Ana Paula dos Santos Faria explica como é a rotina de uma fotógrafa de parto, relembra o nascimento mais marcante da carreira e fala sobre a missão de preservar um dos momentos mais importantes da vida de uma família
Quem vê as fotos emocionantes do primeiro encontro entre pais e filhos dificilmente imagina o trabalho que existe por trás de cada registro.
Afinal, para uma fotógrafa de parto, a rotina envolve plantões sem horário definido, equipamentos sempre prontos e a responsabilidade de documentar um dos momentos mais transformadores da vida de uma família.
Foi justamente esse propósito que levou Ana Paula dos Santos Faria a trocar ensaios e eventos pela fotografia de nascimento. Hoje, após mais de uma década de dedicação exclusiva à área, ela já registrou mais de 650 partos e coleciona histórias que marcaram sua trajetória.
Como surgiu a paixão pela fotografia de parto

Ana Paula começou a trabalhar com fotografia em 2008, logo após se formar. Durante vários anos atuou em festas infantis, ensaios de família e casamentos, até descobrir um universo que mudaria completamente sua carreira.
“Em 2014 comecei a estudar fotografia de parto. Sempre fui apaixonada por histórias reais e percebi que nenhum momento era tão intenso e transformador quanto o nascimento de um bebê”, conta.
No ano seguinte, ela iniciou o processo de credenciamento nas maternidades para atuar dentro dos hospitais, aprendendo protocolos médicos e a dinâmica das equipes de saúde. No mesmo período, também viveu a experiência da maternidade com o nascimento do próprio filho, Felipe.
“Ser mãe fortaleceu ainda mais minha certeza de que estava no caminho certo”, afirma ela, que passou a se dedicar exclusivamente aos registros de nascimento desde então.
Rotina

Ao contrário de outras áreas da fotografia, o nascimento não pode ser marcado com dia e horário: o bebê é quem decide quando chegar. Por isso, Ana Paula, que tem sua própria empresa, a “Ana + Rafa, Foto e Afeto”, vive permanentemente de sobreaviso.
“Preciso manter os equipamentos prontos, baterias carregadas, cartões organizados e o celular sempre por perto. Existem partos que acompanho por mais de 20 horas”, pontua a fotógrafa.
Essa disponibilidade, contudo, também exige uma grande estrutura familiar. O marido de Ana Paula, Rafael, é sócio do negócio e cuida da parte operacional, logística e dos bastidores enquanto ela está nas maternidades.
Além disso, uma rede de fotógrafas parceiras ainda garante cobertura caso dois ou mais partos aconteçam simultaneamente.

“Existem semanas em que nenhum bebê nasce e outras em que todos resolvem chegar ao mesmo tempo. Ter esse apoio é fundamental para que nenhuma família fique sem atendimento”, explica Ana Paula.
A história que nunca saiu da memória

Depois de acompanhar centenas de nascimentos, escolher apenas um momento marcante não é tarefa fácil. Ana Paula diz que sempre se emociona quando os pais optam por descobrir o sexo do bebê apenas no parto, mas existe uma história que permanece viva em sua memória.
Ela relembra uma cliente que, durante a primeira gestação, sofreu um descolamento prematuro de placenta por volta das 35 semanas e perdeu o bebê. Embora não tenha fotografado aquele nascimento, permaneceu ao lado da família oferecendo acolhimento.
Cerca de um ano e meio depois, recebeu uma nova ligação: a mesma mulher queria registrar o momento em que revelaria ao marido uma nova gravidez durante uma consulta médica.
Mais tarde, Ana Paula também fotografou o nascimento desse bebê. “A família escolheu a mesma equipe médica da gestação anterior. Ver todos reunidos, emocionados e celebrando aquela nova vida foi inesquecível. Sempre que lembro dessa história, meus olhos se enchem de lágrimas”, diz.
Como registrar sem interferir no parto

Segundo a fotógrafa, a confiança construída com a família é o que permite registrar momentos tão íntimos sem interferir no ambiente: “A fotografia de parto começa muito antes da câmera. Ela começa com a escuta.”
Assim, durante o nascimento, ela procura ser praticamente invisível, respeitando tanto o espaço da família quanto o trabalho da equipe médica.
“A técnica é importante, mas é a sensibilidade que faz diferença. Meu objetivo nunca é dirigir a cena, e sim preservar a verdade daquele momento”, observa Ana Paula.
A maior lição de acompanhar mais de 650 nascimentos

Depois de tantos registros, Ana Paula afirma que aprendeu uma das maiores lições da vida. “Nenhum nascimento é apenas sobre um bebê. A cada parto também nasce uma mãe, um pai e uma família”, ressalta.
De acordo com ela, acompanhar tantas histórias também ensinou a valorizar os pequenos instantes e compreender que cada nascimento é único, independentemente da forma como acontece.
“Tenho certeza de que meu trabalho vai muito além da fotografia. Eu ajudo a preservar memórias que, com o passar dos anos, se tornam um dos bens mais valiosos de uma família”, revela.

