Saiba quando a testosterona é indicada para mulheres, o que dizem as diretrizes médicas e o uso sem indicação tem riscos
A ideia de “testosterona baixa” em mulheres tem ganhado espaço na internet. Mas sociedades médicas brasileiras alertam que não existe um diagnóstico formal de “deficiência de testosterona feminina”.
A única situação em que a testosterona pode ser considerada para as mulheres é no tratamento do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) na pós-menopausa, após avaliação clínica criteriosa e exclusão de outras causas.
O que é a testosterona?

A testosterona é um dos principais hormônios androgênicos. De forma bem simplificada, isso quer dizer que é responsável por desenvolver características sexuais naturalmente masculinas, como maior massa muscular, voz grave e pelos.
As mulheres também têm, naturalmente, níveis de testosterona no organismo, mas em níveis muito mais baixos que os homens. Esses níveis variam de acordo com a fase reprodutiva, o ciclo menstrual e até a hora do dia.
Apesar disso, não é recomendada a dosagem de testosterona de forma rotineira. Mesmo nos casos em que a testosterona pode ser considerada como opção terapêutica, não há um ponto de corte definido nos níveis sanguíneos para caracterizar uma deficiência hormonal em mulheres.
Na verdade, a principal indicação clínica para dosagem do hormônio é na investigação de hiperandrogenismo, que é o excesso de testosterona, como parte da avaliação laboratorial de condições como:
- síndrome dos ovários policísticos (SOP)
- tumores ovarianos ou adrenais
- hiperplasia adrenal congênita
- síndrome de Cushing
Fora desses contextos, a dosagem rotineira não tem respaldo científico, como afirmam a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia e a Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Além disso, não há no Brasil nenhuma formulação de testosterona aprovada pela ANVISA especificamente para uso em mulheres. O uso com objetivos estéticos, melhora de desempenho físico, composição corporal ou antienvelhecimento é contraindicado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pode trazer riscos relevantes à saúde, incluindo:
- possíveis efeitos cardiovasculares
- danos ao fígado
- infertilidade
- alterações irreversíveis como engrossamento da voz e aumento de pelos
Testosterona e menopausa

Diferentemente do que se imagina, a testosterona não sofre uma queda abrupta com a menopausa. Sua redução ocorre de forma gradual ao longo da vida adulta.
Esse marco do fim da vida reprodutiva ocorre devido à perda da função dos ovários e declínio nos níveis de estrogênio, hormônio muito importante para o ciclo menstrual.
Sendo assim, também não existem valores de referência para testosterona validados que definem uma “deficiência androgênica feminina” nas fases da menopausa.
Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo

O TDSH é uma disfunção sexual comum entre as mulheres e envolve múltiplos fatores psicológicos, biológicos, comportamentais e relacionais. Gera sintomas como:
- ausência ou redução do desejo sexual espontâneo
- pouca ou nenhuma resposta a estímulos eróticos
- dificuldade em manter o interesse durante a atividade sexual
- sofrimento ou impacto na qualidade de vida
Mas existem outros fatores associados a queixas sexuais em mulheres, como:
- uso de medicamentos e condições de saúde
- transtornos psiquiátricos atuais ou passados
- histórico de abuso sexual, físico ou emocional
- crenças e atitudes em relação ao sexo
- distorções de imagem corporal
- uso de álcool e outras substâncias
- estresse
O desejo sexual em relacionamentos de longa duração também pode ser influenciado por fatores individuais e do casal, como:
- expectativas em relação ao parceiro
- autoestima
- estresse e fadiga
- intimidade emocional e comunicação
- compatibilidade e satisfação sexual
- rotina e monotonia
- questões de poder, gênero e repressão sexual
A menopausa é outro marco importante da vida da mulher que pode interferir negativamente no sexo. As alterações hormonais tendem a causar:
- dor na relação
- secura vaginal
- mudanças no corpo
O diagnóstico de TDSH é clínico e não deve ser baseado em níveis hormonais isolados. A testosterona não deve ser utilizada como teste terapêutico.
Em mulheres na pós-menopausa com diagnóstico de TDSH, a testosterona pode ser considerada em doses fisiológicas e por via transdérmica, sempre com acompanhamento médico especializado.
A avaliação profissional é indispensável para identificar a origem do problema e indicar o tratamento mais adequado.
Este artigo contém informações da Resolução CFM nº 2.333/2023, da nota conjunta da SBEM, FEBRASGO e SBC sobre o uso de testosterona na mulher e dos posicionamentos “Desafios da prescrição da testosterona para disfunção sexual em mulheres” e “Manejo do transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres no ambiente ginecológico”, da Febrasgo.

