, se pressupõe que o adolescente não tem capacidade, competência e, por isso, não teria habilidade para desenvolver a paternidade. É verdade, alguns têm, outros não, mas isso não se deve ao fato de ele ser adolescente ou não”, afirma ele. “Alguns pais adultos também não têm habilidade para cuidar de uma criança. Isso é uma coisa que se aprende principalmente na prática”, completa.
Segundo o psicólogo, embora o jovem já tenha o corpo reprodutivo preparado para ser pai, espera-se culturalmente que ele seja pai em uma idade posterior, já que ele é considerado imaturo. O bancário Eduardo Gomes, que foi pai de Gabriela aos 18 anos, questiona esse preconceito. “Sou tão pai quanto um homem de 30 anos. Pago algumas contas da Gabi, faço visitas regulares e estou presente sempre que a mãe dela precisa. Por que algumas pessoas acham que não posso cuidar da minha filha de um ano? A paternidade não deveria estar relacionada à idade”, questiona Eduardo.
Os transtornos de ser pai muito novo também são os mesmos que a chegada de um recém-nascido traz para a maioria dos adultos. Ou seja, na opinião do psicólogo Benedito Medrado, é preciso incluir a criança no planejamento de vida e no dia-a-dia, já que ela é um ser absolutamente dependente. Pode ocorrer, então, uma aceleração do plano cultural, pois há uma necessidade de desenvolver funções adultas ainda na adolescência. “Enquanto se ficar com essa lógica de que a paternidade na juventude é um problema, uma dificuldade séria, e continuar repetindo esse discurso, não se avança. O fundamental é o diálogo, a informação e o aconselhamento”, opina Benedito.
A proximidade de gerações também pode ser encarada de forma benéfica. Flávio Gonçalves, estudante universitário de 19 anos, tem um pai de 36 anos, Régis, e o encara como melhor amigo. “Jogamos futebol juntos no fim de semana e às vezes vamos juntos às festas”, conta. O pai, que é divorciado há cinco anos, chega a trocar confidências com o filho. Falando nisso, a família é fundamental nesse momento. Segundo o psicólogo, a família geralmente resolve punir o casal, sem dar qualquer apoio. “É como se apoiar fosse uma forma de dizerem que os jovens não erraram. A questão da sexualidade ainda é muito difícil de ser tratada e a gravidez, de certo modo, é como se fosse um atestado de que esses adolescentes transam, que já têm vida sexual ativa”, explica. “Esses adolescentes buscam esconder constantemente a sexualidade da família. Tanto é que a menina demora muitos meses para contar que está grávida porque isso é associado a muitos tabus, muitas questões relacionadas à sexualidade”, completa.
A webwriter Tina Andrade, 37 anos, que foi mãe muito cedo, apoiou plenamente seu filho quando ele se tornou pai pela primeira vez aos 18 anos. “A gente tem uma história de vida bastante parecida. O Fernando foi correndo me contar quando engravidou a mãe do filho dele. Falei para ele ficar calmo e que eu estava do lado dele e fiz questão que ele não adiasse seus planos profissionais”, conta. Tina acha que seu filho, agora também pai de uma menina, amadureceu muito com a nova responsabilidade. Para ela, é melhor vê-lo voltando para casa às dez da noite trazendo um pacote de fraldas descartáveis a ficar na rua perambulando até às quatro horas da manhã.
O fundamental, em qualquer idade, é trabalhar a questão da saúde reprodutiva. E isso deve encarar o planejamento familiar e anticoncepção como uma responsabilidade tanto para a mulher quanto para o homem. No caso de uma gravidez inesperada, ambos precisam receber apoio, informação e aconselhamento para poder arcar com o desafio de gerar uma nova vida. De forma algum deve-se punir quem já é pai e mãe. Tampouco, deve-se levantar a bandeira de que é bonito ter filhos ainda na adolescência.
Agradecimento:
Benedito Medrado
Doutor em Psicologia Social pela PUC-SP
Colaborador na ONG PAPAI – Programa de Apoio ao Pai Jovem e Adolescente
Tel./Fax: (81) 3271 4804
E-mail: [email protected]
