Doença autoimune pode passar despercebida por anos e só ser descoberta após complicações na gravidez; especialista explica os riscos e o tratamento
Você sabia que alguns anticorpos produzidos pela mãe podem atravessar a placenta e chegar ao organismo do bebê durante a gestação? Na maioria das vezes, é um que processo faz parte da proteção natural do recém-nascido – contudo há situações bastante incomuns em que pode também ser transferidos anticorpos relacionados a doenças autoimunes.
Essa é a Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF). A condição é conhecida por aumentar o risco de formação de coágulos sanguíneos em adultos e gestantes, mas que também pode estar presente, ainda que raramente, em bebês.
Quando a SAF se desenvolve?

De acordo com Tiago Silva, cirurgião pediátrico e diretor médico da Werfen, a Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF) pode acontecer quando a gestante já possui SAF ou apresenta esses anticorpos no sangue, mesmo sem sintomas.
“Por se tratar de uma condição frequentemente silenciosa, muitas mulheres só recebem o diagnóstico após perdas gestacionais recorrentes ou eventos trombóticos”, observa.
Vale ressaltar que, embora a presença de anticorpos antifosfolípides seja relativamente frequente na população geral, apenas uma parte desenvolve a SAF. Além disso, quando a mãe sabe que possui a doença antes ou durante a gestação, o acompanhamento pré-natal especializado reduz o risco de complicações para ela e para o bebê.
Do lado materno, a SAF causa um risco aumentado de trombose venosa e arterial. Para o feto, a principal consequência é a insuficiência placentária, levando à restrição de crescimento intrauterino, sofrimento fetal, prematuridade e até óbito.

“Essas complicações decorrem do comprometimento da circulação placentária causado pelos anticorpos antifosfolípides. O diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado são fundamentais, já que reduzem os riscos e aumentam as chances de uma gestação bem-sucedida para mãe e bebê”, pontua Silva.
Sintomas
Grande parte dos bebês com anticorpos antifosfolípides não apresenta nenhum sintoma e se desenvolve normalmente. Porém, quando há manifestações, elas incluem:
- Problemas relacionados à circulação do sangue;
- Formação de coágulos (trombose);
- Alterações neurológicas, dependendo da região afetada;
- Convulsões em situações específicas;
- Alterações na função de alguns órgãos.
“Diante de uma única perda inexplicada após a 10ª semana de gestação, já existe justificativa clínica para solicitar a pesquisa dos anticorpos antifosfolípides”, afirma o especialista.
Tratamento
O prognóstico da gravidez em mulheres com SAF melhorou consideravelmente nas últimas décadas, segundo o médico. Assim, o diagnóstico em si não impede a maternidade.

“O tratamento convencional em gestantes com SAF inclui aspirina em baixa dose, iniciada idealmente antes da concepção, e heparina de baixo peso molecular ao longo de toda a gravidez e no pós-parto”, explica.
Já em pacientes com histórico de trombose, a anticoagulação é mantida com ajustes para a gravidez. Além disso, o acompanhamento multidisciplinar e o monitoramento ultrassonográfico seriado do crescimento fetal e da função placentária são partes estruturadas do protocolo.

