Entre desafios e descobertas, Ilvia Marisa encontrou na maternidade atípica a força para transformar amor em cuidado diário
Existem amores que nascem para transformar vidas – e o dela nasceu junto com a filha, em 2009, após uma gestação marcada por inúmeros percalços.
Hoje, aos 47 anos, Ilvia Marisa dedica a vida a cuidar e acompanhar a evolução de Ilvia Helena, que recebeu o mesmo nome da mãe em homenagem à ancestralidade da família.
A renúncia à carreira profissional como pedagoga foi uma escolha consciente, assim como ter continuado com a sua única gestação, tão esperada por ela e o marido, quando soube que seria uma mãe atípica. A seguir, saiba mais sobre a história dela.
Gravidez de risco e o “nascimento” de uma mãe atípica

Diferente de muitas, a história de Ilvia Marisa como mãe atípica começou com Ilvia Helena ainda em sua barriga.
Isso porque a pedagoga tratava uma toxoplasmose – infecção transmitida por um protozoário via ingestão de carne crua/mal cozida e água contaminada – quando descobriu que estava grávida de um mês.
Contudo, mesmo ouvindo diretamente de diversos médicos que a doença prejudicaria a formação cerebral e morfológica do feto, seguido de conselhos para que ela o abortasse, Ilvia Marisa escolheu continuar com a gestação de risco.
“Abortar não era uma opção. Inicialmente, nenhuma dessas informações me abalou, eu só queria tomar os remédios e me cuidar para gestar minha filha. Nunca pensei em interromper o meu sonho de vida de ser mãe, e o meu marido abraçou isso”, relembra Ilvia Marisa em entrevista ao Mulher.
Os exames feitos ao longo da gravidez confirmavam que Ilivia Helena nasceria com alguma questão de saúde. De fato, ela chegou ao mundo pesando pouco mais de 1 kg e meio, com o diagnóstico de deficiência intelectual (DI) e deficiência auditiva bilateral, precisando ficar na UTI neonatal até completar dois meses de vida.

Mas o que poderia assustar, na verdade, despertou ainda mais garra em Ilvia Marisa – força que ela encontrou nos ensinamentos da mãe e em sua religiosidade.
“Na época, eu me senti a ‘Mulher-Maravilha’. O meu único meu medo era não poder exercer o meu papel, não pegá-la no colo. Minha mãe sempre me mostrou que a vida é um ‘balancear’. Se a encaramos, tudo se organiza com o tempo. O nascimento da Ilivia Helena também fez eu me apegar ainda mais à minha fé, onde eu encontro respostas”, afirma.
Ilvia Helena é o maior presente da mãe

Aos 16 anos, Ilvia Helena tem a mentalidade de alguém de 12. Ela não se expressa verbalmente, apenas em Libras, mas cantarola ritmos e é dona de uma personalidade vibrante. “Minha filha é carinhosa, empática, alegre e muito espontânea. Acredito que isso seja fruto do acolhimento e amor que ela recebe de mim e do pai”, conta a mãe.
E é justamente por todo o cuidado e compreensão dedicados em tempo integral à filha que Ilvia Marisa não esconde seu maior medo: que a menina não encontre o mesmo amparo quando ela já não estiver mais por perto.

“Eu me preocupo muito com a importância de ela se reconhecer como pessoa e ter autonomia, porque eu não vou viver para sempre. Preciso que ela saiba caminhar sozinha. Uma das maiores mudanças que precisamos é que sociedade aja com mais paciência e empatia com pessoas PCD [Pessoa com Deficiência]”, desabafa.
Isso porque, ao mesmo tempo em que os diagnósticos de Ilvia Helena transformaram a vida de Ilvia Marisa – que garante que a filha hoje frequente sessões de fisioterapia e fonoaudiologia em clínica especializadas, além de equoterapia [terapia com cavalos] -, eles também fizeram diversos familiares e amigos do casal se afastarem.

Por isso, sua maior rede de apoio são as outras mães atípicas que levam os filhos ao Instituto Olga Ko, instituição sem fins lucrativos que trabalha a inclusão de pessoas com deficiência ou em situação de vulnerabilidade, também frequentado por Ilvia Helena.
“Eu, inclusive, sempre abro meus braços e acolho as novas mães [na instituição]. Todas têm o meu mais profundo respeito pela garra e amor que demonstram pelos filhos. Quando vejo que alguma delas está triste, digo: ‘Você precisa entender que seu filho veio para você por algum motivo. O que você quer alcançar com ele? Veja o copo meio cheio, e tenha fé e coragem'”, pontua Ilvia Marisa.
Afinal, se toda maternidade exige reinvenção, ser mãe atípica é se redescobrir diariamente – muitas vezes, como revela Ilvia Marisa, mais de uma vez em um só dia.

“Muitas pessoas acreditam que existe só sofrimento para mães atípicas, mas toda mãe tem seus altos e baixos, já que é sobre amar, criar e educar outra pessoa que não é você. Mesmo com poucas expectativas, meu maior desejo é sempre ver minha filha expressando felicidade e satisfação no rosto”, diz.

