Samantha Almeida reflete sobre pioneirismo, síndrome da impostora e os desafios da liderança feminina no mercado corporativo
Chegar ao topo e ocupar cadeiras de decisão ainda é, para muitas mulheres, uma travessia solitária — não por escolha, mas por barreiras históricas que o mercado insiste em manter.
Foi com essa franqueza que Samantha Almeida, Diretora de Marketing da Globo, subiu ao palco de um painel promovido pela Vizcaya, que contou com a cobertura do Mulher.
Em uma conversa sobre carreira e reinvenção, a executiva abriu os bastidores de uma trajetória forjada sob a coragem — e a responsabilidade — de quem abre portas para não ser a única a passar por elas.
Lições baseadas em desafios no mundo corporativo
Com passagens por gigantes globais da beleza, agências internacionais como a Ogilvy e redes como o Twitter, Samantha relembrou o início de sua caminhada profissional e o estranhamento de não encontrar espelhos no ambiente corporativo.
“Quando eu era criança, minha mãe fala que eu não brincava de boneca no sentido de ter filhos, de cuidar de bebê. Botava todas elas sentadinhas para estudar. Uma era minha secretária, a outra carimbava coisas para levar para o escritório. Então eu sempre tive um desejo de ter uma carreira bem-sucedida”, revelou a executiva.

Criada sob uma base de incentivo constante dentro de casa, Samantha pontua o contraste que sentiu ao encarar a realidade do mercado.
“Eu fui criada por uma mãe muito empoderadora: ‘Você é maravilhosa, você pode tudo, vai que vai, acredita em você’. Só que quando você chega no mundo, o mundo te dá um ‘Calma, muita calma. Nem tão maravilhosa assim, nem tão pode tudo'”.
“E durante um período, especialmente nesse início de carreira, eu sentia muito — anos depois a gente começou a falar sobre síndrome da impostora — de: ‘Será que eu sei o que eu estou fazendo? O que será que eu estou fazendo aqui? Será que o que eu queria tanto para a minha carreira, será que é possível?'”.
Falta de referências no mundo corporativo
A sensação de inadequação se aprofundava pelas camadas de representatividade que cruzavam seu caminho acadêmico e dos negócios.
“É inevitável dizer que, apesar de termos conexões que todos nos colocam no mesmo lugar, tem recortes dentro dessa visão. Então, eu, como uma menina negra, fiz faculdade de Moda, Administração, cheguei naquele ambiente e me sentia muito sozinha. Porque não conseguia enxergar outros pares ou mesmo ídolos, que não fossem artistas, no mundo corporativo”.
“E eu sempre fui um grande cabelo, sempre tive um cabelo volumoso, sempre fui uma mulher grande, sempre fui alguém muito comunicativa, que parecia que não cabia no corporativo”, relembrou sobre o sentimento de não pertencer a alguns lugares.

Diante da ausência de referências, o caminho encontrado foi inverter a busca: em vez de esperar por quem abrisse a porta, transformar a si mesma na porta de entrada para quem viria depois. Atualmente mentora de mulheres e jovens profissionais, Samantha resume o conselho que guia sua liderança executiva:
“Eu comecei a me perguntar: o que que a gente faz quando a gente não tem referência do que você pode ser? E, honestamente, eu dou muitas mentorias, especialmente para mulheres e muito jovens em início de carreirra e muitas vezes eu digo: seja a referência que você quer, que você sente falta. Seja você, então”.
“Não precisamos e não queremos ser os primeiros para alguma coisa. Se for o primeiro, faça bem, seja o primeiro e garanta que você vai ser o último dos primeiros, mas seja a sua própria referência daquilo que você busca admirar. Essa régua é boa também, porque às vezes a gente se sente sozinho e às vezes é porque a gente só está criando uma coisa que não existia. Está tudo bem”.
Originalidade nos negócios
A visão de Samantha sobre liderança e inovação se conecta diretamente com os desafios enfrentados por empreendedores em tempos de transformação acelerada.
Em um cenário pautado por algoritmos e inteligência artificial, a executiva defende que o verdadeiro diferencial de um negócio ou de uma liderança não está no apego à ferramenta da vez, mas na capacidade de sustentar um ponto de vista próprio.

Para a executiva, a busca por originalidade nos negócios passa, obrigatoriamente, por não esquecer as próprias raízes. “Dentro de originalidade, vem a palavra origem. E origem é o solo de onde você veio. É aquilo que você aprendeu quando estava formando o seu paladar, o seu olhar de mundo, as suas perspectivas”.
Ao unir vulnerabilidade, coragem e autenticidade, o posicionamento reforça uma lição clara para quem empreende e lidera: construir sucesso não é sobre reproduzir fórmulas prontas ou se moldar às expectativas externas, mas sobre ter a coragem de ser pioneiro quando necessário.

