Ginecologista explica como o preconceito ao redor dos procedimentos íntimos afasta as mulheres da qualidade de vida
Durante muito tempo, a estética e a saúde íntima feminina foram tratadas como temas proibidos ou, quando raramente abordados, cercados de tabus e julgamentos morais.
Hoje em dia, se provou ser vez mais necessário falar sobre esses assuntos, garantindo qualidade de vida, autonomia e bem-estar para muitas mulheres que sofrem com queixas diariamente e — por medo e vergonha — nem sempre procuram ajuda.
Estética íntima tem impacto imenso na autoestima e saúde mental da mulher
De acordo com a Dra. Fernanda Nasser, médica ginecologista, referência nacional em saúde e estética íntima feminina e fundadora da clínica La Femme, o preconceito ao redor do tema historicamente afastou as mulheres do cuidado com o próprio corpo.
“A estética íntima ainda é muito envolvida por tabus. Antigamente, as pessoas imaginavam que a estética íntima era apenas para mulheres que tinham muitas relações sexuais ou que eram promíscuas”, afirmou durante o Aurora, maior festival de beleza, bem-estar e saúde, na presença do Mulher.
“Por muito tempo o assunto foi julgado com essas informações. O que temos feito hoje é tentar desmistificar isso e mostrar que a estética íntima é para a mulher que tem algum desconforto ou uma situação que gera dificuldade no dia a dia”, reforçou a ginecologista.

Impacto vai além do espelho
Ao longo da vida — seja por alterações hormonais, gestação, parto vaginal, menopausa ou envelhecimento natural — o corpo feminino passa por diversas mudanças.
Queixas como incontinência urinária, atrofia e ressecamento vaginal, frouxidão e excesso de pele na região vulvar são frequentes nos consultórios.
Quando esses problemas não recebem o devido cuidado, os reflexos ultrapassam o incômodo físico local, afetando a saúde mental e a vida conjugal da paciente.
“Isso impacta na saúde psicológica da paciente e a saúde psicológica está diretamente ligada à saúde mental. A mulher que não tem uma boa autoestima e não reconhece o corpo como bonito vai ter um impacto na sua saúde mental”, explica a Dra.
“Não é só sobre futilidade: é sobre auxiliar a mulher dentro de um processo no qual ela pode até entrar em depressão, não querer mais ter um relacionamento ou se fechar para uma nova vida sexual”.
Um dos cenários mais comuns relatados pela médica ocorre no período da menopausa ou no pós-parto, quando o ressecamento vaginal transforma a intimidade em um momento de dor.

“Muitas vezes, esses ressecamentos vaginais impedem a mulher de ter um relacionamento. Se ela vai ter a relação e sente dor e desconforto, aquilo cria uma trava. Ela pensa: ‘Vou ter relação para quê? Para ficar com dor?’. O parceiro já acha que ela não gosta mais dele e vai virando uma bola de neve”.
“Na verdade, ela não quer a relação porque sabe que vai se machucar e aquele machucado demora para sarar. Só que essa mulher precisa trabalhar, cozinhar, levar o filho ou o neto na escola e a dor acaba impactando diversas outras esferas da vida dela”.
A importância de não normalizar a dor
Um dos maiores obstáculos no tratamento das disfunções íntimas é a tendência de encarar o sofrimento ou o incômodo como uma consequência inevitável do tempo ou da maternidade. A Dra. Fernanda alerta que a falta de escuta qualificada muitas vezes perpetua o problema.
“O mais importante é não normalizar os desconfortos. Muitas vezes a mulher está na menopausa, teve filho ou está com flacidez e chega a um profissional que normaliza a situação e diz: ‘É normal, fica tranquila, vai para casa e conviva com isso’. Nós não podemos normalizar aquilo que incomoda a paciente”.
A médica fez um paralelo simples com os cuidados dermatológicos faciais para questionar por que a região íntima ainda recebe um tratamento diferente.
“Se alguém chega à dermatologista com rugas no rosto, ela vai aplicar toxina botulínica. Não vai falar para a pessoa ir para casa e ficar com a ruga marcada na foto. No rosto e no corpo, parece que temos carta branca para indicar procedimentos, mas na região íntima questionam por que mexer”.
“É importante deixar claro: não queremos colocar um padrão de beleza ou padronizar a anatomia. Queremos tratar aquilo que está incomodando, respeitando o desconforto individual de cada mulher”, reforçou.

Acolhimento e tecnologia
O avanço da ginecologia regenerativa trouxe tratamentos não invasivos e procedimentos cirúrgicos de precisão que devolvem a funcionalidade e o conforto anatômico.
Recursos como laser, fototerapia infravermelha e radiofrequência auxiliam no estímulo de colágeno, na melhora da lubrificação e na firmeza dos tecidos, enquanto procedimentos cirúrgicos — como a ninfoplastia ou a perineoplastia — corrigem assimetrias e excessos de pele.
Além da tecnologia, no entanto, o fator determinante para o sucesso do tratamento é a criação de um ambiente em que a mulher se sinta segura para expor suas dores sem julgamentos.
“O que mais queremos no momento em que temos uma incontinência, um excesso de pele ou uma alteração que leva à queda da qualidade de vida é encontrar um lugar onde possamos falar sobre o que incomoda e ser acolhidas”.
“A transformação vai muito além do espelho: é vivenciar um dia a dia com mais qualidade, conseguir fazer uma atividade física, pedalar sem dor ou vestir uma calça sem que fique marcando. É fazer com que as mulheres olhem para si mesmas com muito mais carinho e conforto”, finalizou.

