Saúde e bem-estar 06 de abril, 2026 Por Gabriela Brito

Como treinar em cada fase do ciclo menstrual?

Como treinar em cada fase do ciclo menstrual?

Sintomas são mais importantes do que o ciclo menstrual em si para a performance, e adaptações de treino, se necessárias, devem ser feitas de forma individualizada

“Como você se relaciona com seu ciclo menstrual?” deve ser a primeira pergunta feita a uma menina ou mulher antes de se pensar em adaptar um treino físico às fases do ciclo menstrual, afirma Tathiana Parmigiano, primeira ginecologista brasileira a obter o título de Medicina do Esporte.

Em meio ao aumento de conteúdos nas redes sociais sobre adaptar a rotina ou treinos ao ciclo, especialistas explicam ao Mulher que os sintomas que cada mulher sente ao longo do mês são mais importantes para a performance do que as variações hormonais em si

Como o ciclo pode influenciar

sintomas do ciclo menstrual
(Crédito: marymarkevich/ Freepik)

De forma geral, para mulheres que não fazem tratamento hormonal que interfere na ovulação, o ciclo menstrual tem duração entre 21 e 35 dias e é dividido em quatro fases:

  • Fase menstrual: o útero elimina o endométrio e ocorre a menstruação.
  • Fase folicular: começa com a menstruação e vai até a ovulação.
  • Fase da ovulação: período fértil.
  • Fase lútea: do pós-ovulação até a próxima menstruação.

Com as variações hormonais do ciclo, muitos sintomas podem surgir, especialmente na fase lútea:

  • irritabilidade
  • alterações do humor
  • cólica
  • cansaço
  • dor nos seios
  • inchaço

Mas tudo é muito individual. Existem mulheres que não sabem o que é ter dor durante a menstruação, enquanto outras já pararam no hospital por causa de cólicas intensas.

“Hoje, me impacta muito menos quando [a menina ou mulher] me fala que gosta de treinar na fase menstrual. A gente tem que estar aberto para esse tipo de resposta”, conta Tathiana. A ginecologista integrou a equipe médica do Time Brasil nos Jogos Olímpicos de Londres, Rio, Tóquio e Paris.

Primeiro passo: amenizar os sintomas

treino para mulheres
(Crédito: freepik/ Freepik)

Resumidamente, não é que a mulher fica menos capaz de fazer a atividade física, mas algumas “sofrem” mais para fazer o que normalmente fazem porque estão com dor, maior fadiga, mudança de humor ou grande fluxo menstrual, por exemplo. 

Para minimizar o impacto dos sintomas do ciclo menstrual na atividade física é importante cuidar do que se sente.

Principalmente no caso de atletas, pode ser interessante o uso de contraceptivo hormonal – pílula, anel vaginal ou adesivo – para saber exatamente quando vai ocorrer a menstruação.

O coletor menstrual é uma alternativa sugerida pelo profissional de educação física Raul Prado para aquelas que sofrem com a intensidade do fluxo menstrual. 

Mestre e doutor pela Universidade de São Paulo, o especialista estuda há dez anos a relação entre atividade física, performance e ciclo menstrual.  

Outras estratégias sugeridas por Raul são o uso de músicas durante o treino para estimular a pessoa, prática de exercícios em grupo ou dupla ao menos durante o período dos sintomas e até trocar a academia por um parque na hora do aeróbico

O objetivo principal dessas estratégias é motivar a menina ou mulher a não faltar ao treino, algo que deve ser evitado.

Diminuir intensidade do treino é opção

exercícios durante menstruação
(Crédito: javi_indy/ Freepik)

Conhecendo os sintomas, sua intensidade e impacto, atleta ou aluna e o profissional de educação física podem adaptar o treino para melhorar o rendimento

A ginecologista Zsuzsanna Jamy Di Bella, da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia, explica como as fases do ciclo são encaradas de forma geral:

  • Fase folicular: “Treino tende a ser mais bem aceito e se espera um desempenho melhor, tanto de força quanto de potência.”
  • Fases lútea e menstrual: “Algumas mulheres podem ter uma menor resistência a exercícios prolongados e uma sensação de esforço maior do que na primeira fase do ciclo.”

“Mas como a gente falou, isso varia. Considerar o ciclo menstrual para os treinos é uma opção interessante, mas não deve ser feito de forma uniforme para todas as mulheres.

Tathiana afirma que é errado subestimar o que uma mulher vai fazer ou como vai treinar por ideias generalizadas do ciclo menstrual. 

Raul também lembra que os sintomas de uma mesma pessoa podem, inclusive, variar de um ciclo para outro

Para o especialista, a pergunta que deve ser feita é “Como você se sente no dia do treino?”:

  • Está bem para treinar: “Rotina de treino normal, vamos fazer o que está prescrito.” 
  • Está melhor do que normal: “Vamos talvez aperfeiçoar esse treino, colocar uma carga maior se for possível.”
  • Está desconfortável ou com menos motivação: “Talvez diminuir o volume de treino ou a intensidade.”

Os especialistas explicam que manter a frequência nos treinos é o mais importante quando se pensa em desempenho e progressão.

Por exemplo, se o plano era correr 5 km em 20 minutos, é preferível fazer esse percurso em mais tempo, se necessário, do que pular o treino. 

Outras situações que podem influenciar

Tathiana afirma que o ciclo menstrual não deve ser colocado como fator central da performance da mulher. Ela, Raul e Zsuzsanna listam outros fatores que podem influenciar:

  • Frequência do treino
  • Nutrição
  • Sono
  • Fatores genéticos
  • Composição corporal
  • Local do treino (por exemplo: sensação de segurança) 

Falar de sintomas ainda não é comum

treinar durante menstruação
(Crédito: freepik/ Freepik)

Raul é também professor e pesquisador na Universidade de Mogi das Cruzes e Universidade de Guarulhos. Ele começou a estudar o desempenho das mulheres no esporte e a influência do ciclo menstrual quando percebeu que muitos estudos acabavam não considerando mulheres justamente por conta da menstruação.

As pesquisas eram feitas apenas com homens, e os resultados eram refletidos para as mulheres, desconsiderando diferenças biológicas.

Além de falar sobre ciclo menstrual em suas aulas, ele também criou a página A Ciência da Mulher no Instagram, para estimular a divulgação científica dessa área.

Ainda hoje, ele acredita que o tema é tratado como tabu pela sociedade. “Recentemente, um aluno veio me perguntar como abordar as alunas para conversar sobre menstruação. Como a gente tem tanta liberdade para tocar na aluna para fazer exame de dobras cutâneas – avaliação de composição corporal – e não tem essa liberdade para conversar sobre o ciclo dela? É só ter respeito”, afirma o professor.

“Se ela acha que é um fator que impacta a rotina dela, vamos conversar. Dá para falar sobre qualquer coisa se você tem um ponto de vista profissional e de respeito, você tem liberdade para isso.”

Este texto também conta com informações do portal Ela da Febrasgoe da Escola de Educação Física e Esporte da USP.

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