Entenda como é o rastreamento de câncer de mama em mulheres jovens, quais fatores se leva em conta na hora de definir os exames e o que fazer para cuidar da saúde antes da idade da mamografia
Ainda que, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a maioria dos casos de câncer de mama ainda aconteça em mulheres a partir dos 50 anos, dados mais recentes sobre o câncer de mama em mulheres jovens mostram que esse cenário está mudando.
Segundo levantamento do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), o período entre 2018 e 2023 registrou mais de 108 mil casos de brasileiras com menos de 50 anos recebendo o diagnóstico. Além disso, outro estudo conduzido por pesquisadores do INCA e publicado no periódico científico BMC Cancer mostra que a incidência da doença em mulheres com menos de 40 anos aumentou 1.6% entre 2010 e 2015.
Isso indica que, apesar do rastreamento do câncer de mama priorizar uma faixa etária, é, sim, necessário se conscientizar e buscar aconselhamento personalizado antes dela. Confira abaixo como procurar esse acompanhamento e o que pode ser feito mesmo antes dos 50 anos para rastrear o câncer de mama em mulheres jovens:
Câncer de mama em mulheres jovens: cenário atual, impacto e mais
Conforme informações da organização norte-americana National Breast Cancer Foundation (NBCF), o câncer de mama em mulheres jovens costuma se comportar de forma diferente, ser detectado em outro momento de evolução e afetar a vida da paciente de forma particular.
Um dos fatores que ajudam a explicar essas diferenças é a genética. O diagnóstico em idade jovem é um sinal típico de predisposição hereditária ao câncer de mama, segundo um estudo publicado no periódico Cancers. Ou seja: em parte desses casos, a doença vem de alterações genéticas herdadas, que podem ser investigadas antes da doença aparecer. É o caso das mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, que aumentam bastante o risco de câncer de mama e de ovário, inclusive de tipos mais agressivos.
Além disso, como não existe um protocolo único de rastreamento do câncer de mama em mulheres jovens, o câncer pode passar despercebido por longos períodos e ser diagnosticado em estágios mais avançados.
Isso tudo não significa, porém, que toda mulher, independentemente da idade, deve buscar a realização de mamografias anuais. Nesse contexto, é importante entender por que esse exame é recomendado apenas para uma faixa etária específica – além de saber quais são os outros caminhos possíveis.

Indicações da mamografia
Programas de rastreamento, inclusive no caso do câncer de mama, levam em consideração não apenas a incidência da doença em uma faixa etária, mas também o equilíbrio entre riscos e benefícios de realizar os exames.
Além da doença ser mais comum a partir dos 50 anos, o exame pode ter limitações em mamas jovens. Isso porque, na juventude, o tecido mamário tende a ser mais denso, o que dificulta a visualização de tumores. Além disso, exames em idades mais jovens elevam o risco de falsos positivos, que podem levar a exames extras desnecessários, como biópsias.
Sendo assim, um consenso recente entre a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e o CBR indica mamografias anuais dos 40 aos 74 anos.
Além disso, esses órgãos também indicam que, em mulheres com risco igual ou superior a 20% (algo calculado por dados de histórico familiar), o exame comece 10 anos antes da idade do diagnóstico de câncer no parente mais jovem, desde que não antes dos 30 anos.
Dessa forma, pelo consenso dos órgãos de saúde, uma mulher cuja mãe teve o diagnóstico aos 45 anos pode começar a fazer mamografias aos 35 caso haja risco aumentado. Além disso, a diretriz significa também que mulheres, mesmo sem casos na família, busquem o médico para iniciar o exame a partir dos 40 anos.
O Ministério da Saúde, porém, não abrange as mesmas recomendações – e, por isso, o SUS oferece a mamografia a cada dois anos para mulheres entre 50 e 74 anos, ou para as de 40 a 49 anos que tenham indicação médica (e sem periodicidade definida).
Sendo assim, atualmente, o Ministério da Saúde indica a mamografia a cada dois anos para mulheres entre 50 a 74 anos, e sob demanda para mulheres entre 40 e 49 anos que tenham indicação médica com base em riscos aumentados. Nesse caso, o exame pode ser realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Em qualquer caso, a decisão de fazer o exame antes dos 50, portanto, deve ser tomada junto com um profissional de saúde.
Outros exames que podem participar da rotina

A mamografia, no entanto, não é a única ferramenta que ajuda. Dependendo do perfil da paciente, outros exames podem ganhar espaço mesmo quando não existe indicação para mamografias – e mesmo em mulheres jovens. Entenda abaixo cada uma das possibilidades dentro da rotina de cuidados com a saúde da mulher:
Teste genético
Esse exame pode ser indicado para quem tem histórico familiar sugestivo de mutação, como câncer de mama ou de ovário antes dos 50 anos em parentes, vários casos do mesmo lado da família ou câncer de mama masculino. O resultado ajuda a definir o risco da paciente, mas um teste negativo não descarta risco elevado quando há histórico familiar importante.
Ultrassom das mamas
Ainda que não seja uma técnica de rastreamento, a ultrassonografia das mamas pode ser feita em mulheres de risco habitual, com início e periodicidade definidos na consulta. Além disso, em casos de mulheres com mamas densas após os 40 anos, ela pode ser indicada para complementar a mamografia anualmente.
Ressonância magnética
Este é um dos principais exames para mulheres que têm alto risco de desenvolver a doença. A ideia é realizá-lo uma vez ao ano, começando entre 20 e 30 anos, conforme o perfil de risco.
Exame clínico das mamas
Ainda que não entre como tática de rastreamento, esse exame faz parte da rotina de cuidados com a saúde da mulher e é o primeiro passo para avaliar qualquer queixa. Ele deve acontecer durante as idas ao ginecologista, ou quando houver algum sintoma a se investigar.
Passo a passo para buscar orientação antes dos 50 ou 40
Antes dos exames para rastrear câncer de mama, vem o entendimento sobre os riscos que a mulher tem de desenvolver a doença. Sendo assim, o primeiro passo em qualquer faixa etária é uma conversa com um especialista – que deve acontecer o quanto antes em casos de histórico da doença na família.
Qual médico procurar primeiro para rastrear câncer de mama
A Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) orienta que a mulher converse com um mastologista, ginecologista ou radiologista de confiança. Essa conversa servirá para avaliar o risco individual da paciente de desenvolver a doença, levando em consideração exposição à radioterapia no tórax antes dos 30 anos, casos de câncer na família e mais.
Em alguns casos, isso parte, por exemplo, para testes genéticos que avaliam a presença de mutações. A partir disso, a paciente pode ser encaminhada, por exemplo, a um geneticista.
Com o risco individual estabelecido, o médico em questão monta um plano de rastreamento personalizado, que pode contemplar mamografia, ultrassonografia, ressonância e mais, todos com periodicidade definida de acordo com a necessidade particular da paciente.

Quando buscar o médico
A mulher deve buscar um médico caso apresente sintomas de câncer de mama (como nódulos, pele repuxada, entre outros), quando completar 30 anos para realizar a estimativa de risco, e também quando:
- Tem histórico de câncer de mama ou ovário em parentes de primeiro grau, especialmente se o diagnóstico aconteceu na juventude;
- Tem casos de câncer de mama masculino na família;
- Fez radioterapia no tórax antes dos 30 anos;
- Tem alguma mutação genética já conhecida na família;
- Apresenta fatores de risco como obesidade, alto consumo de álcool e sedentarismo;
- Teve a primeira menstruação antes dos 12 anos.
Exames e periodicidade
Os exames recomendados e a frequência de cada um dependem do perfil de risco da paciente. Em geral, porém, as diretrizes brasileiras preveem:
- Mulheres com risco habitual até os 40 40 anos: nenhum exame de imagem de rotina caso não haja alterações;
- Mulheres com risco habitual a partir dos 40 anos: mamografia anual até os 74 anos;
- Mulheres com mamas densas a partir dos 40 anos: mamografia anual e ultrassonografia anual como complemento opcional;
- Mulheres de histórico familiar com risco igual ou maior que 20% ao longo da vida: mamografia e ressonância anuais, começando 10 anos antes da idade em que o parente mais jovem teve o diagnóstico (nunca antes dos 30);
- Casos com mutação no BRCA1, ou de mulheres que ainda não fizeram o teste genético mas têm parente de primeiro grau com essa mutação: ressonância anual a partir dos 25 anos e mamografia anual a partir dos 35;
- Casos com mutação no BRCA2 ou em outros genes de risco para câncer de mama, como PALB2, ATM e CHEK2: ressonância e mamografia anuais a partir dos 30;
- Casos com mutação no TP53: ressonância anual a partir dos 20 anos e mamografia anual a partir dos 30;
- Casos de radioterapia no tórax antes dos 30: mamografia e ressonância anuais a partir do oitavo ano após o tratamento (sem mamografia antes dos 30, e sem ressonância antes dos 25).

